Gabriela Ruivo Trindade | Escritora

Ela seguia o pasmo, a incredulidade dos amigos e conhecidos durante a quarentena. Todos eles estrangeiros nesta terra de ninguém. Pelo menos assim parecia. Todos, menos ela. Já conhecia aquelas paragens há muito. Desde que se conhecia por gente. Sempre vivera em quarentena. Nada era novo. A sensação de perigo iminente, sempre a antecipar cenários catastróficos, desgraças, calamidades. Vivia-lhe no sangue. Era talvez a força que bombeava o coração, o medo. Um companheiro para a vida. O desastre acontecera há muito. Tanto, que não se recordava ao certo. Um naufrágio, um maremoto, uma enxurrada, um aluviamento de terras. Ficara só no mundo. A única sobrevivente. Ninguém testemunhara o seu desespero. Ninguém aliviara as suas feridas. Ninguém a consolara. Ninguém. E quando não há testemunhas, a realidade escapa-se-nos, os sentidos traem-nos. Se ninguém estava lá para ver, será que aconteceu mesmo? Terá sido imaginação? Se pudéssemos fechar os olhos e acordar deste pesadelo, não o faríamos? E então engoliu o choro, a dor aguda que a partiu ao meio, tudo em nome da sanidade mental. Da sobrevivência. Sem consciência de nada; um animal que segue em frente apesar do sangue. Das escaras que lhe entorpecem os passos. E seguiu. E voltou a ver-se rodeada de gente. O mundo tinha estado sempre lá. Apenas não a vira. Mas se o mundo não nos vê, é como se não existíssemos. Sentimos uma ameaça constante. De morte. A qualquer momento podemos desaparecer, dissolver-nos em pó. Sermos engolidos por um buraco negro. E para nos preservarmos, precisamos de nos esconder. Abrigar. Não dar nas vistas. Recolhermo-nos nos nossos casulos.

Refugiarmo-nos na toca. Sabemos que só estamos em segurança se ninguém der por nós. Porque assim temos a certeza de que tal não pode acontecer. Se não pertencermos ao mundo, então este não nos poderá rejeitar. Vivemos assim com o medo dentro de casa. O medo mais terrível. Habituamo-nos. Cuidamos dele. Alimentamo-lo. Cerramos os dentes e aguentamos. E a dada altura deixamos de senti-lo como uma ameaça. A ameaça está lá fora, na rua, nos outros, no mundo; dentro da nossa toca, onde nos abrigamos com o medo, estamos em casa. Com o coração na boca e em sobressalto permanente, mas em casa. Sempre a prever uma desgraça, com o gosto da tragédia iminente na boca, com o susto nos olhos, com o pavor dentro dos sonhos. Mas em casa. De quarentena. Completamente sós e desligados do mundo. 

Nas poucas vezes que nos aventuramos à rua, desfrutamos do sol, do ar puro, dos espaços abertos, dos sorrisos, das conversas, mas sabemos que não pertencemos ali. Não fomos feitos para aquilo. É na reclusão que podemos fechar os olhos e descansar. E quando o mundo entra em quarentena, a incredulidade entra-nos pela porta sem pedir licença. É que de repente já não estamos sós neste abrigo; estamos todos. O mundo inteiro juntou-se a nós, refugiou-se connosco dentro de um medo comum. Pela primeira vez não nos sentimos aliens. Pela primeira vez pertencemos. E que estranheza, ver todas aquelas pessoas a comungarem dos mesmos sentimentos, da mesma angústia, da mesma perplexidade, do mesmo alheamento, do mesmo desespero. Tanta gente que não está habituada a isto, e se queixa constantemente das minudências mais banais; sim, para nós não passam de banalidades comezinhas. 

Ter medo constantemente, não conseguir chegar aos outros, perecer dentro de paredes de vidro, intransitáveis; sentir que não somos nada, que não temos poder para nada, que nada podemos fazer para alterar o rumo das coisas, que nada temos para dar, que o melhor é ficarmos imóveis até o mundo se esquecer de nós. Welcome to my world, apetece-nos dizer. E não tenham pressa. Sentem-se um bocadinho. Quando tudo voltar ao normal e regressarem às vossas vidas, eu ainda aqui estarei. Ainda aqui estou. Prisioneira do próprio medo. 

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