Primeiro, foi apenas um caso positivo, na primeira quinzena de Dezembro. No final do mês já todos os idosos estavam infectados. O Lar da Nossa Senhora das Candeias, em Mourão, foi apenas mais um dos incontáveis surtos de covid-19 deste Inverno. Não se sabe bem ao certo quantos já são nem as consequências reais, porque a Direcção-Geral da Saúde nada divulga. Em Mourão, porém, pelas notícias sabe-se que morreram pelo menos 13 idosos desde Dezembro. Num concelho de menos de 2.500 pessoas, esta razia tornou Mourão o mais funesto município do país nas quatro primeiras semanas do ano. Se isto fosse em Lisboa, a capital teria de arcar com quatro mil mortes a mais do que o habitual.

Pedro Almeida Vieira

No dia 11 de Dezembro, o Serviço Municipal de Proteção Civil de Mourão revelava um caso positivo de covid-19 no Lar da Nossa Senhora das Candeias. O pequeno concelho raiano, na margem do grandioso Alqueva, contava nesse momento 29 casos activos. Desde o início da pandemia, em Março, outros 23 casos tinham sido reportados. Saldo de vítimas fatais até então: zero. 

Na véspera de Natal, porém, o presidente da autarquia já anunciava um surto neste lar, pertença da Santa Casa da Misericórdia de Mourão. Albergando 63 idosos, segundo a Carta Social do Ministério da Solidariedade Social, tinham sido detectadas 38 infecções em utentes, através de testes positivos. A maioria, acrescentava, estava assintomáticos. Contavam-se também 10 funcionários infectados, obviamente mandados para casa. Uma semana mais tarde, na passagem para o ano de 2021, o surto já subia para 11 funcionários e 48 idosos, um dos quais morrera, segundo o jornal A Planície

No dia 5 de Janeiro, a comunicação social de âmbito nacional interessou-se pela situação do pequeno concelho alentejano. Victor Bragança, provedor da Santa Casa da Misericórdia revelaria então à SIC, em 5 de Janeiro, que apenas oito utentes estavam negativos, sendo que três tinham morrido entretanto de covid-19 e seis se encontravam internados. Pouca atenção seria dada ao caso de Mourão nas semanas seguintes. A única referência sobre o Lar da Nossa Senhora das Candeias encontra-se numa curta notícia em 26 de Janeiro da Rádio Diana, uma emissora radiofónica de Évora, que destacava já a morte de 13 utentes desde o início do surto em Dezembro, mas acrescentando que, segundo a Proteção Civil Municipal, “apenas 11 foram associados à covid-19 pelo Departamento de Saúde Pública da Administração Regional de Saúde do Alentejo”. 

A partir dessa data não se encontra qualquer notícia sobre Mourão, o lar e a desditosa sorte dos idosos. Morreram os idosos, e o assunto ficou enterrado com eles. A Direcção-Geral de Saúde nunca fez qualquer declaração sobre a situação particular deste lar, tal como nunca fez de qualquer outro deste o início da pandemia. Não há informação, nem oficial nem oficiosa, sobre as denominadas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), onde vivem cerca de 100 mil idosos com uma média etária que ronda os 85 anos. 

Há uma semana, um relatório do International Long Term Care Policy destacava Portugal como um dos países sem informação oficial sobre os efeitos da pandemia nos lares. De um vasto leque de 26 países, Portugal estava ao lado de países como o Brasil, Turquia, Hungria e Itália, que não divulgavam informação específica sobre a mortalidade em ERPI. Ao contrário do que sucede em países como Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Hong Kong, Irlanda, Israel, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Singapura, Eslovénia, Coreia do Sul, Espanha, Suécia, Suíça (em alguns cantões), Reino Unido e Estados Unidos, que apresentam relatórios periódicos, por vezes diários ou semanais.

Mas, regressando a Mourão. Sendo certo que houve 13 óbitos num lar infectado por covid-19, a pergunta que se coloca é a seguinte: quantos mais lares espalhados por este país tiveram similar morticínio em menos de um mês? E, para além desta doença, quantas mais vítimas em lares houve por outras “mazelas” agora secundarizadas pelo Serviço Nacional de Saúde? E por causa da vaga de frio? E por causa do caos?

O enfoque em Mourão não é um acaso. Podia-se dar o exemplo de Viana do Alentejo, onde outro surto no Lar da Misericórdia causou 18 mortos, de acordo com uma notícia da Lusa de 27 de Janeiro. Ou explanar a situação em Alcácer do Sal no Lar Rainha Isabel, da Misericórdia local, onde já sucumbiram 13 idosos, segundo artigo do Jornal de Notícias de 4 de Fevereiro. Ou os casos de Pampilhosa da Serra, Góis, Miranda do Douro, Mértola ou Alter do Chão. Era só escolher.

Porém, fiquemo-nos, e foquemo-nos, por agora, em Mourão, porque isto de se ser um pequeno concelho, com números aparentemente pequenos, pode esconder funestas realidades. Treze mortes em quatro semanas podem “parecer” pouco, mas para este município raiano é imenso. Com apenas 2.453 habitantes, segundo o Instituto Nacional de Estatística, dos quais cerca de 22% têm mais de 65 anos, a morte não é um acontecimento frequente. Nas primeiras quatro semanas de 2020 tinham morrido, em todo o concelho, apenas cinco pessoas. Em 2019 uma; igual número em 2018. No mesmo período de 2017, ano de gripe relativamente forte, perderam-se apenas três vidas, e em 2016 nem sequer um enterro houve. Contas feitas, para este quinquénio são duas mortes em cada ano. 

Contudo, neste trágico Janeiro de 2021, entre as semanas 1 e 4 (entre os dias 4 e 31) registou-se um total de 15 óbitos, sendo que se ignora quantos destes eram utentes do lar da Santa Casa da Misericórdia, uma vez que alguns falecimentos sucederam antes deste período. São muitos em tão pouco tempo. São tantos quantos os que morrem em meio ano. Um aumento desta natureza colocou Mourão como o concelho do país com maior variação da sua taxa de mortalidade nestas quatro semanas de Janeiro, com um incremento de 650%. Ou sete vezes e meia mais. Se tal sucedesse num concelho como Lisboa – em média (2016-2020) conta 641 óbitos entre as semanas de 1 e 4 –, então teriam de se “enterrar” 4.810 pessoas. Na realidade, não se chegou a tanto, mas mesmo assim na capital houve uma subida de 86% em relação à média, ou seja, mais 550 mortes do que seria expectável. Mas isso será tema a escalpelizar amanhã…

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