Raquel Ochoa | Escritora

Caminha pela rua vazia, entretida em não pensar em nada, não tem pressa ou os seus membros vão na velocidade máxima. Quando se dá conta, atravessou a avenida sem ver ninguém. A sua intuição picotou-lhe alguns sinais de alarme, mas, ponderando um pouco, percebe que ruas vazias hoje em dia é um sinal de alienação, não motivo para se amedrontar.

Há várias décadas andava sozinha na floresta, nessa altura levava frutas e outros víveres à sua avozinha, tal como nos contos infantis, espelhos da sociedade em crescimento.

Agora a floresta era a cidade, as casas de janelas abertas e arejadas, em pleno Inverno, podiam comparar-se às árvores que tudo observam lá de cima, sombreiras, bisbilhoteiras.

Sentiu um clique digital, como se a fotografassem, e mais por obrigação do que por curiosidade, olhou de esguelha, direita ao segundo esquerdo do número 15.

Não atravessava a floresta, como em menina, mas ela era a presa, e a pessoa que a filmava estava à caça. Curvada, regressou à sua marcha, menos confiante da sua solidão, o que ironicamente não a deixou mais descansada.

Lembrou-se depois dos tempos de fome, da alegria ao encontrarem bolachas de aveia dura nos estábulos, as bolachas dos cavalos.  O tempo da guerra. O tempo das rações. E mesmo assim eram tempos bons quando comparados com aqueles outros das crónicas da avó. “Nunca antes houve uma guerra assim, menina, quando o homem se enterrou em buracos e se matou, olhos nos olhos, aos milhões, subindo as pilhas de cadáveres dos seus iguais, tombados, nos últimos segundos de vida a chamarem pela mãe aos berros”.

Lembrava-se destas palavras da avó sobre a Grande Guerra, e reflectia agora, já velha, que a escolha das palavras provavelmente não teria sido a mais pedagógica, falar assim a crianças, hoje em dia, deus me livre, daria direito a correcção da minha filha se usasse tal linguagem com os netos. 

Uma janela bate com força, um vulto passa e grita lá de dentro:

─ Use a máscara!

Ela pensa, as pessoas perderam a noção de limite, mas talvez isto melhore.

Vai sozinha na rua, só o vento a acompanha. Tem rugas nas mãos, e a cara de menina nem um grande pintor lhe conseguiria adivinhar. Sente que as pessoas estão tristes, que dentro daquelas casas há aborrecimento, muitos fantasmas e incompreensão. 

Talvez isto melhore em breve.

Se todos caminhamos para a morte, não será a ver televisão que vou esperar por ela.  Não sei o que se passa com aqueles moços… se calhar devia ligar ao Goucha, pró programa em directo, para o avisar. Estão a dar o mesmo programa em todos os canais há mais de 10 meses…

Blog da autora

Livros na Wook

Apoie o Farol XXI