Pedro Almeida Vieira | Engenheiro Biofísico e Economista

Pedro Almeida Vieira

Além das pessoas que perderam a vida, a grande vítima da pandemia tem sido o Jornalismo português. A Imprensa, enfim. Não acredito em teorias da conspiração, nem tão-pouco na tese da intencional manipulação da informação como forma de pagamento do “favor” que o Governo concedeu às empresas de comunicação social ao direccionar-lhes 15 milhões de euros dos nossos impostos. Acredito mais numa deriva disfuncional – mais grave ainda, porque estrutural –, que se iniciou por razões bem-intencionadas (e o Inferno, dizem, está bem cheio delas), mas acabou por se fundir numa Narrativa Oficial, incutida pelo Governo. Por osmose, essa Narrativa colou-se de tal modo à comunicação social que os jornalistas deixaram de questionar, e de se questionarem; de quererem respostas, e darem respostas aos leitores. Afunilaram as fontes e subjugaram-se ao ritmo da Narrativa Oficial. As perguntas incómodas, o must do Jornalismo, atrofiaram-se, emudeceram, eclipsaram-se. Já não existem. 

Ao longo dos meses, e desde o início da pandemia em Março, raras vezes se questionou o Governo ou a Direcção-Geral da Saúde (DGS) sobre as consequências da suspensão da actividade supostamente não prioritária do Serviço Nacional de Saúde (SNS); sobre o excesso de mortalidade não-covid, sobretudo no Verão; sobre as razões para não se revelarem dados da mortalidade  por concelho (quando se bombardeia números nessa escala geográfica para os casos positivos); sobre a situação dos lares, sabendo-se que Portugal é um dos poucos países europeus sem qualquer relatório nesta matéria; sobre a base científica em concerto das medidas de confinamento; sobre muitas outras coisas.

O vírus eliminou também, e em pouco tempo, aquilo que era o apanágio da Imprensa: a diversidade de opiniões. Tudo agora a uma só voz.  Se surge uma diferente é para se queimar, e depois incinerar no perpétuo inferno do ódio das redes sociais. Não contentes em promover a ostracização de opiniões distintas – rotulando tudo de “negacionistas”, “terraplanistas”, “bolsonaristas”, “trumpistas” e “extremistas de direita”  –, as direcções editoriais dos diversos órgãos de comunicação social colocaram à margem as poucas pessoas capazes de enquadrar a pandemia num contexto mais global de Saúde Pública. Os casos dos professores Jorge Torgal e Henrique Barros estão longe de ser únicos, mas são os mais paradigmáticos. Vistos como as caras do Conselho Nacional de Saúde Pública que em Março de 2020 recomendaram o não-encerramento das escolas, foram retirados de circulação mediática por aparente combinação, pelo menos implícita, da Imprensa. Só agora, quase de forma envergonhada, são auscultados pela imprensa, mas nunca pelo Governo, e agora que a casa já ardeu. 

A Imprensa tem muitas culpas na estratégia seguida pelo Governo. Tem culpa em aceitar que um país, que nunca colocou a Epidemiologia como prioridade de Saúde Pública – a Ordem dos Médicos desistiu de reconhecê-la como especialidade, neste momento é uma “profissão” que se assume como a presunção e a água-benta –, tenha tido um doutorado em Biologia Vegetal e outro em Geodésia a perorarem sobre a pandemia como se fossem especialistas de gabarito internacional. Tenha aceitado que um professor universitário de Matemática apresentasse, como se fosse algo válido, e não risível, um modelo que previa a infecção de 12 milhões de portugueses. São não-epidemiologistas, mais os seus R0 e mais modelos bioestatísticos – e com pressupostos que levariam ao “chumbo” de um aluno universitário – que forneceram a justificação pseudo-científica para o Presidente da República e o Governo decretarem os confinamentos, o encerramento de escolas, a suspensão de actividades económicas e a vida profissional de muitas pessoas. Aliás, a própria vida das pessoas. Enquanto isso, o Governo, e mais a sua inoperacional e ineficaz DGS, pouco fez no campo epidemiológicos (em detectar e acompanhar surtos) e na organização e reforço dos cuidados de assistência médica. 

Nunca houve massa crítica na Imprensa portuguesa para denunciar o ridículo destes “epidemiologistas de trazer por casa”, que apenas defenderam a causa do Governo – uma causa que, actualmente, serve apenas para branquear uma péssima gestão da pandemia. Pelo contrário, a Imprensa andou a lambuzar-se enquanto ouvia estes não-epidemiologistas, porque promoveram o pânico e o pânico promoveu audiências e cliques. 

Também nunca se viu massa crítica na Imprensa portuguesa para conseguir exigir à DGS e ao Governo garantias para, pelo menos o futuro, se ter um país mais decente. Para se ter um país, à imagem da Suécia, com uma verdadeira Agência de Saúde Pública; uma agência com um epidemiologista-chefe, licenciado em Medicina, com mestrado em Epidemiologia, com doutoramento em Epidemiologia e dirigindo um departamento de seis divisões com 128 pessoas, maioritariamente, com formação em, adivinharam!, Epidemiologia. Para se ter um país que não aceite a existência de uma triste “anedota” chamada DGS, que, no meio de uma pandemia, nem tem pessoal para actualizar um pdf de (agora) duas (abundantes) páginas sobre a situação diária e se vê na necessidade de contratar uma empresa externa.

Choca-me também a repentina perda da capacidade da Imprensa em questionar a realidade, perdida logo nos alvores da pandemia. Agora, acreditam e difundem, desde logo, o primeiro argumento oficial e a primeira tese aventada por especialistas que sigam a “linha da desgraça”, de tudo para a pandemia, e nada para o resto. Nem é a maioria da Imprensa; é toda, em pensamento único. Aliás, nunca se viu tanta reprodução acrítica dos takes da Lusa; notícias iguais, como se fossem bots. Aliás, curiosamente, em Novembro de 2019, a Lusa divulgou que tinha colocado em funcionamento um robot para escrever peças da abertura e fecho das bolsas. Desconfio que foi reconvertido para escrever notícias sobre a pandemia. 

Como antigo jornalista, envergonha-me observar uma Imprensa – toda, sem excepção – que nunca questionou aquilo que verdadeiramente sucedeu em Janeiro, alimentando a estapafúrdia tese da variante inglesa e do Natal, supostos maus comportamentos dos portugueses e das escolas. Independentemente do incremento de casos positivos, um aumento de 50% nos internamentos naquele mês, em relação a Dezembro, nunca poderia ter tido como outcome um crescimento de 200% de mortes por covid, a não ser – como efectivamente sucedeu – por colapso do SNS. Alguém da Imprensa questionou o Governo sobre o plano de contingência aprovado meses antes? Sobre da Imprensa fez perguntas sobre a prometida existência de 17.700 camas para apoio à covid-19, sabendo-se que o SNS entrou em colapso a partir dos quatro mil internamentos? Alguém da Imprensa quis saber porque, em plena pandemia, se perderam cerca de mil médicos por reforma, mas não se deram passos para reintegrar muitos que se disponibilizaram?

Envergonha-me também a forma enviesada como, durante meses, a Imprensa portuguesa foi metralhando de críticas – por motivos distintos, mas sempre ideológicos e nada objectivos – a gestão da pandemia na Suécia (vista como “inimiga dos confinamentos”, pelo que merecia que um desejável castigo divino fosse exposto como exemplo), no Brasil e nos Estados Unidos. Mais ainda porque depois de Portugal ter ultrapassado estes países, em termos de mortalidade relativa, pouco mais se falou deles. Eis aquilo que a Imprensa portuguesa nos impingiu ao longo dos meses: as mortes na Suécia eram culpa da irresponsabilidade de uma Agência de Saúde Pública, quase acusada de promotora de eutanásia; as mortes no Brasil por causa do Bolsonaro; as mortes nos Estados Unidos por causa do Trump; as mortes em Portugal por causa do Natal, dos portugueses e suas festividades, da variante inglesa e das escolas. Ponto final. Nem os bancos suíços não lavar tão bem.

Envergonha-me também observar tamanha ignorância da esmagadora maioria dos jornalistas no tratamento da informação mais básica. Já nem refiro a saber interpretar um estudo científico – ainda mais num período inédito em que a Ciência também perdeu a cabeça, permitindo publicar artigos em revistas (supostamente) científicas sem a necessária qualidade e ponderação entre pares (peer reviews). Falo sim em interpretar meros dados numéricos. Raramente os jornalistas sabem contextualizar, enquadradar e padronizados números. Observar o Público a desbobinar, dia após dia, a mortalidade por covid da Índia sem referir que este país tem uma população quase 140 vezes maior do que a portuguesa, causou-se uma estranha sensação de vergonha alheia. Notem: apesar da Índia ter cerca de 10 vezes mais mortes por covid-19 do que Portugal (quase 156 mil contra um pouco mais de 15 mil em Portugal), mas em termos relativos tem apenas 112 mortes por milhão de habitantes, estando assim próximo do centésimo lugar à escala mundial. Portugal está agora com mais de 1.500 óbitos por milhão de habitantes, ocupando a 6ª posição dos países mais afectados pela pandemia. Ou seja, o nosso país está 13 vezes pior do que a Índia. Pior ainda foi ver jornalistas escreverem e dizerem sistematicamente, quando era caso disso, que a redução de internamentos era uma “boa notícia”, nem sabendo, nem compreendendo, o horror das suas palavras: uma parte da redução dos internamento é sempre de pessoas que faleceram e que, por isso, desocuparam as camas.

Porém, mais chocante ainda é constatar que os jornalistas – num período em que a pandemia monopolizou a informação – se esqueceram de uma das suas mais nobres funções: ser o watchdog da democracia. Nem quero sequer referir-me muito à forma passiva e acrítica como aceitarem bem a deriva autoritária. Os directores dos órgãos de comunicação são assumidos adeptos dos confinamentos, acreditando piamente nas virtudes das restrições às liberdades face aos efeitos da pandemia, que eles acreditam ser medonhos. Desejo sim, apenas, referir-me ao desleixo da Imprensa no acompanhamento do grupo dos mais vulnerável à pandemia, e razão máxima da política das restrições: os idosos, e particularmente os idosos nos lares. 

Aqui, em Portugal, a Imprensa aceitou que a DGS e o Governo nunca se vissem na obrigação de fornecer informação detalhada sobre os lares de idosos. No Reino Unido, os dados são diários e por county. Na Suécia fizeram-se relatórios circunstanciados sobre os lares – que serviram, aliás, para corrigir erros entretanto assumidos. Na França, Bélgica, Estados Unidos e tantos outros, idem. Na verdade, de um lote de mais de 20 países analisados por investigadores para o International Long-Term Care Policy Network, na Europa apenas Portugal, Itália e Hungria nunca produziram relatórios oficiais sobre a pandemia nos lares. A Imprensa acha isto normal. Acha a Imprensa também normal noticiar apenas o início de surtos em lares, um aqui, mais outro aqui, mais uma dezena ali, mas depois esquece a evolução, esquece o follow up. Parte para outra. Quando muito, a Imprensa regional lá vai acompanhando, de quando em vez, mas a Imprensa nacional, essa, tem mais que fazer. Se procurarem, não vão encontrar, na maioria dos casos, notícias nos principais canais de televisão ou nos jornais ditos de referência sobre a totalidade dos mortos nos lares de Mourão, Alcáçovas, Alcácer do Sal, Arruda dos Vinhos, Mértola, Montemor-o-Novo, Benavente, Óbidos e tantos outros. Em muitos casos ultrapassaram as três dezenas apenas num mês. Não me recordo de nenhuma notícia em que um jornalista questione qualquer membro do Governo para que esclareça o que se passa nos lares, nem vi um sequer a exigir que sejam mostrados números detalhados sobre casos positivos e sobre mortes por concelho. Nada disso. Agora, só mostram notícias sobre vacinação nos lares. Só mostram o lado bom – o Governo a mostrar que anda a salvar velhinhos –, esquecendo que o mesmo Governo coloca um manto negro sobre o que verdadeiramente se passa nos lares. 

Porém, maior engulho me causa ainda o novo estilo da Imprensa portuguesa a produzir notícias e sobretudo títulos. Fui jornalista durante mais de 15 anos, e escrevi em órgãos de comunicação social de relevo – como o Expresso e Grande Reportagem – e não me recordo de usar uma única vez o verbo poder num título. Não sei aquilo que ensinam nas escolas de comunicação social, nem se há livros de estilo que abordam essas matérias, mas, para mim, meter um pode num título é exactamente a mesma coisa do que meter um não pode. E, nessa medida, se uma notícia parte logo do pressuposto de que aquilo sobre o que aborda tanto pode como pode não acontecer ou ser, então não é sequer susceptível de o ser (notícia) e nem sequer deve ser publicada até que se saiba se o facto ou evento sucedeu ou não sucedeu. 

Reparem no seguinte lote de 15 notícias distintas, associadas à pandemia, em nove órgãos de comunicação social (jornais, televisão e rádio), apenas entre 10 e 13 de Fevereiro:

  1. Meta de vacinação prevista para o verão pode não ser cumprida, SIC Notícias (13/02/2021) 
  2. A covid-19 pode custar-lhe um braço ou uma perna, Sábado (13/02/2021)
  3. Covid-19. Isolamento profilático pode baixar de 14 para 10 dias, Público (12/02/2021)
  4. Doente britânico pode vir a precisar de ventilação para o resto da vida, SIC Notícias (12/02/2021)
  5. OMS admite que pessoas vacinadas podem eventualmente infetar sem ficarem doentes, Lusa (12/02/2021)
  6. Alemanha pode introduzir mais controlos fronteiriços para evitar mutações, Observador (12/02/2021)
  7. Vacina portuguesa contra a Covid-19 pode estar no mercado no próximo ano, Rádio Renascença (12/02/2021)
  8. Supermercados podem voltar a vender livros e materiais escolares, Visão (11/02/2021)
  9. Especialista diz que variante britânica pode tornar-se dominante no mundo e teme pela eficácia das vacinas, Diário de Notícias (11/02/2021)
  10. Vacina contra novas variantes pode demorar até nove meses, diz Astrazeneca, TVI (11/02/2021
  11. SINAVE pode estar a atribuir casos a mais à Madeira, Visão (10/02/2021)
  12. Reino Unido: esconder viagens para destinos como Portugal pode dar dez anos de prisão, Público (10/02/2021)
  13. Medicamento para a asma pode reduzir necessidade de internamento de doentes covid, TVI (10/2/2021)
  14. Portugal pode vir a enfrentar confinamento de 60 dias, TVI (09/02/2021)
  15. Wuhan pode ter sido o ponto de chegada da covid-19 e não a origem, Público (09/02/2021)

Todas estas notícias têm, pelo menos, uma entre várias intenções ou características: promover simplesmente o medo (e, mais do que a morte, o sofrimento de sequelas); incentivar a incerteza para promover o medo; preparar terreno para eventuais medidas ou incumprimentos do Governo; mostrar contínua incerteza sobre os conhecimentos em redor da pandemia, de modo a criar uma sensação de ineditismo e, portanto, perigosidade elevada e imprevisível.

Contudo, não quero escalpelizar mais esta parte, por agora. Apenas vos peço um pequeno exercício: acrescentem a palavra não à forma do verbo poder usada em cada título. Podia ficar assim o título, não podia? Podia, mas ficava mais evidente ser mau jornalismo. Sem o não, porém, também é muito mau jornalismo.

Enfim. Termino por aqui, com um lamento. Hoje todos os jornais, toda a comunicação social, se tornou um pastiche informativo: lendo e vendo um, é como se se lesse ou se visse todos; ler ou ver todos, é como se não se tivesse lido ou visto nenhum. Nada fica.

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