Vítor Pereira | Jornalista e especialista em comunicação

Mudei-me para Atenas há um ano. Uma cidade que aprendi a amar e a respeitar na sua dimensão urbana de aparente caos. 

As fraturas sociais, económicas e geopolíticas na Grécia são famosas desde há séculos. Talvez ainda antes dos próprios humanos quando reinavam Titãs e Deuses do Olimpo numa luta fratricida pelo governo da herança, precisamente, da entidade primordial: Caos.

Tal como aconteceu em Portugal, as notícias da pandemia inundaram os media e as redes sociais na Grécia. Contudo, as diferenças foram para mim notórias. 

Logo em Março, quando se sabia ainda muito pouco sobre o vírus, o Governo Grego criou uma equipa multidisciplinar liderada pelo reputado infeciologista Sotiris Tsiodras. Ao contrário de Portugal, onde os interlocutores eram sobretudo políticos e burocratas, encontrei nesta decisão do Governo Grego uma frescura democrática, e sustentada na transparência e na ciência, mais do que na necessidade política de gerir uma crise com estas dimensões. Mas estávamos apenas no início e, sendo um profissional com reconhecidos créditos científicos e profissionais, Tsiodras rapidamente se tornou num dos intervenientes mais populares do combate à pandemia, sendo considerado, inclusive, por muitos, como um herói nacional, tal foi a eficácia grega na gestão dos números de infeções e mortos até Novembro passado.

“Os Gregos estão a fazer falcatruas com os testes”, comentava-se desde Portugal e de outras paragens mais afetadas pela pandemia. A verdade é que, em Março e Abril, a Grécia entrou em forte lockdown, limitando todas as movimentações de cidadãos, a ser autorizadas através de SMS, para razões excecionais, tais como compras, exercício físico, trabalho, saúde e outras. Contudo, muitos mercados de rua continuaram a funcionar e o uso de máscara não era uma obrigação. Na verdade, até Outubro passado, praticamente ninguém usava máscaras em Atenas. 

Visitando Portugal, no final da Primavera, consegui aperceber-me das diferenças evidentes. Em Lisboa, em Junho, praticamente não havia vida, e sentia o medo e a apreensão sobretudo nos proprietários de cafés e restaurantes. 

Quando regressei a Atenas, e em plena crise das companhias aéreas, que desmarcavam praticamente todos os voos, uma nova medida tinha sido implementada pelos gregos: um teste PCR à chegada, além da necessidade de preencher um formulário eletrónico com algumas informações. 

Era a fórmula encontrada pelo Governo Grego para “abrir” para o verão, e, realmente, funcionou em pleno. Terá sido um dos países com menos quebras de receitas turísticas em 2020. Mas, com menos companhias a voar, alguns destinos apresentavam um cenário desolador como os casos de Santorini ou Mykonos, por exemplo. 

Em Atenas o verão passou-se normalmente sem qualquer tipo de restrições para os cidadãos. Nos cafés, bares e restaurantes alguns funcionários usavam máscaras, mas, com os transportes públicos lotados, os bares a abarrotar e a juventude a “vingar-se” de um lockdown rigoroso, muitos pensaram que o pior tinha passado. Eu próprio, escrevi loas ao Governo Grego pela forma como geriu a crise. 

Contudo, em finais de Setembro tudo mudou, com um crescimento de mortos por covid-19 no norte da Grécia, na província de Tessalónica, a segunda mais povoada. Em poucos dias, o número de mortes aumentou, a maioria nessa zona, mas foi razão suficiente para vermos avançar novas medidas, mais restritivas. Terá sido nessa fase que, tanto o Governo como o grupo de peritos, alarmados com o que estava a suceder em outros países da Europa, decidiram seguir os exemplos mais radicais.

Terá sido um momento de viragem com disputas internas pelo protagonismo, com o Ministro da Proteção Civil a assumir um papel mais preponderante. suplantando a “autoridade” Tsiodras.

Regressamos então aos SMS, ao recolher obrigatório, e a máscara tornou-se obrigatória não apenas no interior dos estabelecimentos e transportes como também nas ruas. Fizeram-se mais testes e detetaram-se novos casos, que, por sua vez, levaram o Governo a tomar mais medidas. Foi assim até Novembro, quando praticamente tudo voltou a encerrar, incluindo as escolas para determinados ciclos de ensino e a obrigatoriedade do Teletrabalho, além de outras proibições, como as de deslocação entre municípios.

Numa outra visita a Portugal consegui ver o inverso do verão. Os portugueses estavam mais livres, mais abertos, os cafés e restaurantes e o resto do comércio funcionava com as limitações impostas, mas a vida continuava. Talvez seja cedo para haver conclusões, mas duvido que Portugal tenha tido a abordagem correta ao longo da pandemia, com imensas hesitações e recuos nas medidas e confinamentos ligeiros que eram panaceias (outra palavra grega) e sem efeitos no controle crescente de uma já anunciada segunda-vaga na Europa toda.

Os gregos, por seu turno, perfeitamente conscientes das consequências que anos e anos de crises económicas e bancarrotas causaram no seu sistema de saúde, precaveram-se ao máximo para o proteger. Ao mesmo tempo, criaram apoios para os profissionais e empresas de restauração que tiveram de parar as suas atividades. Ressalve-se também que o modelo de Saúde na Grécia é o “Bismark” (modelo alemão), tal como outros países na Europa. Inicialmente, em Abril, especulou-se que o sucesso do combate à pandemia em alguns países estivesse relacionado com o modelo Bismark, mas, com o afundar da República Checa num mar de mortos e infeções, essa tese ficou condicionada.

Estas medidas draconianas também foram sustentadas em modelos matemáticos e projeções de “especialistas”. O mesmo catastrofismo de outros, mas que, na realidade, acabou por não ocorrer. 

A maior diferença, talvez tenha a ver com a estratégia adotada pelo Governo e pela task-force. Cada conjunto de medidas implementadas tinha um período de 2 semanas até ser revista, havendo lugar a implementação de novas ou retiradas as anteriores. Com esta estratégia, A Grécia conseguia, de acordo com as orientações epidemiológicas referentes a este vírus em concreto, perceber claramente o resultado das medidas na evolução das infeções detetadas.

Outra diferença tem a ver com a política de testagem. Os gregos apenas testam quem tem sintomas, isolando os casos positivos e fazendo o seguimento dos contactos para tratamento profilático. Curiosamente, a Grécia tem ainda uma opção de testagem nos esgotos, que vai, alegadamente, contribuindo para um conhecimento mais amplo dos resultados das medidas e evolução da pandemia.

Claro que há também situações dúbias na estratégia grega, e que estão na origem do ressurgimento de alguma contestação popular. 

Em primeiro lugar, o tempo que dura já o segundo lockdown. Desde Novembro, a restauração, bares, ginásios e comércio em geral estão fechados, e a funcionar em regime takeaway e click-and-collect. Esta modalidade de compras online tem, inclusive, aspetos ridículos, roçando a boçalidade intelectual. O mais recente, proibia a venda de café em takeaway ao fim-de-semana (o correspondente à venda de postigo em Portugal). Para os gregos, o café é sagrado, e esta ideia durou apenas algumas horas até ser retirada.

Em segundo lugar, a intensificação das multas e fiscalizações tanto aos cidadãos como aos empresários. Só em dois meses (Novembro e Dezembro), a polícia aplicou multas, no âmbito da Covid-19, de mais de quatro milhões de euros. Também o facto de, ao longo de 2020 o governo ter alegadamente investido mais em forças de segurança do que na saúde e no apoio à terceira idade, deixou descontente algumas franjas da sociedade, que até Novembro estavam numa posição cooperante. Uma das medidas anunciadas, e que teve de ser retirada alguns dias depois, tinha a ver com as multas às crianças que cheguem atrasadas a casa. A Ministra da Saúde foi obrigada a retratar-se.

Em terceiro lugar, a Grécia é um barril de pólvora sociopolítico. Em plena pandemia, uma crise com a vizinha Turquia, por causa dos emigrantes/refugiados e também zona económica do Mar Egeu, quase resultou num conflito armado. A verdade é que os refugiados e as camadas mais desfavorecidas da sociedade grega têm sido os mais afetados, tanto pelas medidas de combate ao vírus como pelo próprio vírus. 

Finalmente, o facto de o governo grego ter usado a pandemia para introduzir algumas alterações legislativas relevantes, nomeadamente condicionando o direito à manifestação e ao protesto (o que em Atenas é, habitualmente, diário), terá sido o derradeiro golpe na confiança de muitos no Governo, rompendo as expectativas de que seria por causa do vírus que estava a ser adotada uma grande parte das medidas.

Uma dessas alterações legislativas mais contestadas é a nova lei de educação, aprovada já em 2019, que termina com a tradição do “Asilo Universitário”. Uma tradição instaurada na Grécia após a queda da ditadura militar em 1974, para terminar com a contínua presença policial nas universidades. O governo grego está a ser acusado de querer regressar a um tempo de repressão policial, silenciamento e perseguição política, nomeadamente a anarquistas e líderes de movimentos antissistema que tornaram as universidades a sua base de ação, ao longo das últimas décadas. O ponto alto dos protestos ocorre em Novembro, quando se assinala o massacre da Politécnica de Atenas. Em 2020, e justificando-se com a pandemia e o aumento do número de casos, o governo entrou em novo lockdown precisamente nessa altura. As manifestações e protestos foram proibidos e, para a data do protesto, dia 17 de Novembro foram mobilizados milhares de polícias e forças de intervenção para manter a ordem.

Em resumo, o confinamento mantém-se desde então e, numa tentativa de reabrir já em janeiro deste ano (2021), notou-se um aumento de casos dias depois. Houve até quem sugerisse a utilização dos números impar e par dos cartões de identificação, para sair de casa, como em tempos se fez, para limitar a poluição em Atenas, com os carros.


Entretanto, a Grécia entrará num novo lockdown ainda mais cerrado (como em Março) a partir de 11 de Fevereiro.

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