A formosa estrebaria 

Esta elevada frequência de epidemias no nosso país revela que, em séculos passados, a situação sanitária, sobretudo nos centros urbanos, era lastimável, contrastando assim, em certa medida, com o imaginário português de termos sido sempre um jardim à beira-mar plantado. Nega também aqueles adágios seculares de que «cheira bem, cheira a Lisboa» ou que «quem não viu Lisboa, não viu coisa boa».

Esta elevada frequência de epidemias no nosso país revela que, em séculos passados, a situação sanitária, sobretudo nos centros urbanos, era lastimável, contrastando assim, em certa medida, com o imaginário português de termos sido sempre um jardim à beira-mar plantado. Nega também aqueles adágios seculares de que «cheira bem, cheira a Lisboa» ou que «quem não viu Lisboa, não viu coisa boa». 

Na verdade, pelo menos até ao século XX, olhando para os relatos de muitos viajantes estrangeiros, a limpeza urbana não era um apanágio lusitano. Se é certo que alguns se mostraram maravilhados com muitos aspetos da paisagem portuguesa, também se escandalizaram, e muito, com a sujidade das principais cidades, em especial da capital. Lorde Byron, que na primeira década do século XIX glorificou Sintra, chamando-lhe Glorioso Éden, confessaria numa carta, enviada para Inglaterra, ter decidido refugiar-se naquela zona «para fugir das imundices de Lisboa e dos seus ainda mais imundos habitantes». 

Esta apreciação não difere muito das críticas de outros viajantes que, desde o século XVIII, não cessaram de aludir à deplorável falta de limpeza em Lisboa. O francês Pierre Humberte, num livro publicado em 1730, referiu que «as ruas próximas do rio são íngremes, estão bem calçadas, e são de largura variável, mas muito imundas, não as varrendo senão de três em três, ou de quatro em quatro dias». O célebre viajante e escritor William Beckford ficou também estupefacto com as matilhas de cães que enxameavam a capital, no meio da imundice. Numa carta escrita em julho de 1787, disse que «Lisboa é infestada, como nenhuma das capitais que tenho habitado, por bandos daqueles animais semifamélicos, que, contudo, são de alguma importância e utilidade, limpando as ruas de alguma parte, ao menos, de seus fétidos entulhos». 

Pouco depois, no pino do verão desse ano, o viajante inglês faria um retrato ainda menos abonatório dos portugueses e da sua capital: «É peçonha para uns, o que para outros é manjar – não há coisa mais certa. Estes dias e noites de temperatura ardente, que me oprimem sem alívio, são o deleite e ufania dos habitantes desta capital. O calor não somente parece ter avenenado os ferrões das moscas e mosquitos, mas também arrojou para a rua, por noites inteiras, todos os abelhões humanos, que pulam e bailam e arranham bandurras desde o sol-posto até à alvorada. Junte-se-lhes os cães em abundância, latindo e uivando sem interrupção; a vozearia das ladainhas, dos terços; os estalidos do fogo-de-artifício, que os devotos deitam sem cessar em louvor de algum membro da celestial hierarquia; a bulha suja da vadiagem insolente, que percorre as ruas em busca de aventuras; ver-se-á que não há pilhar uma piscadela de sono». 

Mais tarde, já no século XIX, durante as invasões napoleónicas, Laure Permon, mulher do general Junot, mostrou o seu espanto perante o deplorável estado da parte central da capital portuguesa. «Uma particularidade notável», escreveu, «é que em 1806, cinquenta anos depois da catástrofe, viam-se ainda nas ruas de Lisboa não somente sinais do terramoto de 1755, mas até os entulhos, tais como os deixara aquele ano maldito. Várias ruas de Lisboa, pequenas praças continham ainda esses corpos da cólera do céu. Imundícies, esqueletos de cães, cabras e jumentos, até de machos, jaziam por cima das ruínas, e a cidade, ameaçada da peste pelas exalações mefíticas desses montões de materiais, algumas vezes em putrefacção, não devia sua salvação mais que ao ar activo e salubre, que purifica com o seu sopro, e dá saúde a uma cidade que deveria, como se vê, perecer com a morte comum aos povos do Oriente». 

Ainda mais cáustico, o jornalista espanhol Calvo Asensio, que ocupou o cargo de secretário da embaixada espanhola em Portugal, escreveu em 1870 que «todas as ruas, a Áurea, da Prata, Augusta e da Rainha, não se distinguem pela limpeza, porque este ramo da polícia é bem descurado», descrevendo depois algumas partes da cidade em tom pouco agradável: «O passeio da Estrela, além de ser irregular, e não de muito grandes dimensões, causa lástima e nojo pela falta de asseio em que se encontra», acrescentando ser uma «lástima» a subida para o real palácio da Ajuda, por se mostrar «asquerosamente imunda». 

Os portugueses destas épocas foram muito mais comedidos, embora se destaquem as sibilinas palavras de Francisco Xavier de Oliveira, o famoso cavaleiro de Oliveira, que em meados do século XVIII apelidou Lisboa de «formosa estrebaria». Ou também, cerca de um século depois, o médico e escritor português Guilherme Centazzi que, no romance A Alma do Justo, publicado em 1861, escreveu: «Lisboa, que todos nós estamos vendo, e que os estrangeiros e os vindouros hão-de julgar pelo que lerem… Lisboa (não se faça do preto branco, nem se queira embutir gato por lebre), examinada em globo é uma coisa; em detalhe, é outra. Em globo, ninguém lhe negará aparato, beleza, opulência, grandeza, etc., etc. Em detalhe, de fora para dentro, é tal e qual como esse famigerado siciliano que, no domingo, se paramentava com luzentes vestiduras, sem despir a camisa com que tinha andado a mariscar os anzóis durante a semana. Lisboa, em síntese, é majestosa; em análise, é um covil lastimoso de miséria e lama.».

Pedro Almeida Vieira

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