Tiago Franco | Engenheiro de Software (Volvo Cars, Suécia)

Enquanto circulava pelo bosque do bairro, evitando as escorregadelas no gelo, tentava ordenar mentalmente as notícias que vão chegando de Portugal. É a minha forma de encontrar um fio condutor e, de alguma maneira, perceber a lógica de quem decide.

Por mais que queira respirar para lá da covid-19, é difícil não ficar preso nos detalhes. As notícias sucedem-se, os casos também. Há relatos que me deixam a pensar e histórias que não batem certo com as restrições em vigor.

Leio uma reportagem sobre uma rapariga que, à falta de Internet em casa, vai para a carrinha do pai à procura de sinal e, dali, vai acompanhando as aulas. Outra sobre uma senhora, mãe de dois filhos pequenos, que transformou a sala de casa na mesa do call center, e que vai dando em maluca, com duas crianças à perna, enquanto fala ao telefone oito horas por dia. Sabendo que não trabalhar deixa de ser opção, porque, tendo emprego, não teria direito a qualquer apoio do Estado. Juntando a isso as creches e escolas fechadas, há que continuar a trabalhar e enlouquecer em simultâneo.

Eu compreendo que, por norma, não devemos tomar uma história como um todo, mas, neste caso, eu acho mesmo que o caos está instalado de norte a sul de Portugal, de esta parte às ilhas. E se os jornais forem à procura, encontrarão casos para várias edições.

Chegam números do confinamento. Dos 5,5 milhões de trabalhadores portugueses, cerca de quatro milhões continuam na rua, nos transportes, nos serviços, nas fábricas. Pouco mais de um milhão fica em casa e, a estes, juntam-se as crianças e os reformados, nos lares, casas próprias ou com familiares.

Há relatos de pedidos de ajuda dos novos pobres. Os casais que antes viviam com dois salários mínimos e agora vivem com apenas um. Passaram de pobres a miseráveis e necessitam de, entre outras coisas, comida. Passa-se fome em Portugal. Um país, onde há 35 anos chove dinheiro comunitário, que ainda vê 20% da sua população na pobreza. Depois da pandemia serão mais.

Discute-se o atraso que este ano trará na vida das crianças para quem a escola tem sido um part-time. Acompanho discussões apaixonadas sobre “agora é preciso sobreviver, a escola logo se vê”, seguidas de silêncios profundos nas medidas de protecção onde de facto se está a morrer. Ao dia de hoje continuam utentes de lares e cuidadores por vacinar.

A Direcção-Geral da Saúde (DGS) admite atraso na vacinação, e já se aponta o Outono de 2021 como meta para a conclusão do programa. Entretanto, o país vai engrossando a dívida pública, que já era de outra galáxia antes da pandemia, para pagar subsídios que, aparentemente, são insuficientes. E vê-se a população a empobrecer cada vez mais.

A quantidade de pessoas que sobrevivem com um salário mínimo (dados que já se conheciam antes da pandemia) é enorme, e como tal, a margem de manobra no caso de ficarem sem emprego é absolutamente nula. Quando as moratórias dos bancos terminarem, e o pagamento do crédito recomeçar, entraremos no modo “tempestade perfeita”.

António Costa, entretanto, foi assinar o papel que trará o dinheiro da “bazuca”, e já se começam a preparar-se comissões de comissões para fiscalizar comissões que, julgo, tratarão de dividir o dinheiro. Quem sabe até aplicá-lo na ajuda à população ou no reforço do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Se a bitola forem as cunhas para o raio da vacina, enfim, teremos os “turismos rurais com apoio da UE” dos anos 90, mas agora em versão salve-se quem puder.

As mortes continuam acima da centena, porque, lá está, estas não chegam das escolas, que entretanto fecharam há mais de 20 dias, se não me enganei na conta.

O embrulho é tão grande, as notícias são tão contraditórias e os relatos são tão esmagadores, que eu fico absolutamente angustiado a tentar seguir a realidade. E em momento algum consigo perceber uma linha de rumo.

As dúvidas que mais vezes me assaltam:

A) De onde chegam os mortos?

B) Que percentagem de infectados chega às urgências? (Esta deve ser fácil)

C) Porque é que se insiste em tratar a população como um bando de atrasados mentais sem interesse na própria vida?

Alguém?

Não percebo o que se passa nos lares em Portugal, apenas que não estão isolados ou totalmente vacinados.

Não entendo a falta de investimento no SNS. Com ou sem pandemia, desde que o Passos Coelho mandou o pessoal emigrar, fizeram alguma coisa para trazer enfermeiros, para além de lhes congelarem salários?

Não vejo o porquê desta insistência no confinamento, de uma minoria, e a falta de aposta na responsabilização da população (para que cumpram distâncias, não para andarem a fugir da polícia).

Decididamente, não compreendo o interesse de fechar as escolas, para que os miúdos não transmitam vírus, se depois são os avós que vão tomar conta deles.

E por último, não vejo mesmo que plano sobra para a catástrofe económica quando a imunidade for atingida.

Quase a chegar a casa, descobri esta construção (vejam a foto) numa árvore, e, debaixo daquele céu azul, sintetizou tudo o que eu não compreendia. Trata-se afinal de fé. O Governo português fechou os olhos e disse: “em frente”. E esperam que entre sol, vacinas, assintomáticos e “bazucas”, este puzzle de equívocos se transforme numa saída airosa a tempo de preencher um cartaz de campanha.

Nada corre bem, mas, ainda assim, António Costa tem a mesma fé e esperança que o construtor desta casa tinha quando, num cálculo original e aparentemente errado, apoiou o “pilar” da estrutura na parte mais fraca de um fino galho.

Aquela casa, consigo garantir-vos, ainda não caiu. Confiança nesta vida, é tudo.

Apoie o Farol XXI