José Rei Amorim | Pediatra

O recente aparecimento de uma petição pública no sentido de uma abertura célere das escolas é, em si, uma iniciativa positiva, pois nenhuma evidência científica parece sustentar o seu prolongado encerramento, e o prejuízo resultante desta situação é mais ou menos consensual! Porém, nas “concessões” de medidas complementares para tornar segura a sua abertura, há uma que me parece particularmente desnecessária e excessiva: a imposição do uso de máscaras a partir dos 6 anos em ambiente escolar!

Posso compreender que sendo a prioridade a abertura das escolas, se secundarize tudo o resto desde que tal permita o regresso a uma maior normalidade das vidas de mais de um milhão de crianças e jovens!

Contudo tal sugestão constitui um retrocesso em relação às medidas até agora aceites em Portugal (utilização de máscara só a partir dos 10 anos), e em contracorrente com o que é praticado em todo o mundo civilizado, não tendo qualquer evidência científica ou pragmática a sustentá-la!

Na maioria dos países nórdicos (Finlândia, Noruega, Suécia), a máscara nunca foi recomendada para crianças em quaisquer circunstâncias.

Noutro grupo de países, a máscara foi recomendada a partir de escalões etários diversos (Dinamarca, acima dos 15 anos; Irlanda a partir dos 13; Holanda, Suíça, Letónia, Bélgica acima dos 12; Alemanha a partir dos 10/11), mas nunca dentro da sala de aulas, e raramente nas atividades de exterior!

A recomendação oficial do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC, sigla em inglês), vai precisamente nesse sentido: “nas escolas primárias, o uso de máscaras é recomendado para professores e outros adultos quando o distanciamento físico não possa ser garantido, embora não seja recomendado para os alunos.” É a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) que reconhece que os professores em exercício têm uma taxa de incidência da virose sobreponível à da população geral!

O uso generalizado de máscara não assenta em nenhuma evidência consistente, traduzindo mais uma medida de carácter simbólico, do que de interesse sanitário! (vd. aqui)

Sendo difícil a realização de estudos comparativos aleatórios sobre a utilidade de utilização generalizada de máscara, podemos, contudo, analisar situações concretas de diferentes políticas em populações idênticas e tentar daí extrair ilações!

Os Estados da Califórnia e Flórida, tendo optado por políticas opostas no controlo da pandemia – o primeiro com medidas restritivas e uso generalizado de máscara; o segundo sem qualquer tipo de imposição desse tipo e o uso residual de máscaras –, apresentam resultados de incidência equivalentes! Mais impactante ainda é a situação da Dakota do Norte e Dakota do Sul que, com comportamentos completamente divergentes quanto ao uso de máscaras, mostram curvas de evolução pandémica absolutamente sobreponíveis!

Há ainda um aspeto muito relevante, geralmente menos abordado, sobre as consequências nefastas do uso de máscaras pelas crianças: trata-se do impacto, que se pode vir a revelar desastroso, ao nível da sua maturação emocional e do desenvolvimento equilibrado da sua personalidade! 

A formação das estruturas cerebrais que permitem o discernimento emocional e a capacidade de ter empatia pelos outros (a amígdala cerebral, a língula, os lóbulos pré-frontais), terminam o seu desenvolvimento por volta dos 5-6 anos, e a sua consolidação anatómica e funcional continua nos anos seguintes! Esse processo, resulta da interação com os outros, da necessidade de identificar as expressões faciais, de distinguir uma mímica de medo, de raiva, de carinho, de a associar ao tom de voz, à motricidade global! Sem este exercício continuado, corre-se o risco de virmos a ter uma geração com distúrbios de personalidade e de relacionamento, irreversíveis!

Nesse sentido, há recomendações de os professores, até ao fim do primeiro ciclo, caso necessitem de usar máscaras, optem por modelos transparentes, de modo que as expressões faciais sejam identificáveis!

Não havendo, pois, qualquer evidência de benefício do uso generalizado de máscaras, particularmente na população jovem – que, de forma comprovada não constitui um grupo importante na disseminação do novo coronavírus – não deverá ser imposta a utilização de máscara na população escolar em contexto de aula!

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