Durante meses foi um tabu – susceptível de banimento das redes sociais e da imprensa – comparar as pneumonias (e gripe) com a covid-19. Querer fazer esse exercício era “prova” de se ser negacionista. Contudo, o Centres for Disease Control and Prevention – a conceituada agência norte-americana de Saúde Pública – nunca teve pejo de divulgar publicamente dados que permitem comparar os efeitos da pandemia, integrando a covid-19 em outras infecções respiratórias. Os dados mais recentes (até 17 de Fevereiro) confirmam que, nos Estados Unidos, a nova doença tem sido bastante mortífera na população idosa, e que, por outro lado, as doenças infecciosas estão a matar bastante. Mas também revelam que a pandemia não tem tido impacte negativo relevante nas crianças e nos jovens. Na verdade, para estas faixas etárias, as pneumonias têm matado muito mais.

Pedro Almeida Vieira

A covid-19 nos Estados Unidos está a ser menos letal do que as pneumonias para a população com menos de 35 anos, de acordo com dados do Centres for Disease Control and Prevention (CDC), a agência norte-americana dedicada à Saúde Pública. Apesar de não existirem dados similares disponíveis em Portugal – por recusa da Direcção-Geral de Saúde em divulgar dados discriminados constantes do Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO) – e não ser correcto extrapolações directas a partir dos Estados Unidos, uma análise aos dados do CDC permite reforçar uma ideia básica negada por muitos sectores: a covid-19 é de perigosidade praticamente nula para a população jovem, e fica mesmo atrás das pneumonias. 

Nos dados publicados regularmente por esta entidade sediada em Atlanta, os efeitos da pandemia são enquadrados num contexto de outras infecções respiratórias, e nessa linha os óbitos causados pelo SARS-CoV-2 (código U07.1, da OMS) são confrontados com as mortes atribuídas directamente às pneumonias (códigos J12.0-J18.9) e às gripes (códigos J09-J11). Uma vez que o CDC considera que a covid-19 pode ser uma doença presente mas não determinante para a morte, a sua mais recente actualização detalhada (17 de Fevereiro) mostra números de óbitos atribuídos à covid-19 afinal mais baixos do que aqueles que relata provisoriamente, e usados pela generalidade dos sites dedicados ao acompanhamento da pandemia a nível mundial. Por exemplo, o Worldometers – um dos sites mais populares nesta matéria – apontava um total de 505.316 óbitos por covid-19 até 17 de Fevereiro, enquanto o CDC, na sua base de dados discriminada, indica 460.234, isto é, cerca de 45 mil óbitos a menos. 

A discrepância dever-se-á ao facto de o CDC considerar que o SARS-CoV-2 nem sempre constitui a causa directa da morte. Com efeito, nos dados desta entidade encontram-se contabilizados 219.024 óbitos com co-infecção pelo novo coronavírus e por vírus ou bactérias causadoras de pneumonia, e mesmo por gripe (que causam poucas mortes directamente), mas nem todas essas mortes acabam atribuídas à covid-19 – como sucede em Portugal e em muitos outros países. Saliente-se que os Estados Unidos é um dos poucos países que, de forma aberta e transparente, assumiu desde cedo que a covid-19, apesar de doença nova, deveria ser enquadrada num contexto de infecção respiratória, e comparada directamente com as pneumonias e as gripes. Aliás, em vários relatórios desta agência (vd. aqui), as três doenças são agrupadas numa única classe denominada PIC (pneumonia, influenza e covid-19), de modo a comparar os efeitos acrescidos da actual pandemia face aos surtos gripais do passado.

De entre a profusão de informação disponibilizada publicamente pelo CDC – com um detalhe e actualidade jamais visto em Portugal –, confirmam-se alguns aspectos negados por aqueles que consideram que a perigosidade da covid-19 pende quase por igual em toda a população. Com efeito, mesmo se as pneumonias, em si mesmas, matam pouco em idades mais jovens, a sua perigosidade é maior do que a covid-19 até ao grupo etário dos 25-34 anos, embora com diferenças em função do sexo: no caso dos homens, há menos mortes por covid-19 do que de pneumonia apenas até aos menores de 25 anos, enquanto nas mulheres as mortes pela nova doença apenas suplantam as da pneumonia a partir dos 45 anos.

No entanto, o número de óbitos nos Estados Unidos desde o início da pandemia é extremamente baixo até aos 55 anos, tanto pelas pneumonias como pela covid-19, embora com a primeira acima da segunda. No caso das crianças, adolescentes e jovens adultos estas doenças, como causa de morte, chegam a não ter expressão estatística. Por exemplo, nos menores de 1 ano – que englobam quase 3 milhões de norte-americanos – a covid-19 apenas provocou 45 mortes. O valor absoluto pode até parecer elevado, mas na verdade corresponde a uma morte dos cerca de 90 mil bebés que nascem por ano em Portugal. Esse número de mortes por covid-19 em recém-nascidos nos Estados Unidos contrasta com os 218 óbitos por pneumonias desde o início da pandemia. Ou seja, as pneumonias, nesta faixa etária mataram quase cinco vezes mais. Saliente-se que em Portugal, durante o ano de 2018 – o último constante na Plataforma da Mortalidade – morreram cinco crianças de menos de 1 ano com pneumonia. Desde o início da pandemia, a covid-19 vitimou dois bebés de meses, não tendo ainda vitimado qualquer criança.  

Se se avançar para o grupo etário dos 1-4 anos, nos Estados Unidos as taxas de mortalidade por covid-19 e por pneumonias ainda são mais baixas do que para os bebés, mas a relação de maior perigosidade da nova doença mantém-se. O CDC contabilizou já 23 óbitos nesta faixa etária (taxa de mortalidade de apenas 0,001‰) contra 124 mortes por pneumonias (taxa de mortalidade de 0,008‰). Ou seja, apesar de em ambos os casos os valores serem relativamente muito baixos, a pneumonia matou também cinco vezes mais. Nos grupos etários seguintes, essa relação de perigosidade vai-se esbatendo: entre os 5 e os 14 anos, as pneumonias ainda mataram 2,4 vezes mais do que a covid-19, entre os 15 e os 24 anos já só mais 23% e entre os 25 e os 34 anos os valores são muito semelhantes (pneumonias apenas com uma taxa de mortalidade de 2% acima da covid-19). No entanto, como referido, no caso das mulheres a inversão da perigosidade é mais tardia, apenas se observando a partir dos 45 anos. Com efeito, no grupo etários dos 35-44 anos, o CDC reporta até agora 7.077 óbitos por pneumonias contra 7.063 mortes por covid-19.

Somente a partir dos 50 anos a covid-19 assume claramente uma maior perigosidade em comparação com a pneumonia, mas nunca em valores muitos elevados. Apenas para o grupo etário dos maiores de 85 anos a covid-19 se destaca, tendo causado 25% mais mortes do que as pneumonias. 

Em todo o caso, esta situação não menoriza o impacte da nova doença na mortalidade nos Estados Unidos, pelo contrário. Embora as metodologias na atribuição da causa final das mortes pareçam agora bastante distintas do passado (e algo controversas), mesmo os óbitos agora atribuídos às pneumonias mostram-se anormalmente elevados. Por exemplo, de acordo com os dados finais da mortalidade nos Estados Unidos em 2018 – recentemente divulgados pelo CDC –, as pneumonias e gripes provocaram naquele ano 59.120 óbitos, representando apenas 2,08% do total das mortes. Ora, desde o início da pandemia, de acordo com o CDC, a covid-19 contribuiu para 12,6% do total das mortes desde Março de 2020, enquanto as pneumonias corresponderam a 11,0%. 

Em todo o caso, neste panorama aparentemente desolador, mais uma vez se releva que são os grupos dos idosos os mais afectados. A taxa de mortalidade por covid-19 e por pneumonias apenas ultrapassa os 1‰ a partir dos 55 anos, sendo que apresenta um valor muito elevado a partir dos 75 anos e muitíssimo elevado nos maiores de 85 anos. Mas no caso das crianças, adolescentes e até jovens adultos, tem de se colocar duas ou três casas decimais nas unidades habituais da taxa de mortalidade (permilagem) para se notar alguma coisa. 

Fonte principal: CDC

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