Tiago Franco | Engenheiro de Software (Volvo Cars, Suécia)

Uma página com milhares de seguidores, e cuja existência desconhecia até há pouco, divulga “ciência baseada em evidências”. Como gosto de aprender – e, tal como os demais, procuro perceber o que me está a acontecer com esta pandemia –, passei pela dita.

Sendo um simples engenheiro, sem qualquer conhecimento médico (ou como diz um antigo colega, incapaz de perceber um gráfico), não consigo discutir se o que lá se escreve está correcto ou não. Parto do princípio que sim. Parto sempre do princípio de que quem se dedica a escrever, a estudar e a fazer opinião, não o faz com o intuito de desinformar. Aliás, acredito mais no erro ocasional (raramente assumido) do que na manifesta vontade de desinformar.

Ainda assim, como não gosto da forma como é passada a mensagem, da constante arrogância com que se faz a troca de ideias ou até do insulto generalizado como narrativa, não consegui por ali ficar mais do que cinco minutos. Mas respeito quem se reveja nessa forma de debate que, assumidamente, não é a minha.

Dito isto, vi por lá um texto que me chamou a atenção porque referia a posição sueca sobre as escolas, um estudo americano com conclusões sobre as mortes e uma nota de autor que acrescentava: “(…) e assim a Suécia nos ajuda a destruir mais um mito de que ‘as escolas não são um problema’. Obrigado, Suécia!”

Curiosamente o último “Obrigado Suécia” que ouvi em público foi do “jornalista pela verdade” num comício ali para os lados do Rossio. Mas adiante.

Para sustentar esta afirmação apresentava-se nesse mural do FB um estudo feito nos Estados Unidos, entre Março e Junho de 2020, onde se pode ver que as mortes baixaram depois das escolas fecharem (na altura apenas para os maiores de 16 anos).

Ora, longe de mim querer contrariar estudos seja de quem for porque, como diria a minha avó, não tenho sequer estudos para isso.

Mas há dois detalhes que não compreendo, hoje e desde sempre, nestas histórias repetidas da Suécia. Se 199 países fizerem A e apenas um escolher B, porque ficam os 199 preocupados com o caso isolado? Não deveriam as maiorias sustentarem-se por si só? 

Perguntando de outra forma, se a “Suécia” desta pandemia fosse o Laos, não havia tanto burburinho, pois não? Agora com louros e civilizados nesta embrulhada, a malta fica a pensar “o que é que os gajos sabem que não contaram?”. Não sei, estou só a especular de onde vem o insistente interesse no caso isolado e a constante necessidade de o converter. Ainda por cima, o modelo para as escolas nem é exclusivo da Suécia (voltarei a este tema outro dia).

O outro detalhe que me escapa neste estudo que relaciona fecho de escolas com mortes, é o tempo em que foi feito. Entre Março e Junho de 2020, a Suécia viveu o “pós-Natal” português de 2021. Ali entre Março e Abril, se a memória não me atraiçoa, rebentou a monumental barraca nos lares e hoje sabemos que 75% dos mortos na Suécia chegaram daí (e da assistência em casa). Foi também nessa altura que proibiram as visitas e que pediram à população que não tivessem contacto com a mormor (avó, em sueco) e o farfar (avô, em sueco) – nomes a que sempre achei piada, mas que me obrigam a pensar para saber quem é quem; um aparte para isto não ser só “ciência com base em cenas”.

Portanto, é relativamente fácil compreender porque baixaram as mortes até Junho. E, neste caso, não é muito diferente do que se passa hoje em Portugal. Relacionar com o fecho das escolas é que me parece mais difícil. Mas uma vez mais, eu não sou grande coisa com gráficos, Excel e Matlab.

Há ainda um pormenor que me parece relevante e que, por mera curiosidade, partilho aqui. É que não é necessário ir ler estudos sobre o que os outros acham da Suécia, quando as próprias autoridades suecas, em regime aberto e quase ingénuo, partilham toda e qualquer informação ou estudo relevante para que se perceba o porquê das decisões.

E mais: fazem isso sempre em duas línguas, para que nada se perca nas traduções, como naquele filme que a Scarlett Johansson fez antes de se converter em russa e amiga do Hulk. O da Marvel, não o da Paraíba.

Assim, pegue-se num relatório de Novembro de 2020 do Folkhälsomyndigheten (Agência sueca de Saúde Pública), intitulado “Covid-19 in children and adolescents”, e salte-se para a página 21.

Aqui podem ler algumas conclusões interessantes. Desde logo que a escola continua a ser considerada como um sítio de risco baixo para a propagação da doença entre crianças, e que os casos detectados (outbreak) vieram maioritariamente de actividades conjuntas fora da escola. Isso justifica, por exemplo, porque a Agência sueca de Saúde Pública interrompeu as competições de desportos colectivos nos escalões de formação.

Também podem ler que as escolas, obviamente, e por serem um local de trabalho, trouxeram contágio a adultos (professores) e, por isso, foram tomadas medidas para flexibilizar o seu funcionamento. Os alunos mais velhos passaram a ensino remoto, os pais foram proibidos de entrar nas instalações, algumas aulas fizeram-se em espaços maiores e/ou ao ar livre, e os horários foram alterados para evitar muitas pessoas no mesmo sítio e ao mesmo tempo.

Além de explicarem a importância da escola aberta e chamarem os “teenagers” para que assumam a sua responsabilidade nos tempos que se seguem, o estudo termina com a seguinte conclusão onde:

“O encerramento das escolas pode ter afetado negativamente crianças e adolescentes. Por um lado, houve perda de aprendizagem e, por outro lado, a saúde mental pode ter sido negativamente afetada. As consequências negativas também podem atingir maior importância naqueles que já estão em risco, como crianças com deficiência, crianças com doenças subjacentes, crianças em grupos socioeconómicos desfavorecidos e crianças em situação de vulnerabilidade social e pobreza. À luz dos conhecimentos actuais, e numa situação em que a pandemia está longe de terminar, é importante tomar medidas que permitam que as crianças e adolescentes continuem, tanto quanto possível, a frequentar a pré-escola e a escola. A conclusão da educação é factor importante para a saúde, e é essencial encontrar um equilíbrio entre as necessidades das crianças e adolescentes, e o seu direito à educação, e as medidas adoptadas para controlo de doenças. Para os adolescentes é importante refletir sobre o que é necessário para reduzir o risco de propagação do vírus, mesmo que não haja sintomas graves. Portanto, é necessário um lembrete sobre o conselho geral e a responsabilidade de todos, incluindo adolescentes, para conter a propagação da infecção.”

Portanto, saliento, para além de não conseguirem encontrar uma ligação entre a escola e as mortes – e cinco meses depois de concluído o tal estudo nos Estados Unidos – as autoridades de Saúde da Suécia voltam a insistir que as escolas devem manter-se abertas. Com limitações, horários flexíveis e alguns alunos à distância. Mas em funcionamento.

A Suécia não tem tomado decisões às cegas. A sua Agência de Saúde pública sabe exactamente de onde chegou cada morto, e, por isso, tem dificuldade, na maioria dos casos, em relacionar esses óbitos com o horário escolar. Cerca de 25% da população sueca são crianças e, até à data do estudo, apenas havia a lamentar duas mortes nessa faixa etária.

O mesmo documento diz também que entre Março e Maio de 2020 – o mesmo período do estudo realizado nos Estados Unidos – não foram detectados aumentos consideráveis de infecções entre os profissionais da educação, quando comparados com outros grupos de actividade (vd. pg. 13). Portanto, é relativamente difícil associar as mortes, sabendo onde ocorreram, às infecções nas escolas e ao respectivo encerramento. São peças que continuam a não encaixar.

Deduzo que seja por este tipo de análise, apresentada neste documento pela DGS cá do sítio, que os especialistas começam as conferências de imprensa com um habitual “com as evidências que temos hoje, optamos por fazer X”.

O problema parece estar, contudo, na multiplicação de evidências. Como naquela história dos pães – dizem-me, que eu nem baptizado sou.

Se esta análise fosse feita por um economista, imagino, dir-nos-ia ele que os títulos das acções para “evidências” estariam, na bolsa de valores, a ser revistos em alta. Já Vasco Santana afirmaria apenas que “evidências há muitas”. Eu arrisco apenas, perante estas evidências, um: “Obrigado, Suécia!”.

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