Em Janeiro, a Direcção-Geral da Saúde recomendou numa campanha para não se correr para as urgências se se ficasse doente. Muitos portugueses seguiram o conselho, e aquele mês teve uma redução de 41% no afluxo às urgências face à média, aliviando os serviços médicos para o tratamento à covid-19. Contudo, na outra face da moeda vê-se um aumento de mais de 1.100 mortes no domicílio. Muitos poderiam ter sido salvos nas urgências, se não houvesse medo. 

Pedro Almeida Vieira

A intensificação do clima de medo e as campanhas da Direcção-Geral da Saúde (DGS), apelando para se evitarem as idas aos hospitais, provocaram uma forte redução nos serviços de urgências durante o mês de Janeiro, mas o reverso mostra-se dramático: durante este período morreram mais 1.146 pessoas nos seus domicílios face à média dos últimos cinco anos.

Desde o início da pandemia em Portugal, os serviços de urgência nos hospitais portugueses tiveram uma significativa descida na procura. Em Fevereiro do ano passado, o afluxo nas urgências nunca estiveram abaixo das 14 mil visitas, mas com os primeiros casos e mortes por covid-19 em Março, o pânico instalou-se. Os portugueses fugiram, literalmente, dos hospitais. Em 21 de Março atingir-se-ia o valor mais baixo desde que há registos: apenas 5.450 atendimentos. Ao longo dos meses, a confiança dos portugueses nunca se restabeleceu por completo. A partir de Março de 2020, quase todos os dias tiveram menos visitas às urgências do que os períodos mais calmos do período pré-pandemia, mesmo com a chegada do Inverno. O dia com maior afluência foi 14 de Setembro, com 14.655 atendimentos. Mesmo em Dezembro passado, os valores diários nunca ultrapassaram os 14 mil, quando por regra, em anos anteriores, superavam as 20 mil visitas.

No passado mês de Janeiro, mesmo apesar da extrema vaga de frio da primeira quinzena, o afluxo às urgências raramente ultrapassou as 12 mil visitas, atingindo mesmo um mínimo no dia 31, apenas com 7.405 atendimentos. As imagens das filas de ambulâncias em alguns hospitais, sobretudo por problemas de logística associadas ao doentes-covid, contribuíram para afugentar ainda mais os portugueses. A campanha da DGS para não se ir a “correr” às urgências em caso de sintomas de doença terá contribuído para convencer muitas pessoas a não se dirigirem aos hospitais. 

De acordo com dados da monitorização do Serviço Nacional de Saúde (SNS), durante o mês de Janeiro de 2021 observou-se uma queda de 41% no afluxo às urgências em relação à média dos últimos quatro anos. Foram menos 226.356 visitas neste período, ou seja, 7.300 atendimentos por dia. A redução não incidiu apenas nos casos menos graves (pulseiras azul, verde e amarela, de acordo com a Triagem de Manchester), mas também nos casos emergentes (pulseira vermelha) e muito urgentes (pulseira laranja). No caso das pulseiras vermelhas – que constituem situações clínicas que exigem atendimento imediato, sob risco de morte – observou-se uma redução de 301 visitas ao longo do mês, enquanto nas pulseiras laranjas – onde o risco de morte também é elevado se não houver assistência médica rápida –, registou-se um decréscimo de 18.004 visitas.

Como esta diminuição não resultou de uma repentina melhoria na saúde dos portugueses – pelo contrário, até porque as temperaturas foram muito baixas em parte do mês de Janeiro –, a consequência desta fuga às urgências apareceu sob a forma de incremento nas mortes no domicílio. Embora não seja possível atribuir uma causa directa sem uma investigação mais aturada, certo é que o Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO) reporta um extraordinário aumento de mortes nas casas dos portugueses sobretudo a partir de 4 de Janeiro. Com efeito, enquanto em média (2016-2020) se registaram por dia entre 94 e 114 óbitos, em Janeiro passado os valores chegaram a atingir mais de 170. No total, no primeiro mês de 2021, contabilizaram-se 4.393 mortes no domicílio, contrastando com a média de 3.247 no período 2016-2020.

Em suma, o medo de se ser infectado pelo SARS-CoV-2 nas urgências e a falta de confiança na segurança dos hospitais acabaram por matar, pelo menos, mais de mil portugueses durante o fatídico mês passado, demonstrando que o pânico é um efeito colateral e letal numa pandemia.

Fonte: SNS e SICO

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