Gabriela Ruivo Trindade | Escritora

O sol continua lá. As árvores, os pássaros. Tudo no mesmo sítio. Ainda olhamos o céu em busca de sinais. E evitamos os abismos da alma por os sabermos sem fundo. Onde podemos enterrar o medo, se nem carregá-lo nas mãos? Vivemos um dia a seguir ao outro. Continuamos a trabalhar, a lavar a cara de manhã. Há vozes que nos chegam e preferimos ignorar. De longe. Precisamos de nos concentrar no ruído. O silêncio traz pressentimentos fúnebres. Os cortejos de camiões militares carregando corpos. Como poderemos ser os mesmos depois disto? E agora, aqui? 

Nada mudou à nossa volta, as nuvens continuam a pairar. Chove. Sentimos frio. Ainda respiramos. Transplantamos a vida para dentro de quatro paredes, como se fosse possível. Dizemos às crianças que está tudo bem. Que vai ficar tudo bem. Dizemos a nós mesmos. Voltamos à infância, ao reino do absurdo, onde todos podemos ser reis, e princesas. Cremos ingenuamente naquilo que repetimos constantemente, em surdina, como uma prece. Sem palavras. Uma espécie de ruído branco que nos acompanha, um monólogo que entra pelos sonhos e nos tinge os pesadelos de presságios. 

Não queremos pensar na morte. Como se pensa na morte? Na própria morte? Na daqueles que amamos? E no entanto, não há pensamento que não passe por ela, que não se estanque nela, que não acabe nela. A morte omnipresente. Pessoas morrendo em casa sozinhas. Nos hospitais, sozinhas. Rodeadas de máquinas e pessoal médico que não tem tempo para estar, apenas para funcionar como uma máquina. E muitos deles sucumbindo. Falhando, como as máquinas. Perecendo como gente, já no lugar de doentes, deixando vago o lugar para outra máquina de assistência. Uma máquina humana que se emociona, mas que está programada para lutar até ao fim. Pela vida de todos nós. Uma máquina altruísta com o coração do tamanho dessa pandemia. Maior do que essa pandemia, do que o próprio universo. 

Tantos humanos que nos salvam com a força e a determinação das máquinas, e que damos graças por serem de carne e osso e falharem, porque não suportaríamos que fosse de outra forma. Que a morte não nos pudesse abraçar. Porque isso quereria dizer que já estamos mortos, há muito, sem o suspeitarmos. Ninguém quer pensar na morte, mas não consegue deixar de o fazer. Sem pensar, porque não se pensa na morte. Ouve-se falar. Fulano não resistiu e atirou-se para baixo do comboio. O número de suicídios disparou, mas não pode ser notícia, porque o desespero também se contagia. Assim como o medo. 

Há casas onde a solidão escavou um fosso intransponível. Outras onde a violência diária se reproduz com a virulência da peste. Nem todas as casas podem ser refúgios. Nalgumas, a morte chega mais depressa. Aquelas almas abençoadas para quem a casa é um ninho, nem desconfiam. Delas não testemunham a guerra. As trincheiras foram escavadas fora do perímetro de segurança e nos hospitais. Das janelas o mundo parece normal. O sol ainda lá está. E lá ficará depois de tudo deixar de parecer normal. 

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