Tiago Franco | Engenheiro de Software (Volvo Cars, Suécia)

Damos voltas e mais voltas na maionese, e não há maneira de sairmos disto.

Eu compreendo a dificuldade de se cruzarem fontes, e entendo, dada a miséria que pagam a um jornalista, a falta de tempo e a necessidade de contribuir para os “teras” de informação que circulam diariamente na internet, que não dê para mais. Produz-se opinião sem sair da redação e sem ouvir ninguém, e, por regra, toma-se como facto aquilo que outro jornal já disse que era um facto.

Não há tempo. Não há dinheiro. Entendo. Mas pode haver mais algum rigor, à distância do mesmo “clique”.

A Visão, revista que cresci a gostar, publica pela pena de um jornalista estagiário um artigo intitulado “O que explica a aversão ao uso de máscara na Suécia?

Ali se tenta explicar a aversão dos suecos às máscaras, e relata-se dois casos de abuso de poder onde, erradamente, as autoridades locais (das comunas) exigiram o que não deveriam exigir. Qualquer pessoa de bom senso percebe que não faz sentido pedir a alguém que não use uma máscara. Primeiro, porque não é lei; segundo, porque não há qualquer recomendação para que não se use.

E tanto assim foi que, pouco tempo depois, a comuna de Halmstad retirou essa proibição, que iniciara por conta própria. A notícia está aqui, mas enfim, já não faz parte do artigo da Visão.

Convém salientar que a comuna de Halmstad tem uma maioria de direita, que ronda os 55%. Só o Chega cá da terra tem quase 14% dos assentos. Pode ser coincidência ou não, é irrelevante para o caso, mas o que importa referir é que idiotas existem em todo o lado. E uma decisão de uma comuna, que depois foi revogada (mostrando que o bom senso impera), não representa certamente um país. E, mais do que isso, não representa a lista de recomendações de acesso público que todos podem ver, incluindo jornalistas estagiários da Visão.

E por isso, frases como “Foi apenas a meio de dezembro, depois de vários meses de desvalorização deste tipo de proteção, que as autoridades suecas impuseram o uso obrigatório de máscaras em transportes públicos” não deveriam ser escritas. Desde logo porque a própria Visão “linka” esta afirmação para uma notícia da France24 (ver aqui), onde tão-só se lê “recommending they be worn on public transport at peak times”. Ora, recomendar não é impor. Além disso, é uma recomendação apenas nas horas de ponta (“peak times”).

E no caso de dúvida, é passar no site da DGS local, aberto 24 horas por dia (ver aqui), onde se pode ler, com ou sem ajuda do Google Tradutor, a palavra “rekommenderas”. E só pelo som cheira-nos logo que não estão a obrigar a seja o que for.

O mesmo artigo da Visão atribui ainda Anders Tegnell, epidemiologista-chefe da Suécia, a afirmação de que o sistema de saúde está perto do seu limite. Procurei em mais do que uma língua e o máximo que encontrei foram umas declarações de Janeiro passado onde Tegnell dizia que os cuidados intensivos teriam, nessa altura, cerca de 20% de camas disponíveis. Não percebo se é essa a definição de “limite”.

É também dito no texto que as autoridades suecas desprezaram as máscaras durante muito tempo, quando, na verdade, o que foi repetido até à exaustão é que não havia evidência sobre as vantagens da máscara, e que para isso bastava ver os casos nos países que as impuseram desde o início (isto, sim, foram as palavras do Tegnell). E ele também disse que, no momento em que as evidências provassem o contrário, pois assim adoptariam as máscaras de imediato, mas adiantava ainda que, até ver, consideravam que o distanciamento era mais eficiente.

O mesmo Tegnell repetiu, já em 2021, um ano depois de andar a virar frangos, que continua a achar o confinamento ineficaz, que a subida de casos nesta altura é normal pelas características do inverno, e que, para evitar maior pressão nos hospitais, continua a ser essencial que a população faca a sua parte. Ah, e informou também que cerca de 75% dos utentes/funcionários dos lares já foram vacinados.

Repito o que venho dizendo desde Abril de 2020: certo ou errado, o homem fala, explica os porquês, o Folkhalsomyndigheten (a DGS sueca) publica as regras, as recomendações e os estudos, e qualquer um os pode ler.

Opiniões todos teremos, e um dia destes uma simpática leitora, depois de me chamar atrasado mental, disse que o Tegnell deveria ser julgado por crimes contra a Humanidade. Portanto, o céu será o limite para opinarmos sobre este homem. E tudo bem, o direito à opinião é uma das vantagens da Democracia.

Ainda assim, quando queremos relatar factos, quão difícil pode ser reproduzir ou constatar o que o homem mais escrutinado de 2020 disse ou fez? Basta uma cadeira numa redação, uma tranquila lista de Spotify com bossa nova, um modem de 56 kbps e talvez 10 minutos de leitura. E voilà, informação certa, credível e ainda assim, polémica que chegue para a gritarmos um bocadinho nas redes.

P.S. – Este texto não visa, em momento algum, o jornalista estagiário da Visão, que, entre outras coisas, está naquilo a que eu chamaria “cadeira de sonho”.

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