Raquel Ochoa | Escritora

Pedro Almeida Vieira | Escritor

O Senhor António lava as chávenas. Na verdade, desinfecta. Álcool gel, comprado nos indianos, que afinal são bengalis, ali perto da derradeira loja de bengalas, que, dizem, fechará em breve porque vão morrer os velhos todos, e os novos não chegarão a velhos, e assim jamais precisarão delas, pois se finam num piscar de olhos apenas pelo sopro daquele vírus, que, dizem, por aí anda muito inteligente, portanto, diligente, a ceifar como Peste Negra. Foi aquilo que o Senhor António ouviu, ou ouviu aquilo que outros antes ouviram, e depois relatam, já nunca bem se sabendo onde tudo começou nem quem falou em primeiro nem em último, muito menos em terceira mão; pela boca do Senhor António, sem apelido, não ficaríamos elucidados, porque pouco ou nada fala, além do bom dia, boa tarde, são um euro e cinquenta cêntimos pelo pastel de nata e bica, e coisas do género. Outra atitude, julga ele, não se esperava dele. O café, estabelecimento, é dos clientes; eles que falem e se entendam, até porque muitos são especialistas em assuntos complicados, e a sua pessoa, António, vai apenas apanhando aqui umas advertências, ali umas recomendações, acoli uns conselhos. Foi, aliás, por uma advertência, escapou-lhe se provinda da britânica University of Oxford ou da burquinabê Université de Ouagadougou, que trocou o álcool gel pelo Sonasol para lavar as chávenas… Entretanto, na mesa junto à janela, dois fregueses levantam a voz, ou assim parece ter sucedido, até para dar jeito à narrativa que se inicia, portanto…

Abel – … sim, até pode ser como dizes, mas estás a esquecer-te de uma coisa: ao tirarem os direitos das pessoas aos poucos, faseadamente, toda a gente compreende e acata. Apesar de ser gradual, a retirada dos nossos direitos está a acontecer. Se isto fosse feito de repente toda a gente desconfiava e se revoltava.

Caim – Ok, mas então concretiza. Quem está por detrás disto? Quem é o cérebro deste plano… desta maquinação para o mundo inteiro?

Abel – Não me lixes! Ninguém vai terá uma resposta “certa”. Nem há um cérebro, nem dois. Não esperes uma resposta “certa” para aquilo que nos anda a suceder. Muito menos validada pela comunicação social. Resta-nos apenas reconhecer que há algo muito mal contado.

Caim – Contado? Como assim mal contado? Isto não é nenhuma história.

Abel – Parece. Esta “nova normalidade”, a realidade que nos é apresentada, é consolidada por repetição, que nos pica e replica, não sentes que isto é repetido nos jornais e telejornais doentiamente?

Caim – Repete-se porque acontece todos os dias, e em todo o lado. Isto é real.

Abel – É real ou surreal? Quando todas as televisões e jornais dizem o mesmo, não desconfias desse unanimismo? Quando vês notícias saírem de uma agência noticiosa de um qualquer lado do Mundo e acabar acriticamente publicada em todo o globo com traduções à la Google, achas normal? Repete-se uma mensagem única, mesmo se errada, e entranha-se. E quem defende o método científico de validação da informação passa a ser um negacionista. Eu sou um afirmacionista! Um afirmacionista da realidade, da verdade. 

Caim – Tu acreditas mesmo no que estás a dizer!… Já te ocorreu que isto pode mesmo estar a acontecer?

Abel – Olha, és filho de agricultores, não é?

Caim – Com muito orgulho!

Abel – E tens razão para isso, embora nas últimas décadas parece que nos querem fazer crer que só comemos tecnologias…. Enfim, sabes certamente o que é uma monocultura intensiva. Conheces os seus efeitos?

Caim – Quem não conhece?!

Abel – Quais são, então? Diz lá!

Caim – Mas isto agora é um exame?! Que tem isto a ver com o que estamos a falar?

Abel – Vais ver que tem. Diz lá.

Caim – Se for uma monocultura agrícola podemos ter uma desflorestação, uma redução da biodiversidade, os solos ficam áridos, as águas subterrâneas cheias de nitratos e daqueles pesticidas marados, como o glifosato… Satisfeito, senhor professor?

Abel – Muito! É isso mesmo.  Temos os malefícios da monocultura agrícola para a vida e para as águas e solos; e temos os danos de uma mononarrativa intensiva, danosa para a nossa saúde mental e para aquilo que estabelecemos como sociedade.

Caim – Fazes-me rir! Essa lógica parece-me mais da batata. Escuta. Admito que esta história tem muitos hiatos, e às vezes até perde coerência. Como naquilo da máscara que não servia para nada, depois já não era assim, e agora dizem que é vital. E admito que as pessoas não conheciam muita informação sobre doenças infecciosas e estão com medo. Mas…

Abel – Morrem 16 pessoas por dia, em média, de pneumonia. Houve muitas mais mortes de pneumonia em Junho do ano passado do que por esta suposta pandemia. Morrem em alguns invernos quatro ou cinco mil pessoas por causa das gripes… E de repente, temos os Estados e os seus governantes tão preocupados que nos fecham em casa, nos proíbem as mais básicas funções das nossas vidas? E sabes que mais?

Caim – Espera, deixa-me agora falar… Se não me deixas acabar o raciocínio não é uma conversa.

Abel – Continua então…

Caim – Isto é demasiado contagioso. Se não travas isto na raiz, na base, se os governos não agissem como agiram, seria o descontrolo completo.

Abel – Como sabes isso?

Caim – Ora, basta ver as notícias. Ou os estudos que se fazem e…

Abel – … e que aparecem nas notícias, claro. E quantos estudos já se fizeram que não aparecem nas notícias, sabes?… Ou melhor quantos estudos deixam de ser feitos porque os investigadores sabem que dificilmente, neste estado das coisas, receberiam financiamento ou atenção pública? Meu caro, a objectividade e imparcialidade na imprensa são um mito. Um jornalista é sempre subjectivo e parcial logo no processo de selecção das notícias e das pessoas a quem dá voz. Quantos debates já viste onde se confrontam diferentes estratégias, soluções e medidas para esta crise? Tudo o que saia do mainstream é logo catalogado de negacionista, bolsonarista ou trumpista, mas este já foi. Enfim, tudo resvala para uma discussão ideológica, de crenças, de fé. 

Caim – És negacionista quando negas que são as medidas tomadas pelos Governo que evitaram um desastre ainda maior. Tem se pôr medo às pessoas, se não era maior o descalabro. O medo é bom!

 Abel – Isso é uma falácia, porque é contrafactual, pois o teu opositor jamais conseguirá apresentar provas do oposto. Mas, repara, também é um silogismo falacioso. Primeiro, dizem-nos: as medidas rigidíssimas eram, são e serão necessárias porque, caso contrário, ocorreria e ocorrerá um geral morticínio não quantificável mas sempre elevado. Segundo, dizem-se que nunca seria possível prever que a suspensão de consultas, exames e cirurgias venham, ou estejam já, a causar um morticínio posterior, não havendo, além disso, provas de esse excesso de óbitos dever-se a tais situações. 

Caim – E, então?

Abel – Então conclui-se que, havendo certezas de que sempre haveria morticínio elevados, mesmo não quantificável, sem medidas contra a suposta pandemia e, não havendo certezas de as suspensões de serviços médicos habituais resultarem em mortes, devemos todos bater palmas aos Governos e continuar como estamos. Aquiescendo a bem da Nação.

Caim – Aquies… quê? Não exageres. Isto são medidas até que se tenha segurança.

Abel – Eis mais um sinal dos tempos do surreal: os ponderados são agora os radicais! O mote agora é: venha quando estivermos em segurança total. Quando é que isso é possível? Nunca atingirás a segurança total. Nem nesta nem em qualquer doença. As pessoas engolem essa ideia como se fosse verdade. E é outra mentira…

Caim – Estás a ser muito negativo.

Abel – Realista. O que às vezes soa a ser negativo. Mas isso é bem melhor que ser positivo sejam quais forem as circunstâncias, mesmo quando te estejam a enfiar um pau pelo cu acima…

Caim – Hei, hei! Eu sei que durante a pandemia surgiram muitas histórias tenebrosas, em hospitais e em lares, com as quais normalmente não estamos habituados a conviver. Andou-se a falar muito da morte, sempre a falar da morte…

Abel – Mas o que eu te estou a chamar à atenção é exactamente para isso, para a forma como é contada a história! Foi por aí que começámos, não foi? Fez-se uma exploração vergonhosa dos instintos básicos do ser humano: o medo de morrermos e o medo da morte de quem amamos.

Caim – OK! mas então o que é que queres dizer com isso? Sinceramente, perdi-me…

Abel – Tudo é uma narrativa. Uma estatística é uma narrativa. As narrativas mostram-nos como o mundo funciona, são importantes. O pior desta narrativa é, além de ser desvirtuada, não tem fim, não te parece? E repara na progressão dramática: não está na hora de acabar?

Caim – No fundo, o que queres tu? Que não se fale disto nas notícias, apenas para te fazer a vontade?

Abel – O que quero é que nos perguntemos porque uma doença que sabemos ser muito perigosa para os idosos, mas afinal estes continuam a morrer em catadupa, nos está a levar ao colapso da sociedade, dos nossos relacionamentos e do nosso comportamento como pessoas. Em suma, queria que indagássemos se o que nos bombardeiam nas notícias afecta mais a vida de cada um de nós do que o vírus em si. Não estamos já cheios, empanturrados com esta narrativa? Não estamos ainda convencidos de que esta narrativa visa mais moldar o nosso comportamento do que proteger a nossa saúde?

Caim – Estamos receosos… e, neste caso, isso é útil! Temos de ter medo para tomarmos precauções. 

Abel – O medo tolda o raciocínio.

Caim – É o medo que nos convence a fugir dos perigos.

Abel – O medo e a fuga não eliminam o perigo, até porque a fuga, muitas vezes, nem te permite concluir que, afinal, não existia qualquer perigo. Quantas vezes o medo é fruto apenas da falta de informação… Se calhar em criança tinhas medo de haver fantasmas debaixo da cama porque, na verdade, não detinhas, na tua inocência, a informação de não existirem fantasmas. Ou que, se pensarmos racionalmente, mesmo se existissem, eles teriam mais para se entreterem do que se meterem debaixo das camas para assustar os putos.

Ilustração de Jorge Coelho

Caim – Mas ouve: temos de nos proteger do desconhecido. E a fuga pode ser a melhor estratégia, nem que seja para se conhecer melhor o inimigo, e sabê-lo atacar. Foi o que se fez. É o que se faz agora. Prudência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Tem sido essa a estratégia do Governo. Aliás, por isso é que eles dizem que contam tudo como morte de corona, mesmo quando tenham dúvidas, para que as pessoas redobrem cuidado.

Abel – E se alimentem do medo. Mas pensa lá bem, isso faz algum sentido? Achas mesmo que a ciência está agora, neste Inverno de 2021, com o mesmo conhecimento sobre a doença que tinha em Dezembro ou até em Março do ano passado? E cristalizou-se o discurso? Continuamos sem opinião própria? Paralisados. Amestrados. É como se estivéssemos todos doentes sem o estar; basta que nos acenem com uma máscara, que é o novo símbolo do estado surreal. Porque é que não discutimos a consistência desta narrativa?

Caim – Ok. Também admito que desejo às vezes que deixem de nos maçar com estas notícias, já sabemos o que nos vão dizer. Mas isso não quer dizer que não seja importante continuar a aparecer na comunicação social.

Abel – É a única coisa que aparece na comunicação social. É como se o mundo tivesse parado. 

Caim – Mas parou!

Abel – Não parou nada! Os emigrantes e refugiados continuaram a chegar à Europa, as guerras continuaram a decorrer, os grupos terroristas continuaram a progredir. Sabes o que anda a acontecer no Norte de Moçambique? Viste o que aconteceu em Hong Kong?

Caim – Ah! Mais ou menos. Ouvi qualquer coisa.

Abel – Mononarrativa… Covid, covid, covid… Acho que se abriu uma garrafa de champanhe naquelas redacções quando se confirmaram os primeiros casos em Março. Aliás, nas semanas anteriores noticiavam-se os casos suspeitos. Quando começaram as mortes, imagino. Todos excitadíssimos por estar algo a acontecer em Portugal. 

Caim – Disso não tenho dúvidas, a comunicação social rejubilou, já se sabe, vivem das desgraças.

Abel – Podem viver da desgraça, do crime, da depressão económica, mas não podem perder o limite do retrato. Sinto que há uma espécie de vergonha por dizer algo contrário ou desviante do que vemos nas notícias. É um sentimento pidesco. Introduz-se nas nossas mentes e tornamo-nos fiscais de nós próprios. Fiscais dos outros, por não corroborarem a mesma conversa.

Caim – Que exagero! Tu estás a ficar paranóico. Se não houvesse regras e estivesse tudo doente é que eu queria ver. Lembra-te: a tua liberdade acaba onde começa a minha. Eu não quero ficar doente, nem ser eu a transmitir o corona a alguém. 

Abel – Engraçado, nunca te vi assim preocupado nos Invernos em que te vi engripado, e quando morreram muitos milhares de velhos em Portugal com pneumonias! Aliás, foi-se do 8 ao 80. Já algumas vez viste uma imagem do vírus mais comum da gripe?

Caim – Não me recordo. 

Abel – Claro que não, porque ninguém lhe dá relevância. Mas há quanto tempo nos estão a impingir imagens do coronavírus com aqueles seus “pináculos” a vermelho, o perigoso vermelho? Mas sabias que aquelas imagens de microscópio são adulteradas? Os tais “pináculos” não são nada vermelhos? Os vírus são tão pequenos que nem interagem com a luz visível, mas apenas com a radiação ultravioleta. Não têm nenhuma cor que nós reconhecemos com estes olhos…Tás a ver?

Caim – Daqui a pouco estás a dizer que o vírus não existe…

Abel – Claro que existe. Assim como tantos outros já existiram, outros continuam a existir e novos vão surgir daqui para a frente. Dentro de cada um de nós vivem, neste momento milhares de vírus. Eu quero estar enganado, eu quero que me convençam de que estou a exagerar, mas à minha volta só vejo pessoas papagueando uma informação tão parecida com propaganda, sem pensamento crítico, totalmente paranoicas. No fundo, não encontro pessoas mais bem informadas do que eu, ou seja, pessoas que me convençam de que estou errado, desculpa a franqueza.

Caim – Hummm, pois, já não sei… Mas, mudando de tema, achas que depois das vacinas vai ser seguro ir ao Algarve? Eu para o estrangeiro é que não vou! Muito menos para a Suécia. A imprensa diz que lá deixaram morrer os velhos nos lares, e que ninguém respeita ninguém. São uns frios, esses gajos lá do Norte da Europa. 

Abel não tem já tempo para retorquir. De supetão irrompe a Brigada Anti-Covid, de bastões em punho. “Está tudo preso!”, grita o General. 

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