Janeiro de 2021 bateu vários recordes trágicos. As culpas lançam-se à covid-19, mas será a pandemia a única responsável pelo morticínio do primeiro mês do novo ano? Como se deve avaliar o impacte da pandemia? É sensato comparar covid-19 com a gripe? Respire fundo e, sem complexos, leia este artigo. E festeje chegar-se cada vez mais à velhice.  

Pedro Almeida Vieira

O ano de 2021 estreou-se com o Janeiro mais mortífero desde 1960, mas a covid-19 só parcialmente explica esta situação. O Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO) aponta, provisoriamente, para 19.603 óbitos, dos quais 5.785 pela covid-19, de acordo com a Direcção-Geral da Saúde (DGS), um valor sem paralelo em mais de meio século. Antes da pandemia, o Janeiro mais mortífero a partir de 1960 – primeiro ano com dados mensais disponíveis no Eurostat – foi o de 1999, quando um forte surto gripal contribuiu bastante para os 14.709 óbitos então registados. Na última década, 2015 e 2016 tinham tido os Janeiros mais letais, contabilizando-se, em cada um, um pouco mais de 13.500 mortes. 

No mês passado, em termos globais, a covid-19 assumiu um papel muito relevante, representando quase 30% da mortalidade total. Um peso relativo muito superior ao observado ao longo de 2020. Também muito por via da metodologia de atribuição da causa do óbito – na generalidade, bastava um teste positivo para que a covid-19 fosse considerada a causa terminal do óbito –, a pandemia terá sido responsável por 5,6% das mortes em Portugal no ano passado. Em Dezembro, porém, atingira já os 18,4%. 

Contudo, sendo certo que o triste recorde de Janeiro de 2021 não seria possível sem a covid-19, houve outros factores relevantes para o número de mortes se ter aproximado tanto das duas dezenas de milhar, tanto mais que a gripe e as infecções respiratórias registam decréscimos significativos desde o surgimento da pandemia. As pneumonias e doenças afins – em grande parte no decurso de surtos gripais – apresentaram reduções muito significativas, implicando necessariamente um decréscimo da mortalidade por estas doenças. Por exemplo, o Office for National Statistics do Reino Unido reportou, na semana passada, um decréscimo em 2020, face à média, de 1.077 mortes por pneumonias, gripes e doenças respiratórias crónicas na Inglaterra em País de Gales. Em Portugal, embora a DGS mantenha uma atitude de grande secretismo em redor das causas de morte não-covid, a monitorização do Serviço Nacional de Saúde (SNS) aponta para uma redução de 80% nos episódios gripais e outras infecções respiratórias (não-covid) em Janeiro de 2021 face ao período homólogo de 2020. Consultando a Plataforma da Mortalidade do SNS, as pneumonias e doenças afins raramente ultrapassam os 1.200 óbitos em Janeiro (40 óbitos por dia), embora a metodologia para a atribuição das mortes por esta doença no período pré-pandemia seja muito distinta. Antes, se um doente terminal com cancro sucumbisse enquanto estava engripado ou com pneumonia, a morte jamais seria atribuída à gripe ou pneumonia. Hoje, num doente terminal que teste positivo ao SARS-CoV-2, a sua morte será atribuída à covid-19. Assim, o verdadeiro impacte da covid na estrondosa mortalidade de Janeiro passado deve ser enquadrado, mesmo se não existe margem para dúvidas do carácter inédito dos valores. 

Desde que existem registos diários do número de óbitos, a partir de 2009, e até 2020, apenas em três dias se tinha ultrapassado a fasquia dos 500 óbitos: dois dias em Janeiro de 2017 (num surto gripal) e outro em Agosto de 2018 (numa onda de calor). O Janeiro de 2021 tornou essa raridade em algo funestamente banal. Desde o dia 5, a mortalidade total superou sempre os 500 óbitos, com nove dias superando os 700 óbitos e mais 13 dias entre os 600 e 699. O triste recorde aconteceu em 20 de Janeiro com 747 óbitos. Antes de 2021, o registo mais trágico é o 2 de Janeiro de 2017 com 578 óbitos. 

Janeiro, contudo, tem duas características particulares que devem ser salientadas. Por um lado, geralmente, é o mês mais mortífero em qualquer ano; por outro, apresenta enorme variabilidade interanual. Por exemplo, na segunda década deste século (2011-2020), o número de óbitos oscilou entre os 10.418 óbitos, em 2016, e os 13.546, um ano antes. Esta diferença corresponde a mais de três mil mortes no total, ou seja, uma diferença de 100 por dia. Noutros anos, as variações foram menores. Por exemplo, Janeiro de 2020, nas vésperas do surgimento da covid-19 em Portugal, contabilizou 1.398 óbitos a mais do que 2016, ou seja, já apenas 45 em excesso por dia.

A maior ou menor mortalidade em Janeiro está associada sobretudo ao grau de agressividade dos tipos e subtipos de vírus de influenza em circulação, à “sorte” das estirpes predominantes integrarem a vacina antigripal da época e, também, às condições climáticas de cada Inverno. No caso da época gripal de 2015-2016, que engloba Janeiro de 2016, tudo correu bem. Segundo um relatório do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), a actividade gripal nesse período foi de “baixa intensidade”, também por força de “todas as 186 estirpes do vírus da gripe A(H1)pdm09”, então prevalecente, serem semelhantes à estirpe vacinal “contemplada na vacina antigripal do Hemisfério Norte 2015/2016”. Já no período que integrou Janeiro de 2017, também de acordo com outro relatório do INSA, a actividade gripal foi considerada de “moderada intensidade”, mas com uma maior incidência no grupo dos maiores de 65 anos e com a dominância do vírus A(H3), de maior letalidade. Ou seja, nessa época gripal observou-se mortalidade excessiva, tendo o INSA estimado que 84% se deveu “à epidemia da gripe sazonal”. Em suma, no passado pré-pandemia, entre um Janeiro de actividade gripal de baixa intensidade e outro de actividade moderada podem “existir” mais de três mil vidas perdidas. 

Esta situação coloca em perspectiva o impacte da covid-19, num contexto mais amplo, integrando-a no grupo das infecções respiratórias. Aliás, o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), nos Estados Unidos, tem vindo a agrupar, para efeitos comparativos, a mortalidade da covid-19, pneumonias e gripe (influenza), classificando estas doenças como PIC (pneumonia, influenza e covid). Deste modo, confronta a situação de 2020 e 2021 com os anos pré-pandemia, sabendo que nos outros períodos o valor do C será de zero, mas os valores de P e I são bem superiores. 

Deste modo, assumindo-se para Portugal, de forma clara e inquestionável, que a actividade gripal na época 2020-2021 será de baixa intensidade, mostra-se aceitável defender, e sem contabilizar o efeito do envelhecimento populacional, que o Janeiro de 2021 deveria ter uma mortalidade similar a Janeiro de 2016 (10.481 óbitos) acrescido dos 5.785 óbitos causados pela covid. Ou seja, seria expectável a ocorrência de 16.266 óbitos, mesmo assim um recorde, mas abaixo do total efectivamente observado (19.603 óbitos).

Desta análise resultam dois aspectos fundamentais. Primeiro, constata-se que o excesso de mortalidade não-covid é bem superior às estimativas que resultariam se o confronto fosse com a simples média aritmética dos óbitos no período homólogo dos últimos cinco anos. Ou seja, considerando mais correcto comparar 2016 e 2021 – ambos com fraca actividade gripal, mas o segundo com uma forte mortalidade causada pelo SARS-CoV-2 – conclui-se existirem, afinal, mais 3.337 óbitos que não são justificados nem pela covid nem, obviamente, pela gripe. São mortes causadas, em parte, pelo “efeito inverno” exacerbado pelo colapso do SNS, e excluindo-se aqui a degradação no tratamento dos doentes-covid, porquanto se sabe que a taxa diária de mortalidade dos internados-covid passou de cerca de 2,5% em Dezembro de 2020 para valores acima dos 4% em grande parte de Janeiro de 2021. 

Retirando da “equação” o excesso não-covid de 2021, consegue-se também confrontar directamente os números da mortalidade por covid-19 com anos não-covid e distintos níveis de actividade gripal. Nessa linha de raciocínio, e comparando os meses de Janeiro, a covid-19 matou mais 5.785 pessoas do que um surto gripal de baixa intensidade, e quase o dobro de um surto gripal de intensidade moderada (5.785 vs. 3.065, em 2015).

Por fim, se introduzirmos ainda o factor envelhecimento pode-se ter um outro olhar sobre a pandemia, sem a menorizar. Na verdade, para os efeitos da covid – doença muito mais letal nas populações idosas – não é indiferente a estrutura etária. Se Portugal tivesse agora, por exemplo, cerca de 160 mil idosos com mais de 85 anos – como tinha em 2001 –, em vez dos actuais quase 320 mil, os efeitos seriam diferentes. Também é certo que as condições de saúde da população idosa se foi alterando, para melhor: por exemplo, em média, uma pessoa de 65 anos em 2021 estará, seguramente, em melhores condições de saúde do que uma da mesma idade no início do século. Basta referir que a expectativa média de vida aos 65 anos aumentou quase três anos entre 2001 e 2019, situando-se agora em quase 20 anos. Em 1970, por exemplo, essa expectativa era, para aquela mesma idade, de menos de 14 anos. Essa significativa melhoria permite que mais pessoas cheguem a idades provectas, mas tem, como resultado, uma maior concentração absoluta e relativa de mortes do grupo dos muito idosos. Porque o estatuto mortal se mantém, infelizmente, na natureza humana, isto não é uma má notícia: falecerem muitos idosos significa que cada vez menos se perdem vidas prematuramente. Feliz será a sociedade no dia em que todas as pessoas se despedirem da vida – e de morte natural, obviamente – apenas quando ultrapassarem os 85 anos.

Nessa medida, um bom indicador para internalizar o factor envelhecimento de uma população – e não agudizar o erro de entrar em choque por haver mais mortes de idosos apenas porque não há agora tantas mortes de pessoas jovens –, é calcular o rácio entre os óbitos totais (de todas as idades) em função do número de pessoas idosas (mais de 65 anos). Esse indicador, ao contrário da taxa bruta de mortalidade – que pode estar a aumentar numa população, como a portuguesa, mesmo com a esperança média de vida a melhorar –, não engana: quanto mais baixar, melhor; quanto menos variações bruscas interanuais, sobretudo no Inverno, melhor, porque significa que há cada vez mais pessoas a viver mais, e mais a não sofrerem as agruras (leia-se, morte) por causa de epidemias de gripe e outras doenças invernais.

Esta análise mostra que, desde 1960 – e debruçando-se apenas no mês de Janeiro –, existe não apenas uma evidente melhoria nas condições de saúde da população portuguesa – ou seja, o indicador registou uma clara tendência decrescente ao longo das últimas seis décadas – como houve uma suavização nas amplitudes de variação interanual. A sensibilidade deste indicador detecta também – e, portanto, não menoriza – eventos como os da mortalidade elevada em Janeiro de 2021, já que subiu para 8,5 mortes por 1.000 pessoas com mais de 65 anos face aos 5,2 no período homólogo do ano passado. Porém, se mostra que a situação do primeiro mês de 2021 não foi nada meiga, também revela que não é uma catástrofe, uma vez que o valor está até um pouco abaixo do registo de 1999. Isto indicia, na verdade, que o surto gripal de 1999 foi extremamente forte, embora ignorado pela opinião pública da época, e que se houvesse naquele ano tantos idosos como agora, não morreriam “apenas” 14.709 pessoas. De facto, seria sim expectável que se verificasse uma mortalidade acima de Janeiro de 2021, com covid-19 e tudo o resto. 

Esta análise não visa menorizar, mas contextualizar os impacte da pandemia. E também alertar que, em anos futuros, com cada vez mais idosos, não será necessário um novo vírus, um SARS-CoV-3, para chegarmos aos 20 mil óbitos num mês de Janeiro. Basta surgir um surto gripal mais forte. E, nesse caso, a culpa nem será toda desse ente microscópico, mas, paradoxalmente, também, de um sucesso parcial da humanidade: aumentámos a probabilidade de se morrer cada vez mais tarde, mas a hora chega sempre. E nos idosos, diz a Lei da Vida, chega com maior abundância em Invernos mais inclementes.

Fonte: SICO e INE

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