Tiago Salazar | Escritor

Esta é parte da história de um homem chamado José, que já antes se chamava José, mas nunca lhe tinha dado para andar pelos telhados. José de Arimateia (nome fictício, para protecção da sua identidade), antes de se ver nas ruas da amargura, que são as ruas onde desaguam os vencidos pela vida, que são todos aqueles a quem a sorte deixa de rir, era um homem como outro qualquer. Tinha os seus trabalhos regulares de estucador e pedreiro de limpos (de primeira), tinha a sua mulher, tinha os seus filhos, tinha o seu pé de meia. 

Quando tudo aconteceu, no fim do Inverno do fatídico ano de 2020, que era o mês de Março, ao dia 16, José tinha tudo isto (trabalhos, mulher, filhos, pé de meia), e continuou a ter ao longo do ano, e até no ano seguinte, que é onde estamos agora a contar a sua história, fruto de uma longa conversa que se estendeu por três dias e ficou registada em vídeo e áudio para que nada do que aqui seja transcrito nasça fruto de uma reprodução fantasiada. 

A vida de José dava um livro, mas fiquemo-nos por um breve relato. Um enxerto, digamos assim.

─ José, grato por me conceder esta conversa. Gostava que começasse por nos dizer o que levou aos telhados?

─ Vamos lá haver. Eu vejo por aí muita miséria. E, olhe, achei que podia fazer mais qualquer coisinha pela nossa gente.  Andava triste que eu sei lá. A gente vê os outros tristes e a morrer, e a gente entristece, sabe.

─ Mas o José continua a trabalhar, certo?

─ Felizmente nas obras nunca se pára. 

─ Então, e o que o levou a andar pelos telhados a fazer hora-extras?

─ Vamos lá haver. Sempre gostei de trabalhar nas alturas e até fazia além dos interiores, serviços nos algerozes, rufos e caleiras. Mas um dia vi aquele filme do Robin Wood na TV Cabo e pensei que alguma coisa não batia certo. 

─ Pensou em roubar aos ricos, para dar aos pobres, foi isso?

─ Foi mais ou menos isso. É claro que uma parte tem que ir para ajudar os meus, mas o grosso vai para quem mais precisa. 

─ E anda nisto sozinho ou tem colaboradores?

─ Vamos lá haver. Ninguém faz nada sozinho. Nada como deve ser. É preciso é ver com quem a gente se dá e quem se emprega nos serviços. Felizmente, nas obras há muita gente capaz. 

─ Capaz de andar nos telhados a furtar casas, é isso? 

─ Vamos lá haver. A gente não anda a roubar por roubar. A gente rouba o que faz falta. Agora, por exemplo, a gente só anda a roubar sobretudo estoques de vácinas, vacinas, ou como chamam a essas coisas para livrar a gente do vírus.

─ Então, o José anda maioritariamente por telhados de farmacêuticas, hospitais e centros de saúde?!

─ Vamos lá haver. Calhou há um par de semanas andar no telhado de um político e dar com um estoque na cozinha. Aquilo tava tudo ali à mão de semear, as seringas e aquilo tudo, e eles até têm prioridade. Achei aquilo estranho e disse aos meus botões. Oh José, então há ou não há vacinas? 

─ Antes disso, pelo que sei, já andava nos telhados, certo?

─ Vamos lá haver. Antes de andar nas vácinas, já me tinha metido noutras empreitadas. Tamos a criar um fundo pra quem não tem direito àquilo da bazuca nem consegue viver das ajudas da segurança social. Tamos bem encaminhados, e se não tem havido protestos é porque a gente tem feito um bom serviço. As pessoas com dinheirinho no bolso ficam logo mais sossegadas. 

─ E como providenciam as ajudas?

─ Vamos lá haver. Ainda há gente que acredita no Pai Natal, e assim a gente aproveita que estamos nos telhados e saltamos de uns para os outros e deixamos logo os sacos com os euros. Vão pelas chaminés ou então metemos uns envelopes nos correios. Dizem que o dinheiro não traz saúde, nem felicidade, mas olhe que ajuda. 

─ Então para se abastecerem também andam pelos telhados dos bancos?

─ Vamos lá haver. Nos bancos nem é a prioridade, que os cofres dão uma trabalheira e aquilo tem alarmes. A gente vai dando com os sacos é nas casas deste e daquele. 

─ Deste e daquele? Pode ser mais preciso?

─ Essa gente da política e dos negócios, e das igrejas, tirando a Santa Igreja Católica, que é séria. Benza-me Deus! Só não roubamos gente séria. Futebolistas, por exemplo, a gente não faz. 

─ Acha então que há gente rica e séria, e que faz como o José e os seus colaboradores?

─ Vamos lá haver. Ele há gente pra tudo e uma vez por outra lá aparece um mãos-largas. 

─ Mas não acha que essa vida que o José leva não é séria?

─ Vamos lá haver. Dizem praí que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. E eu já não vou para novo. 

─ E não acha que vai acabar por ser apanhado? 

─ Vamos lá haver. A gente só quer que haja uma certa igualdade. Se fizermos uma média de 300 casas por semana, vai ver que não tarda e isto se endireita, e há para todos. E assim cada um pode ter o seu dinheirinho e deixa de haver desigualdades. 

─ Muito bem, José; e não tem receio de apanhar covid-19?

─ Vamos lá haver. A gente anda sempre de máscaras e encapuzados. Diz a DGS, que nem sei se tem a haver com a PIDE do Salazar, que com isso não há perigo…

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