Os testes PCR e de antigénio têm sido usados como uma ferramenta no combate à pandemia, levando a gigantescas operações logísticas a custos elevadíssimos. Mas será que testar vai, seguramente, salvar mais vida? Numa análise matemática a 43 países europeus e americanos procurou-se saber se existe alguma correlação entre testes e mortes. A resposta é não. Testar mais não leva a menos mortes, nem quem testa menos é castigado com mais óbitos.

João José F. Gomes | Professor do Departamento de Estatística e Investigação Operacional da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Pedro Almeida Vieira | Engenheiro e economista

A estratégia de “testar, testar, testar”, recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e seguida por muitos países, não tem estado a dar quaisquer frutos quer na Europa quer nas nações com maior mortalidade relativa.

Uma análise feita em 43 países mundiais, englobando todos os 36 países da Europa com mais de um milhão de habitantes e ainda sete países do continente americano (Estados Unidos, México, Perú, Panamá, Colômbia, Brasil e Argentina) – e que incluem os 25 países com maior mortalidade relativa –, mostra que não existe qualquer correlação entre a realização de testes à covid-19 e a mortalidade causada pela doença. Por outras palavras, fazer menos testes não traz, como consequência, mais mortes; fazer mais testes não significa que se venha a ter menos mortes. Ou seja, uma estratégia assente numa testagem maciça, em si mesma, não contribui para o sucesso na luta contra a pandemia; é apenas – e assim deveria ter sido sempre visto – como um complemento para confirmação clínica de uma doença.

Essa conclusão retira-se, até facilmente, quando se analisa os países que mais testaram desde o início da pandemia. É certo que a Dinamarca – que, em média, já testou mais de duas vezes todos os seus cidadãos (2,17 testes por habitante) – e o Chipre são dois países com uma estratégia intensiva de testagem e apresentam baixos valores de mortalidade, respectivamente 399 e 186 óbitos por milhão de habitantes. Porém, estes casos estão longe de ser a regra. Pelo contrário, são a excepção. Por exemplo, no lote dos 10 países mundiais (com mais de um milhão de habitantes) que registam maior mortalidade relativa (Bélgica, Eslovénia, Reino Unido, República Checa, Itália, Portugal, Bósnia, Estados Unidos, Macedónia do Norte e Hungria), encontram-se vários que testam bastante. O Reino Unido, que ocupa a terceira posição em mortalidade (1.735 óbitos por milhão) é também o terceiro, no grupo em análise, e com grande distância, que mais testou desde o início da pandemia (até 14 de Fevereiro). Com efeito, é dos poucos países europeus com um número de testes que já supera o número de habitantes, apresentando agora um rácio de 1,2. Outro caso de muitos testes, muitos mortos são os Estados Unidos, que ocupam o oitavo lugar na mortalidade relativa no Mundo, tendo já, virtualmente, testado toda a população, uma vez que apresentam um rácio de quase 1,02 milhões de testes por milhão de habitantes. Por sua vez, Portugal também apresenta um rácio bastante elevado de testes, mas sem consequências directas na mortalidade: é o sexto país com maior mortalidade relativa (1.538 óbitos por milhão de habitantes) e também o sexto do grupo em análise em termos de testagem (quase 774 mil testes por milhão de habitantes). 

No entanto, convém referir que no lote dos 10 países com pior desempenho na luta contra a pandemia encontram-se a Eslovénia, a Bósnia, a Macedónia do Norte e a Hungria, que apresentam um rácio de testes bastante mais baixo, entre os 196 e os 418 mil testes por milhão de habitantes. Aliás, como é óbvio, fazer poucos testes também não é um “passaporte” para uma mortalidade baixa. No grupo de países analisados, o México é o país que menos testou (apenas cerca de 39 mil testes por milhão de habitantes), sendo actualmente o 13º país com maior mortalidade relativa. Igualmente, o Brasil tem seguido uma estratégia de testagem moderada (134 mil testes por milhão de habitantes), ocupando a 22ª posição na mortalidade relativa, portanto já muito atrás de Portugal.

No gráfico que se apresenta torna-se mais evidente a ausência de correlação entre testes e mortalidade. Por exemplo, no grupo de 12 países (onde se inclui Portugal) que têm um rácio de testes entre 600 mil e 800 mil testes por milhão, a mortalidade relativa vai desde os 111 óbitos por milhão da Noruega (excluindo a pequena Islândia, o país europeu com melhor desempenho na luta contra a pandemia) até aos 1.872 óbitos por milhão de habitantes da Bélgica (o pior país do Mundo). Neste lote estão quatro dos seis piores países do Mundo: Bélgica, República Checa, Itália e Portugal).

Sendo certo que não existe nenhum país que tenha conseguido, até agora, estar abaixo dos 400 óbitos por milhão de habitantes sem ter realizado mais de 450 mil testes por milhão de habitantes, não existe qualquer evidência que o rácio de testagem esteja correlacionado com a baixa mortalidade causada pela covid-19. Se assim fosse, a Dinamarca – com um rácio de testes quase quatro vezes superior à Noruega – deveria ter muito menos mortes do que esse outro país escandinavo. No entanto, ao invés, a Noruega teve, até agora, muito menos óbitos por covid-19 do que a Dinamarca: apenas 111 óbitos por milhão contra 399.

De igual modo, noutro nível, países com mortalidade relativa muito mais elevada não mostram que a variável “testes por milhão” seja determinante. Por exemplo, nos países com mortalidade relativa entre os 1.400 e os 1.600 óbitos por milhão de habitantes encontram-se rácios de testagem que variam entre os 196 mil (Bósnia) e os 1,02 milhões de testes por milhão de habitantes. Em suma, os diferentes níveis de desempenho (ao nível da mortalidade) mostram-se manifestamente independentes da estratégia de testagem.

Situação em Junho de 2020 (Vieira, 2020)

Esta evidência não se mostra somente com a segunda vaga da pandemia, que atingiu também os países do Leste da Europa, que tinham sido poupados na primeira fase (Primavera de 2020), nem parece ter-se alterado face ao crescimento maciço de testes nos últimos meses. Com efeito, em Junho do ano passado – quando os rácios de testes e as mortes por covid-19 eram, na maior parte dos países europeus, muito mais baixos –, também inexistia qualquer correlação. Por exemplo, nessa altura Portugal apresentava um rácio de testes semelhante à Espanha, e até bem superior à Bélgica, Reino Unido, Espanha e Itália, tendo uma mortalidade muito inferior, mas fazia muito mais testes do que a Alemanha, Estónia, Letónia e muitos países de Leste que então apresentavam muito baixa mortalidade.

Esta questão mostra, enfim, que, em si mesma, a simples decisão política de fazer mais testes ou menos testes (PCR ou antigénio), muitas vezes ao simples sabor da opinião pública ou de peritos, ou ainda de factores conjunturais, pode não ser a melhor estratégia. Mais do que “testar, testar, testar” deve-se sim ponderar quais os objectivos dos testes. 

Na verdade, além de servirem como complemento para uma confirmação clínica de pessoas suspeitas, os testes deveriam também ser usados para, em grupos específicos pré-determinados, aferir ao longo do tempo o nível de infecciosidade num determinado país, região ou mesmo grupo etário. Os testes servem não apenas propósitos clínicos mas também epidemiológicos, e daí nem ser conveniente estar sempre a alterar-se metodologias de testagem. 

Em suma, os testes são um enorme auxílio como complemento de avaliação clínica, e também como método de despistagem e de detecção de surtos, mas a “obsessão” na testagem (sempre no sentido de se fazer cada vez em maior número) para se encontrar assintomáticos a todo o custo, traz, contudo, dois grandes efeitos negativos: por um lado, acarreta a necessidade de enormes investimentos logísticos e a um preço muito elevado – que poderiam e deveriam ser canalizados para acções mais práticas e eficazes –; por outro lado, a realização de testes em massa tem efeitos psicológicos nada negligenciáveis, dando sempre a ideia – sobretudo quando há uma decisão política em aumentar a testagem – de se estar perante uma situação descontrolada. Em conclusão, quando usados critério, os testes são bastante úteis, mas nunca podem ser vistos, e usados, como a “arma secreta” de combate à pandemia. Mais do que “testar, testar, testar”, deveria seguir-se o lema de “testar com critério, testar bem, testar com rigor”.

Nota: Na análise, quando se faz referência aos países assume-se sempre, quando não explicitamente referido o contrário, aqueles que têm mais de um milhão de habitantes.

Fonte: Worldometers (dados até 14 de Fevereiro de 2021) e Vieira, Pedro Almeida (2020). A pandemia da covid-19 em Portugal: uma radiografia estatística e analítica. UC de Indicadores e Estatísticas em políticas Públicas, Lisboa: ISCTE.

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