Raquel Ochoa | Escritora

O Sr. António desce a avenida com a sua cabeça cheia de pensamentos, em contraste com a dita, vazia, apenas dois tipos a correr, um para cima, outro para baixo, ambos com máscara e com aspecto de virem a morrer mais cedo do que ele.

Tem 89 anos, e ainda antes do Covil, como ele lhe chama, já lhe fora colocada uma anca postiça, sobra-lhe um rim apenas, sobreviveu a um cancro no intestino, já fez uma biópsia ao pulmão que os longos anos de fumador deixam suspeitas ao seu médico.

Leva a máscara no queixo e pasma-se como podem fazer jogging aqueles jovens, correndo com ar de heróis e, ao mesmo tempo, sôfregos de ar, tresloucados acelerando a corrida.

Isso lembra-o de alguém dizer que noutro dia viu correr um antigo gestor do BES, com o seu cão inglês, pela marginal da Expo. Vem-lhe à cabeça então o perdão fiscal de 54 milhões que o Estado fez aos ex-gestores do banco em Outubro passado, em pleno ano de Covil, no mesmo ano em que se reduziu os médicos e enfermeiros da frente de combate.

Falta meio termo, pensa…falta bom senso a este país, reflete… Isto é a galinha dos ovos de ouro de alguém, uns poucos, pondera…

O seu neto fez dois anos a semana passada. Não houve festa, e já não o vê há seis meses. Deve estar tão crescido. 

Quando falou com a filha, ela concentrou-se nas coisas boas, contou-lhe todos os progressos do neto, mandou mais de 100 fotografias, é de uma generosidade sem tamanho. Aliás, não ver o pai é para o proteger, sempre foi uma rapariga muito atenta. Contou-lhe da consulta dos dois anos no pediatra e ficou-lhe um pormenor, a pediatra disse-lhe que não se preocupasse com o atraso na fala do filho, “estão todos atrasados um ano, por causa do uso da máscara, como não vêem tanto os lábios, é normal…”.

E tudo é normal, os banqueiros e grandes gestores a correrem com os seus cãezinhos, se possível com patrulha policial, as crianças que não têm ambientes sociais saudáveis, os saudáveis fechados em casa como se fossem pestilentos.

Dois polícias aproximam-se com ar de reprovação. Ele põe a máscara para cima. Dizem bom dia e perguntam-lhe para onde vai, maquinais. Ele finge-se de tontinho, de surdo, e continua a caminhada sem lhes passar cartão. Eles, falta de hábito a tal reacção, paralisam, deixam-no afastar-se.

O mais novo sente o orgulho ferido, a autoridade golpeada. Chama o outro e alcançam facilmente o “velhote”. No entanto, quando recomeçam a conversa, azar do pobre rapaz fardado, dá-lhe um ataque de espirros e, apesar da boca tapada, faz disparar partículas à sua volta, inclusivamente para cima do Sr. António, cidadão ordeiro, com a inteligência de ficar calado perante o ataque fulminante de sinusite alheia. Imparável.

O ancião decide continuar a descer a avenida. Nem o polícia pediu desculpa nem se afastou quando disparava os seus segredos.

O Sr. António começa a trautear uma música. Acha tudo estranho, desajustado, bizarro. Ou então, pensa, é tudo normal no paraíso dos hipocondríacos.

Leia o CENTRO COMERCIAL LIBERDADE – Capítulo I

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