Tiago Franco | Engenheiro de Software (Volvo Cars, Suécia)

Durante dois dias foi possível fingir que 2019 estava de volta. Claro que as máquinas de gel a cada passo, a impossibilidade de nos sentarmos todos numa mesa ou o número limitado de pessoas nas pistas, lembravam-me que era apenas um intervalo numa realidade que já não consigo suportar. Ainda assim, foi bom apanhar ar, desligar do mundo virtual e por algumas horas sentir a adrenalina da velocidade em directo contacto com a natureza. 

Apesar de tudo, sinto-me um sortudo nesta pandemia. Todos os que contam para mim aguentaram-na com maior ou menor dificuldade e eu e a minha família, por arrasto das decisões do país onde vivemos, acabámos por estar isolados, mas nem por isso presos. É um detalhe que no meu caso, com assumida dificuldade em parar no mesmo sítio muito tempo, protege um pouco a sanidade mental e vai mantendo o cérebro ligado. Sem essa parte activa, diga-se, sirvo de muito pouco ao meu empregador e o risco de não ter condições para trabalhar é perfeitamente real. E daí chegariam os demais problemas associados, começando pelo normal e comum sustento de uma família.

Pior ainda, obviamente, para quem consegue aguentar a mente sã, mas, por consequência dos confinamentos prolongados, deixa de ter local de emprego e a aflição financeira passa a ser uma constante. É nessas histórias de desespero que penso quando lembro os repetidos estados de emergência e o que Garcia Pereira disse a seu propósito. São momentos de excepção, que devem ser usados como tal e não passarem a uma forma normal de fazer política e de governar.

Curiosamente, foi o mesmo que Johan Giesecke disse há cerca de um ano a propósito da banalização dos confinamentos. “Uma população que viva em democracia, farta-se”. Portanto, a esta distância temporal, posso afirmar que Tegnell e seus pares, que nunca me viram mais gordo, fizeram o favor de me ajudar a manter os neurónios que sobram mais ou menos em posição de servirem para algo mais do que receitas de bacalhau. O que só por si já seria um préstimo valioso, diga-se. 

Quando voltei a abrir as janelas do mundo virtual, ainda com o silêncio da montanha em pano de fundo, foi como se tivesse enfiado a cabeça numa betoneira com cimento e brita. O barulho das pedras no tambor, as voltas e mais voltas no espírito, a confusão no debate, a eterna mistura de bom senso com fanatismo. Fechei tudo rapidamente enquanto ainda tinha o som da lâmina do ski a trilhar a neve, o único que me interessava guardar para a noite de sono.

Nesses breves minutos li equívocos vários. De Mamadou a Marcelino, de Ventura ao Miguel Carvalho (Visão). Da demolição do Padrão dos Descobrimentos à poda dos brasões da Praça do Império. A queda dos casos/mortes de covid-19 um pouco por toda a Europa, com ou sem confinamento/escolas fechadas e um grupo, com as bandeiras em riste, afirmando que sem tais medidas em Portugal estaríamos todos mortos. O Chega, partido que não quer ser do “sistema” (é sempre bom lembrar), já notificou o PSD sobre as quatro pastas ministeriais que quer para viabilizar o futuro governo de direita. Salgado viu a sentença ser revertida por um tribunal de Santarém e voltou tranquilamente para a mansão em Cascais. Jesus continua a quebrar recordes negativos dando razão a Johan Cruyff quando afirmou: “nunca vi um saco de dinheiro a dar pontapés numa bola”. José Gomes Ferreira avisa o Mundo, em directo na SIC, que não se pode meter mais dinheiro na TAP.

Portugal tem mais ritmo que o John Travolta numa noite de sábado. Tenho algum receio de cortar o fio condutor durante uma semana e, no regresso, descobrir que chaimites com fachos invadiram a TVI no horário do Big Brother (para terem mais audiência), que o Ventura se auto-proclamou presidente do conselho de ministros, que a bastonária dos enfermeiros passou a ministra da Saúde e o Nuno Melo a alto-comissário dos refugiados. O meu pai na fronteira de Vilar Formoso a tentar dar o “salto” e o Observador como único jornal legalizado do país.

Ainda com a pureza da neve nos dedos, surgem 10 textos que pedem luvas e galochas. Ninguém entra no pântano de chinelos ou com a tranquilidade da montanha na mente.

Adenda – esqueci-me do irreal social e da meia tonelada de “farinha do Brasil” apanhada na fuselagem de um avião privado que seguiria para Portugal. Se Uderzo e Goscinny não tivessem escrito/desenhado bravos e originais gauleses, acabariam por retratar os irredutíveis lusitanos. Povo assim não se inventa.

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