Gabriela Ruivo Trindade | Escritora

Hoje o sol brilha e está calor. Calor. O Tesco tem fila à porta, mas no parque de estacionamento, não. As toalhitas para limpar o varão do carrinho das compras esgotaram, parece, porque no seu lugar está um vaporizador e uns panos descartáveis. Será que não percebem que é a mesma coisa? Em vez de as pessoas apanharem o vírus no varão, vão apanhá-lo no frasco do vaporizador, a não ser que usem luvas. As medidas de segurança a relaxarem. Não estamos ao nível de um Brasil, e talvez nem de uns Estados Unidos, mas estamos muito longe de uma Alemanha, ou França, ou Portugal. 

O meu país a ser modelo de eficiência na contenção do vírus. Nós, aqui, ainda estamos meio a dormir. Talvez porque o sol brilhe e as pessoas se recusem a acreditar. A mim também me custa. Os miúdos estão em casa, e essa é a parte anormal. Estão em casa o tempo todo. É bom, claro, por enquanto, que ainda não nos fartámos uns dos outros. É preciso impor de novo uma disciplina há muito esquecida, porque cozinhar para quatro não é o mesmo do que cozinhar para três ou dois. O meu marido sai para trabalhar. Felizmente ainda há trabalho. E quando faltar? Quando faltar ficaremos melhor, porque mais protegidos. O trabalho dele é um risco, mas a falta de trabalho também. 

O risco está por todo o lado e nós habitualmente não pensamos nisso. Não pensamos nos milhares de mortos todos os dias. Não apenas desta doença. Como poderíamos? A urgência, porém, muda o rumo do pensamento. Eu dou por mim a pensar em cenários catastróficos. Calamidades à escala doméstica. Como o miúdo que morreu sozinho no hospital. Tinha treze anos. E tantas outras crianças, e tantos outros adultos. E se eu adoeço? E se adoece ele? E se adoecemos os dois? E se ficam os miúdos aqui sozinhos, sem notícias nossas, à espera do nosso regresso ou de um telefonema fatal? Os miúdos que já não são miúdos, um é um adulto jovem e o outro adolescente, mas em momentos destes voltam a ser miúdos e eu, mãe. A pensar nas praticalidades. Quando será a altura certa para os sentar e lhes dizer, filhos, se tal acontecer, estão aqui as passwords de todas as contas bancárias, as instruções para o pagamento da renda da casa, do council tax, da água, da luz e do gás. Se acontecer o pior… O que se diz nesse caso? O espírito prático é precavido. Ainda não chegou o momento. Um passo de cada vez. 

Apesar de na minha cabeça todos os passos estarem delineados para lá do limite. É apenas uma questão de focar a visão no dia de hoje e vislumbrar a penumbra do desconhecido para lá do horizonte. A sombra está lá. Está sempre. Na cabeça de uma mãe que prevê todas as derrocadas, as contorna como num percurso de obstáculos, às vezes cai e levanta-se como se não fosse nada, segura as lágrimas e segue em frente. E no seu delírio, acredita que consegue proteger as crias. Sim, porque o pior cenário, aquele que realmente me dá arrepios, era eles adoecerem gravemente, serem internados, e eu aqui em casa. À espera. Talvez a natureza seja burra, mas fala sempre mais alto. E hoje o sol brilha, e nada mais poderia trazer este calor de algo muito parecido com a esperança. 

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