Edite Amorim | Empreendedora (Thinking Big)

Quase um ano desde o novo normal: caras semi-tapadas, corpos afastados, eventos cancelados, ecrãs mais presentes, novos hábitos, novas rotinas, fim de tantas coisas, reinvenção (forçada) de tantas outras.

Quase um ano em que o combate a um vírus que ameaça o físico veio mexer e comprometer todas as esferas de que somos feitos.

Sinto na pele a urgência de refletir sobre esta nova vida que se vai desenrolando e de tecer caminhos que não passem por um simples aceitar de um: “Agora é assim, pronto.”

Assumindo toda a responsabilidade cívica e sanitária individual, continuando a corresponder aos comportamentos que se esperam de quem tenta combater coletivamente uma pandemia, não descurando em nada os cuidados a ter, a pergunta ainda assim impera: E o mais além? E o mais longe? E o além-físico comprometido por este vírus?

Como cidadã, como humana, como formada em Psicologia, como mãe, como empreendedora, como companheira, como amiga, urge-me a reflexão.

Que vida se está a construir no presente, que impactos no futuro próximo e longínquo? A reflexão leva à ação e esta é a minha. Permito-me a partilha aberta, na expectativa de abrir espaço a outras e, posteriormente, à exploração criativa de possíveis respostas. Porque se há altura destes nossos tempos em que o pensamento divergente é necessário, útil e urgente, será talvez este.

Observar e questionar tudo o que de paralelo se passa parece-me um primeiro passo.

O seguinte? Tecer criativamente ações que permitam continuar a descida de impacto deste desafio à saúde sem esquecer da necessidade de manter elevado o padrão humano de que somos, afinal, todos feitos.

Precisamos de olhos postos na reconstrução e cuidado do que ficou perdido nas ruas paralelas deste caminho pandémico.

Uma vez restabelecidos do vírus ameaçador haverá todo um tecido a necessitar de atenção e cuidados. O momento presente é já um lugar de ação, para evitar que as mangas tenham que se arregaçar demasiado altas e seja necessário remendar pedaços talvez já demasiado esfarrapados.

Começando então por dar luz e visibilidade a alguns desses pontos precisamos, creio, de pensar em coisas como:

1 – o preço a pagar por não estarmos a assistir aos funerais de pessoas significativas para nós, deixando corpos enterrados sem almas devidamente despedidas. Como serão os lutos de amanhã? Como se apanharão os pedaços partidos de adeus que não foram bem feitos?

2 – o preço a pagar por não estarmos a acompanhar a velhice de quem nos foi tudo na vida. Como será saber que, para proteger uma pessoa que nos foi importante durante anos a tivemos que deixar sozinha durante dias, semanas, meses? Como serão os corações velhos que ficam sozinhos e os que os abandonam involuntariamente, com justificação num mal maior?

3 – o preço a pagar por deixar crianças de 2, 3, 4 anos sem brincarem livres umas com as outras durante tanto tempo. Como será ter crescido sem esfolar joelhos a dois, sem partilhar brinquedos, sem fazer torres de Legos com quem se estava habituado a ver diariamente?

4 – o preço a pagar por deixar de inspirar ar puro, vento fresco, durante semanas, meses. Como será ter vivido com o nariz filtrado por tecido dias e dias a fio, separado de brisas suaves e ventos frescos? Como ficarão os pulmões de quem agora passa horas de máscara e a quem falta o respirar fundo ao frio ou ao sol para compensar? Como será o estado do aparelho respiratório de quem, de repente, deixou de receber ar direto e passou a filtra-lo até nos espaços exteriores?

5 – o preço a pagar por passar horas diante de um ecrã de computador a ter reuniões, a ter ou dar aulas, a aprender canto, a fazer yoga. Em que estado ficarão os olhos de quem agora acompanha o mundo através de ecrãs e de quem faz disso a maior parte do seu dia? Que volta se dará às retinas de quem agora investe a visão num foco único e luminoso durante a maior parte do dia?

6 – o preço a pagar por ter bebés e crianças pequenas a nascerem num mundo onde não veem mais do que olhos, sem expressões mais amplas trazidas pelo franzir de um nariz ou um sorriso aberto. Como saberão ler emoções as pessoas que nasceram num meio onde os dados para tal não estão todos visíveis? Que literacia emocional pode ser ensinada com uma tão grande falta de elementos desde cedo? Como será a nova geração que vem ao mundo a ver sorrisos contados?

7 – o preço a pagar por haver avós que morrem sem ver netos nascidos, haver famílias separadas por fronteiras impossíveis de galgar em viagens corriqueiras, haver histórias de laços próximos interrompidos por viagens que não se podem fazer e encontros que não se podem ter. Como se reconstruirá a geografia familiar de quem se amputou de membros durante tanto tempo?

8 – o preço a pagar por haver dificuldade acrescida no acesso aos livros, impedidos os passos entre prateleiras e conversas com livreiros que sugerem, explicam, aconselham. Como se apanhará o comboio da leitura de quem lia porque passeava em corredores que faziam apetecer títulos ou autores? Como se resgatará o amor pelos livros que possa começar a desaparecer por dificultado acesso?

9 – o preço a pagar por se desaprender a abraçar espontaneamente. Como se recuperará a proximidade do toque corpo a corpo que os anos imprimiram naturalmente mas que os novos hábitos desabituaram? Como nos aproximaremos de novo com facilidade e fluidez confiando na proximidade do outro corpo? Como será reaprender o esticar e apertar de corpos que se habituaram a afastar e evitar?

10 – o preço a pagar por se passar tanto tempo sem caminhar livremente. Que efeitos pagará o corpo por uma inércia que limita os passos em voltas ao quarteirão? Que saúde resistirá ao impedimento do livre andar sem tempo e espaço limite? O que trará o novo sedentarismo, o exercício limitado aos tapetes estendidos em salas, a limitação dos lugares por onde correr? O que dirão sobre este desacelerar os corpos que agora quase se imobilizam?

11 – o preço a pagar por vermos desaparecer tantos projetos que murcharam sem água-gente capaz de os consumir. Como se reabrirão de novo as portas de negócios-sonho que se fecharam agora? Como se voltará a imprimir confiança para re-apostar, re-insistir, re-inventar e re-investir depois de tudo passar? Como se recuperará a energia empreendedora-criativa de quem tinha acabo de tentar tudo, de dar tudo, e acabou por fechar portas sem as ter querido fechar?

12 – o preço a pagar por pormos crianças e adolescentes mais tempo diante de ecrãs do que o que seria de esperar. Como reverteremos esta tendência ecrã-fólica que agora impera por ausência de alternativas a passar o tempo caseiro? Como se voltará a dizer às crianças e adolescentes que agora é a vida real de novo e que há que sair desse conforto luminoso e voltar à ação de carne e osso? E que efeitos terão estas horas extra de ecrã na saúde física, mental e emocional desses consumidores?

13 – o preço a pagar por haver mães que veem nascer filhos sozinhas em salas estranhas, com máscaras postas em caras suadas, ou sem possibilidade de os abraçarem por tempo mais que contado. Como se curarão as feridas de um mal-nascer e de um mal-parir? Como sarar as revoltas de quem passa por um parto que deixa mais marcas na alma do que no corpo? Como se poderão recuperar as histórias que começam com pais impotentes e irados com procedimentos que mancham num para-sempre o começo dos seus filhos e de si mesmos como pais?

14 – o preço a pagar por uma privação de arte e cultura consumida ao vivo, com a flor da pele a testemunhar emoção. Como se apanharão comboios de cultura, de elevação, de sensibilidade sem poder vibrar com as cordas de um contrabaixo ao vivo, sem as luzes que iluminam passos de dança, sem a intensidade de uma expressão teatral testemunhada a poucos metros? Como crescerá esta geração privada de arte e cultura pele-a-pele tanto tempo?

15 – o preço a pagar por solidões que crescem como castelos fechados, depressões que incham sozinhas entre quatro paredes, obsessões que aumentam sem margem de contraponto, ansiedades que se tornam incapacitantes e limitadoras. Como se dará a volta a uma saúde mental que se afunda em espaços de pouca luz, na ausência de partilha simples e aliviadora, no afunilar de perspetivas? Como se recuperará a saúde mental que, entretanto, vacilou, enfraqueceu ou até mesmo cedeu? Como se poderá tirar do buraco quem, entretanto, nele caiu e de onde não se consegue sequer imaginar levantar?

16 – o preço a pagar por se ter pessoas a passar pelas mesmas condições específicas sem se poderem encontrar e partilhar. Como será a recuperação de doentes que agora não podem encontrar-se em grupo e partilhar processos, histórias, convalescença? Como serão as novas mães que não podem partilhar dificuldades, angústias, inquietações de forma espontânea com outras mães? Como serão os dias de quem passa por vícios limitadores a sós, sem possibilidade de ouvir testemunhos diretos de outros passos e palavras de conforto numa recuperação possível? Como se recuperará a solidão sentida por quem agora se percebe isolado na sua condição e em que os outros em condições semelhantes estão tão aparentemente longe e distantes?

18 – o preço a pagar por tantos primeiros beijos adiados. Como se voltarão a pôr os anos fundamentais de descobertas e explorações íntimas nas histórias pessoais de jovens que agora se afastam em vez de se aproximarem? Como se completam as histórias de quem estava no “quase” e agora parece afundado num “nunca mais”? Que vulcões se estarão criando em adolescentes que, em vez de se abrirem e explorarem, se tapam, se cobrem, se afastam? Que pulsões se entopem e aprisionam, que frustrações consomem quem agora passa por uma fase já de si tão cheia de opostos e inquietações?

19 – o preço a pagar por haver tantos futuros músicos, futuros bailarinos, futuros atores, futuros desportistas profissionais impedidos de progredir na sua técnica de forma grupal e sem encontrarem no próprio grupo um elemento de aprendizagem, fortalecimento e interação. Como se poderá recuperar o tempo em que o grupo não fez parte da sua técnica e da sua prática?

20 – o preço a pagar por assistirmos a consultas de saúde física ou mental, em que o rosto dos pacientes não é tido em conta na leitura de sinais. Como se detetarão os erros produzidos por más leituras ou por leituras feitas com dados insuficientes de rostos semi-tapados? Como se reestabelecerá a confiança e proximidade com os profissionais de saúde física e mental que usam agora menos recursos para leitura e mesmo criação de relação com os seus pacientes?

Esta lista poderia continuar indeterminadamente. No entanto o objetivo não é o de ser exaustiva, mas incisiva. Impera a reflexão sobre as novas realidades e as suas infinitas repercussões. E importa, sobretudo, abrir espaço para a procura de soluções, para a abordagem que se foque na construção de um futuro que tem como presente um rosto semi-tapado e corpos afastados.

É vontade de unir para criativa solução, o que me move, mais do que o crítico e inútil apontar de feridas incuráveis.

É a vontade de chamada à nossa ação na construção de soluções e alternativas que respeitem o atual combater pandémico, mas que sejam simultaneamente capazes de iluminar o que agora se apaga um pouco, um pouco mais a cada dia sem rosto inteiro.

Talvez sair do estado de pandemia seja só o primeiro passo de uma recuperação maior necessária, imperiosa. Talvez não sejam só os corpos que necessitem de imunizar-se a um novo vírus, mas todo um coletivo — o humano — que vá precisar de se reaprender, depois daquilo que a vivência das condições presentes nos mergulhou.

Precisamos de erguer os olhos para o futuro e vê-lo de cara descoberta e ar fresco e novo a entrar. Precisamos de começar a construir mentalmente uma imagem de futuro para o qual valha a pena caminhar e de passos concretos que nos levem já nessa direção. Unimo-nos neste criativo e elevado repensar?

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