Lúcia da Cruz – Consultora

“Mas porque é que esta casa aos sábados parece sempre um pandemónio?”

Em miúda, as manhãs de sábado eram dedicadas a limpezas, e com uma energia que punha todos a “toque de caixa”. A minha mãe, a melhor dona de casa ao cimo da Terra, apoderava-se dos instrumentos de limpeza, mas também da nossa existência, durante aquelas três horas em que o brilho e brancura eram o único propósito. Irritada por ter de fazer aquilo – que fazia bem, mas odiava –, lançava farpas para o ar, e elas podiam cair onde quer que fosse, mesmo no nosso peito ou coração; era-lhe indiferente, precisavam de ser lançadas, senão entupia-a na sua própria fúria. O meu pai, militar de carreira, habituado a dar ordens, assumia ali um papel submisso, de aspirador na mão, com critérios de perfeição, garantindo que todos os cantos, reentrâncias e socalcos ficavam impecavelmente limpos. Era estranho ver o “Meu” Capitão, depois “Meu” Major e todos as outras patentes que conduziu na sua brilhante carreira, ficar ali, ouvinte e zeloso cumpridor de ordens com as quais talvez nem concordasse. Eu e a minha irmã Rita esquivávamo-nos por entre a submissão do meu pai e a irritação da minha mãe. Não falávamos, tentávamos ficar o mais quietas possível para que nada sobrasse para nós. Verdade se diga, o nosso interesse nas tarefas domésticas era nulo, a vontade de aprender inexistente. Só queríamos que aquelas horas passassem, que o pandemónio instalado se diluísse nos detergentes, que elevariam a nossa casa ao lar mais confortável de Lisboa, para que pudéssemos voltar a ser uma família normal.

Eram apenas três horas por semana.

Agora, o pandemónio cresceu. Espalhou-se. Entranhou-se. Reside no meu país, sem hora marcada para terminar. E não será daqui a três horas. E não dá a garantia de que, depois, ficará tudo brilhante e limpo.

Os velhos, que sempre viveram abandonados, e a quem nunca se ligou nenhuma, morrem como pássaros doidos em fim de história. Uma história em que não houve fada alguma que os conseguisse proteger. Aqueles que não morrem estão sós, tristes, entregues a um isolamento bem pior. A ausência negra e funda. De tudo e dos seus. Fins que corroem a alma e são bem mais frios que a morte. Tenho a certeza.

Os hospitais rebentam, com falta de gente para proteger seja quem for, porque, durante anos, ninguém valorizou ninguém, ninguém planeou, ninguém pensou. Tudo se centrou na soberba de uma conquista, que foi maior que a vida antes de Abril, esquecendo-se de ser preciso alimentá-la para que não fique ainda mais pequena que a morte. E a culpa é minha porque não abri uma janela para não o deixar entrar (ou será sair?).

As escolas que fecham, mas não eram para fechar. As crianças que não brincam, que não aprendem, que não convivem, que não veem os seus mundos confrontados com sorrisos, com alarido, com exercício, com raspanetes e castigos, com festas e decisões, opções, escolhas. Algumas têm um ecrã à frente; outras procuram redes no cimo dos montes para uma melhor ligação, ou vão ajudar os pais, que o ecrã não chegou para elas; e outras, ainda, estão resguardadas nas famílias que nunca as quiseram, ou que sempre as viram como empecilhos que nunca deviam ter aparecido. Os adolescentes que não convivem, não discutem, não namoram com alguém diferente, não festejam as vitórias, não fazem “urras” às conquistas, perdem anos que já não voltam. Em nome de uma culpa que só eles têm. Porque se andaram a portar mal o tempo todo. A infetarem-se e a infetarem todas as pessoas que amam.

Os pais, muitos, continuam a trabalhar sem saber se amanhã vão ter comida no frigorífico; outros, os felizardos, trabalham quentinhos e confortados, mas com as crianças ao colo e com a cabeça a pirar sem que tenham tempo para lhe dar atenção. À cabeça, claro. Ah, sim, e aos filhos também.

A esperança em forma de seringa chega tarde e a más horas, pica quem não é suposto picar, e deixa de fora, bem visível, o egoísmo e o pior que a humanidade tem. E a culpa é minha, que não fiquei em casa.

A polícia não sabe as regras. Pedem-lhe para vigiar o que não entende, é-lhe dito para exercer autoridade sem clareza, sem critério, sem lógica. E resolve-se incitar à denúncia uns dos outros, em nome de um bem maior, não sendo linear todos saberem qual é. Mas a culpa é minha, que não percebi nada.

As acusações negras, os comentários ferozes, as agressividades animais que as redes sociais encerram, como se não fosse possível pensar diferente de forma adulta e consciente, produtiva e séria. A bastonária inapta. Os comentadores sobranceiros. Os ministros mentirosos.

Os jornalistas que falseiam, que moldam, que papagueiam, que não confirmam nada, não estudam, não analisam, não concluem com a integridade que prometeram, no compromisso com a verdade e apenas com a verdade. A exploração miserável da decadência dos outros em que os microfones se entrelaçam com os tubos dos ventiladores, ou os fios dos soros que alimentam quem teve o azar de ser apanhado nesta teia. A desgraça pela desgraça. A falta de respeito. A falta de pluralidade. De seriedade, mesmo quando são eles a denunciar a suposta corrupção vigente, seja a de agora ou as anteriores. E a culpa que é minha, que não usei máscara.

Os falsos confinamentos. Os negócios que arruínam famílias inteiras. Os grupos económicos que morrem para renascer um dia destes mais pujantes. Os passeios ridículos à volta do quarteirão, a fome que aumenta, o medo que domina, a subserviência que se diz ser resistência, os discursos moles e duros de quem não sabe fazê-los. Os médicos que se oferecem e não são aceites. Aqueloutros que fogem em plena guerra. As mortes que acontecem e que não podiam ter acontecido. A culpa que é minha, e só minha, porque não abri uma janela ou não usei uma máscara.

Os pobres cada vez mais pobres. A comida que falta. Os gritos que não se dão. A esperança que se foi. As fronteiras que se cortam. E a culpa que é minha.

A minha mãe sabia bem o que queria naquelas três horas ao sábado de manhã. E tudo ficava limpo e brilhante para sermos uma família normal outra vez. O pandemónio na minha casa, aos sábados de manhã era “para meninos”. Este é “para crescidos”. Ou supostos. O da minha mãe eu sabia onde, como e quando acabava. Este não sei. Até porque a culpa é minha. Só minha.

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