Tiago Franco | Engenheiro de Software (Volvo Cars, Suécia)

Compreendo que a Suécia tenha voltado ao radar português e desta vez por razões mais agradáveis. Já ninguém diz que se tenta poupar pensões matando os mais velhos. Desse ponto de vista foi um progresso.

É por isso natural que seja usada como uma espécie de exemplo contra o confinamento. Já menos natural é que para isso, muitos, precisem de relatar uma realidade que não existe.

Se em Abril a imprensa nacional não fez um favor a ninguém, colocando a Suécia num Woodstock permanente, hoje, quem repete “ad nauseum” que a Suécia “sem confinamento, restrições e máscara” está em melhor situação que Portugal, também não ajuda muito.

De pouco serve contestar o caos das ambulâncias e a forma como a história nos foi contada (afinal era mais desorganização do que emergência) se, acabamos por fazer exactamente o mesmo e a destruir a credibilidade de um argumento.

Vamos ver se nos entendemos. É indiferente se tens um amigo que vive em Malmö, um primo de um conhecido que passou por Estocolmo ou um familiar que jura mesmo que não sei quê. Se repetes a frase “não tem restrições, apenas recomendações”, estás a espalhar notícias falsas. Ponto final. E não estás a ajudar a que se percebam as verdadeiras razões da melhoria sueca nesta luta contra a pandemia.

A Suécia é de facto um bom exemplo para que se perceba o erro do confinamento obrigatório, do problema social causado com a delação incentivada e da falta de relação entre as mortes e as escolas abertas. Pelos dias de hoje até pode ser um bom exemplo de como organizar o acesso às urgências. MAS PARA ISSO BASTA CONTAR A VERDADE E RELATAR OS FACTOS. Inventar realidades paralelas só enfraquece um argumento que por si só já é válido.

Para evitar despejar as regras que são públicas e genéricas, explico-te o meu caso, que certamente não será muito diferente de outros milhares.

1 – O meu empregador limita a um número muito reduzido as pessoas que podem estar no escritório. Estou em casa desde Fevereiro de 2020. Isto é uma restrição.

2 – A minha filha está num sistema misto de ensino. Na escola e online. Isto é uma restrição.

3 – Se o meu filho tosse na escola, é de imediato mandado para casa. Isto é uma restrição.

4 – Se fizer um teste de covid, não posso sair de casa até receber o resultado. Isto é uma restrição.

5 – Se estiver infectado, acertou: também não posso sair.

6 – Se tiver algum familiar num lar, a partir de dada altura deixei de o poder ver. Isto é uma restrição.

7 – Há meses que deixei de jogar futebol porque os campeonatos foram cancelados e os pavilhões fechados. Isto é uma restrição.

8 – Quando me sentei à mesa num restaurante, perguntaram-me se as pessoas que estavam comigo eram familiares. Caso contrário, as mesas seriam afastadas. Isto é uma restrição.

9 – Quando vou a qualquer serviço, as pessoas que me atendem estão atrás de um vidro ou plástico. Não são imaginários. É uma restrição.

10 – Os concertos e outros espectáculos foram cancelados. É uma restrição.

11 – Ajuntamentos a partir de X pessoas foram proibidos. É uma restrição.

Depois, há a parte prática da coisa. As recomendações. Ao contrário do que acontece em Portugal, não é necessário que o vizinho do 3º esquerdo coloque uma foto minha no Facebook a passear o cão, ou ter um polícia a puxar-me as cuecas, para cumprir o que me é pedido. Portanto, se o Governo me pede, ou RECOMENDA, que eu limite os meus contactos ao núcleo familiar, eu cumpro. E como tal, não encontro um único amigo em Gotemburgo há largos meses. 

Ou seja, qual é a diferença entre uma RESTRIÇÃO ou uma RECOMENDAÇÃO? Se cumprires ambas, então a diferença é… exactamente, nenhuma.

O que significa, por outras palavras, que as pessoas confinam, sem a polícia ter de correr o pessoal à bastonada.

Claro que, como em todo o lado, há quem cumpra mais e quem cumpra menos. Mas tudo somado, entre as recomendações cumpridas e as restrições impostas, a população faz a sua parte. O Governo protege os mais idosos e o Folkhälsomyndigheten (SNS sueco) organiza-se com uma triagem para o acesso às urgências, garantindo que só lá chega quem precisa. É isso que explica a ausência de caos no momento e a redução das mortes. NÃO É ANDAREM TODOS AO MONTE!

Aliás, justificar festas e ajuntamentos, como se viu há pouco no Brasil, e dizer que é “tal como na Suécia”, é absurdo e não corresponde em nada à verdade; apenas engrossa as fileiras de negacionistas e incentiva os Governos a imporem confinamentos errados, como os feitos em Portugal e por quase todos os países europeus., até  e a fazer nada, mas absolutamente nada, para que no nosso país se perceba porque é que o confinamento é errado.

Há números que explicam as mortes, que não as relacionam com as escolas ou que indicam em que tipos de confinamentos a propagação aumentou. Há informação fidedigna publicada pelos institutos nacionais de estatística de cada país e em estudos feitos por especialistas. São essas as fontes de informação. Não é o teu primo, nem o amigo do teu amigo que, como não vê polícias na rua, faz o que lhe pedem para não fazer.

Aprendam com os erros da Suécia (lares) e observem o que por cá se faz de bom (dados tornados públicos, respeito do distanciamento ou até a organização do SNS sueco). Mas não repitam os disparates ditos em Abril nem tentem difundir uma realidade que não existe. Deixem isso ao cargo do “jornalista pela verdade”, que ele já faz, e de bom grado, essas figuras tristes sozinho.

Há restrições na Suécia, há recomendações, há pessoas em casa (a trabalhar) e até há quem use máscara (não é obrigatório).

E mesmo assim há liberdade, há circulação, há respeito pelas distâncias, há redução do número de mortos e há protecção da Economia.

Se querem ajudar, não inventem. Percebam a realidade.

Apoie o Farol XXI