O FAROL XXI revela, e analisa em detalhe, os registos hospitalares da primeira fase da pandemia – informação nunca revelada pelas autoridades de saúde. Saiba aqui, em primeira-mão, quantas crianças, adultos e idosos foram internados, quanto foram para cuidados intensivos e quais os níveis de sobrevivência. Nem tudo são boas notícias, mas, decididamente, não estamos perante uma catástrofe que pode aniquilar qualquer um ao virar da esquina. Na verdade, a pior notícia é a contínua manipulação dos efeitos da pandemia por falta de informação detalhada.

Pedro Almeida Vieira

Na primeira fase da pandemia da covid-19, até meados de Junho, cerca de 12 em cada 100 pessoas com teste positivo necessitaram de internamento, mas destes quase 80% saíram vivos do hospital para contar a história. A taxa de letalidade rondava então os 2,2%, ligeiramente acima dos valores actuais que se situam nos 1,9%. No entanto, as diferenças nos diversos indicadores hospitalares entre grupos etários são abissais, confirmando assim que o SARS-CoV-2 “chove” para todos, mas “molha” (ou seja, afecta e mata) muitíssimo mais uns do que outros.  

Estas são algumas das conclusões da análise ao registo nacional de internamentos até 20 de Junho, nunca disponibilizados pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas que agora aqui, no FAROL XXI, se revelam em primeira-mão. Neste registo constam os dados anonimizados de cada internado, com idade e sexo, do hospital ou centro hospitalar onde deu entrada, o tempo de internamento, se esteve em unidade de cuidados intensivos (UCI) e o desfecho final, ou seja, se morreu ou não. Não foi possível aceder a mais quaisquer dados posteriores a Junho, mas este “retrato” constituirá um bom panorama sobre uma faceta da pandemia nunca revelada pelo Governo português. 

A análise detalhada dos internamentos durante a primeira fase da pandemia, e cruzando com outras informações já publicitadas pela Direcção-Geral da Saúde (DGS), permite confirmar algumas das facetas conhecida da covid-19, mas sobretudo desmistificar muitas “falsas ideias” transmitidas pela comunicação social e propiciadoras de injustificado pânico. A primeira refere-se aos internamentos de jovens e mesmo de crianças. Efectivamente, entre Março e Junho registaram-se 63 internamentos de crianças com menos de 10 anos, grande parte dos quais (49) com idade inferior aos cinco anos. No grupo dos 10 aos 19 anos contam-se 40 internamentos. Em termos relativos apenas representaram 2,2% do total dos internamentos. Este valor torna-se irrelevante quando comparado aos idosos: um terço (33,8%) dos internados tinha mais de 80 anos. Por outro lado, apenas 20% das hospitalizações foram de doentes com menos de 50 anos. Ou seja, a covid-19 é, efectivamente, uma doença que pode afectar todos, mas a probabilidade de hospitalização é, usando apenas estes indicador, muito diferente de grupo etário para grupo etário. Mas há mais. 

No caso dos internamentos em UCI, também por lá passaram crianças e jovens, não sendo assim um ineditismo da segunda vaga. De acordo com os registos dos internamentos, até Junho houve quatro bebés com menos de dois anos internados em UCI, três dos quais em unidades do Centro Hospitalar Lisboa Central (dois meninos e uma menina) e um no Hospital Amadora-Sintra (um menino). Internados com idades entre os 5 e os 15 anos passaram quatro por UCI. Todos sobreviveram. Até essa data a taxa global de sobrevivência dos internados com menos de 25 anos foi de 100%, o que significa que a taxa de letalidade era de 0%. Aliás, no caso dos menores de 10 anos, só posteriormente, em 18 de Agosto, seria declarada a morte de um bebé de quatro meses por covid-19, e uma segunda em 6 de Fevereiro de 2021, ambas possuindo muito graves malformações congénitas. Os dados dos internamentos revelam mesmo uma maior prevalência de internamentos nos bebés com menos de dois anos (41 casos) face ao que se observa em crianças mais velhas ou adolescentes. Por exemplo, apenas foram internadas 22 crianças com idades entre os 2 e os 9 anos, e 40 doentes com idades entre os 10 e os 19 anos. No entanto, este padrão também não é surpreendente. Embora já bastante baixa, a probabilidade de morte de um bebé com menos de um ano é 10 vezes superior à de uma criança de idade mais avançada.

Cruzando também os casos positivos com os registos dos doentes-covid admitidos em hospital, observa-se claramente que, com excepção dos bebés, a idade é o factor mais determinante, notando-se sobretudo a partir dos 60 anos e, em especial, a partir dos 70 anos. Com efeito, a taxa de necessidade de internamento (número de internados por 100 casos positivos) era, no período em análise, inferior a 3% entre os 10 e os 29 anos, rondava os 5-6% entre os 30 e os 49 anos, subia depois para cerca de 9% na faixa dos 50-59 anos e pulava para cerca do dobro no grupo dos 60 aos 69 anos. A partir dos 70 anos situava-se um pouco acima dos 30%, ou seja, em cada três pessoas desta idade com casos positivos, um necessitou de hospitalização.

Porém, a hospitalização está longe de significar um atestado prévio de morte. Pelo contrário. E mesmo para idades mais avançadas está em linha com a tendência das tábuas de mortalidade realizadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Com efeito, até Junho, a taxa de sobrevivência dos internados-covid foi total ou muitíssimo elevada até aos 50 anos: em 917 internados neste grande grupo tinham falecido 12 pessoas, sendo duas com idade entre 25 e 29 anos e 10 com idades entre 35 e 49 anos. A taxa de sobrevivência dos internados apenas ficava abaixo dos 90% a partir dos 60 anos, reduzindo-se para menos de 75% a partir dos 75 anos. No caso dos internados com idades entre 90 e 94 anos, a taxa de sobrevivência era apenas de 55% e reduzia-se ainda mais para os maiores de 95 anos (somente 40%). 

Contudo, em abono da verdade, os dados da mortalidade têm de ser enquadrados com os casos positivos – ou seja, tem de ser observar a taxa de letalidade da doença em função da idade. Nessa linha, os dados até Junho apontavam para uma taxa de letalidade dos maiores de 80 anos de 13,7%, reduzindo-se para 7,2% dos 70 aos 79 anos, para 2,5% dos 60 aos 69 anos e para os 0,5% dos 50 aos 59 anos. Abaixo dessa idade, os valores são estatisticamente irrelevantes. Estas taxas em Junho de 2020 são até superiores às que se registam agora, o que significa que, proporcionalmente, o nível de sobrevivência aumentou nos últimos meses, fruto dos progressos no tratamento da doença. De facto, em Janeiro de 2021, as taxas de letalidade acumulada em Portugal era de 14,6% nos maiores de 80 anos (ignora-se quanto será nas faixas dos 80-84 anos, 85-89 anos, e 90 e mais anos), de 5,5% nos 70-79 anos, de 1,5% nos 60-69 anos e de 0,3% nos 50-59 anos.

Estes registos hospitalares também desmistificam a ideia de serem os doentes das UCI – reservadas para casos agudos de grande gravidade – que mais contribuem para a mortalidade. O senso comum dirá que um doente que entra numa UCI se encontra em situação crítica corre verdadeiro perigo de morte. Contudo, a sua admissão numa UCI não significa que, quase de certeza, de lá saia pouco depois directamente para a morgue; tal como o internamento em enfermaria não significa que se esteja perante uma mera estadia efémera antes do regresso a casa. Existem factores que são muitíssimo relevantes, a começar pela idade e as comorbidades, muitas delas associadas ao tempo de vida. Na verdade, os registos hospitalares até Junho evidenciam um aspecto positivo ao nível da decisão clínica durante a primeira fase da pandemia. Ao contrário do que sucedeu na Itália e na Espanha, em que se decidiu usar ventiladores mecânicos em idosos, causando involuntariamente uma maior mortalidade neste grupo, em Portugal a opção pelo internamento em UCI terá tido em conta não apenas o estado clínico como a idade. Ou seja, considerou-se que, independentemente da condição do doente, o recurso às UCI (e a métodos invasivos, como a ventilação mecânica) deveria depender da chance de sobrevivência face às técnicas potencialmente disponíveis. Por outras palavras, decidiu-se não abusar de “curas” que mais depressa matavam do que reabilitavam um doente grave.

Nessa medida, até Junho de 2020, os registos hospitalares revelam um aspecto aparentemente surpreendente e que pode baralhar os leigos: as mortes por covid-19 vêm mais das enfermaria do que das UCI, quer em termos absolutos como relativos. E nem é apenas porque há sempre muitos mais doentes em enfermaria do que em UCI, mas sim porque em UCI a taxa de mortalidade (óbitos por 10 internados, por exemplo) é até ligeiramente inferior àquela que se verifica em enfermaria. 

Mas estes números têm de ser enquadrados para deixarem de surpreender, e sobretudo se mostrarem lógicos.  

Primeiro, os registos hospitalares da primeira fase – e acredita-se que não se modificaram entretanto – mostram que os internamentos em UCI são bastante raros em pessoas de muita idade. Na verdade, entre Março e Junho de 2020, apenas 18 doentes com mais de 85 anos, de entre 1.017 internados neste grupo, foram admitidos em cuidados intensivos, e não porque se lhes negasse esse recurso, mas por ser uma solução considerada inadequada. Nessa linha, as UCI acabam por ser a opção mais natural para recuperar casos graves em doentes de meia-idade ou idosos com menos de 85 anos, como se observa em países onde estes dados são revelados (e.g., Suécia e Bélgica). Em termos absolutos, no período em análise, os doentes dos 65 aos 69 anos (77 internamentos) e dos 70 aos 74 anos (80 internamentos) foram os grupos etários em que houve maior opção pelas UCI. Em termos relativos, o recurso a essa técnica rondou os 20% dos internamentos hospitalares por covid-19 nos doentes internados entre os 55 e os 74, reduzindo-se para 13% nos 75 aos 79 anos, e sendo inferior a 3% nos maiores de 85 anos. Abaixo dos 40 anos, menos de 10% dos internados tiveram necessidade de passar por UCI. 

Convém, porém, salientar que as UCI em Portugal têm três níveis distintos – por exemplo, os denominados cuidados intermédios são UCI de nível 3 –, pelo que a opção clínica por um acompanhamento mais específico e contínuo pode não significar que o doente esteja em verdadeiro perigo de morte, mas sim que o uso de técnicas mais avançadas permita uma possibilidade de recuperação mais rápida e plena. Por outro lado, significa que nem todos os internados em UCI estarão ventilados ou em coma induzida.

Mesmo sabendo que os casos clínicos dos doentes UCI são de grande gravidade, a taxa de recuperação foi de quase 72% na primeira fase da pandemia. Ou seja, em cada 10 internados em cuidados intensivos, sete recuperaram. Esse valor foi superior a 85% abaixo dos 60 anos, sendo mesmo total ou praticamente total para os internados com menos de 50 anos.

Ora, bastaria um pequeno esforço de dedução para concluir que não são assim as UCI que “fornecem” mais mortes por covid-19, se se souber assim que são os maiores de 80 anos que contribuem com cerca de dois terços da mortalidade desta doença e que estes pouco passam pelas UCI. 

De facto, na primeira fase da pandemia – e, infelizmente, não existem dados disponíveis para uma análise mais global –, cerca de 15 em cada 100 mortes vieram de doentes em UCI, enquanto as restantes 85 vieram das enfermarias. Obviamente, houve muitos mais internados apenas em enfermaria (4.082) do que em UCI (538), mas mesmo assim a taxa de mortalidade acaba por ser mais desfavorável no primeiro caso: 2,8 óbitos em cada 10 internados em enfermaria contra 2,1 óbitos em cada 10 internados em UCI.

Porém, por razões mais do que óbvias, estas taxas não podem ser comparadas directamente, porque o perfil dos internados – como se apontou acima – não são idênticos: nas UCI quase não são admitidos os muito idosos; nas enfermarias estão sobretudo os mais idosos, os mais vulneráveis e susceptíveis à acção letal do vírus. No entanto, esta análise justifica-se sobretudo para mostrar que não se pode pensar que a pandemia, sobretudo esta pandemia, se ganha ou perde, no que diz respeito aos cuidados hospitalares, por ter mais ou menos camas de cuidados intensivos ou mais médicos intensivistas. Ganha-se ou perde-se na globalidade do sistema. E, por isso mesmo será de admitir que o morticínio de Janeiro, causado em parte pela covid-19, e que atingiu sobretudo os mais idosos, tenha começado e acabado sobretudo pelo colapso ao nível das enfermarias, e não tanto na ocupação das UCI, que continua a parecer ser sempre o ai-Jesus da comunicação social convencional. E do povo, que a ouve.

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