Tiago Franco | Engenheiro de Software (Volvo Cars, Suécia)

Não entendo muito bem qual a razão de termos Fernando Medina, Marques Mendes, Paulo Portas e demais políticos, em horário nobre, a analisarem a pandemia e a opinarem sobre curvas, testes ou confinamentos. Compreendo aquela versão de comentador todo-o-terreno, como Miguel Sousa Tavares nos tempos das expedições ao Sahara ou o Nuno Rogeiro que analisava atentados no Iraque com o auxílio da frase “para quem conhece Bagdad, a embaixada dos Estados Unidos fica ali mesmo atrás do mercado”. [Agora que penso nisso, esse homem é o maior]. Mas convenhamos, meter políticos com bata branca, é como pedir a um padre que opine sobre as estrelas que brilham na noite de Amsterdão. Que são diferentes das noites estreladas, lembremo-nos, como patenteou em pequenos traços o infeliz Van Gogh.

Resumindo, não é Rogeiro quem quer.

António Costa deu uma pequena machadada em quem acreditava piamente no confinamento e no fecho das escolas, como melhores opções no combate à pandemia. Não deve ser fácil repetir em surdina, diariamente, que meter as crianças em casa foi decisivo na redução de casos e depois ouvir, em conferência de imprensa, o chefe do governo afirmar que “é difícil dizer se o encerramento das escolas foi decisivo para a redução dos casos quando estes já vinham a descer”.

Foi um ligeiro puxar do tapete que arrefeceu os ânimos, julgo.

Por outro lado, com a redução dos casos diários, a comunicação social deu uma folga nos diretos a partir dos parques de estacionamento dos hospitais. O silêncio não vende. E ambulâncias bem estacionadas, também não. 

Noto o aparecimento de opiniões divergentes nos diferentes canais e, aos poucos, começa a haver efectivamente algum debate. Mesmo o termo “negacionista”, que há pouco tempo era usado para terraplanistas ou pessoas que defendiam a abertura das escolas, parece ter encontrado o seu rumo. Enfim, fico com a sensação que se está a respirar melhor. Pode ser da distância ou, como me diz um “carinhoso” leitor, por eu já não conhecer Portugal.

Ainda assim, mesmo na calmaria aparente, continuo a ouvir coisas que me fazem alguma impressão. A primeira é, com escolas abertas por toda a Europa e quedas nos novos infectados um pouco por toda a parte, continuar a ler depoimentos estoicos de que com crianças na escola não vamos lá. A segunda é esta necessidade de não perceberem o básico da equação que é o distanciamento físico. Se tentam defender o fim do confinamento, mas o fazem argumentando com festas ou eventos com milhares de pessoas, bom, não estarão a fazer um grande favor à causa. É que para vivermos com alguma normalidade, durante estes tempos estranhos pelo menos, temos de assumir o distanciamento físico como o preço a pagar. É andar na rua deixando algum espaço, ou então ficar fechado em casa. É só escolherem, mas, por favor, evitem os tiros nos pés em defesa de uma ideia.

Nos últimos dias, as discussões sobre o sentido do confinamento foram substituídas pela data do seu término. Reina o argumento de ir devagar, desconfinar bem (seja isso lá o que for) e garantir que não teremos uma quarta vaga porque, dizem-nos, a população não aguentará. Ora, não sendo eu um prodígio de memória, foi exactamente o que julgo ter ouvido no fim da segunda vaga.

O tom mudou um pouco no debate público. Quem gritou por confinamento, fala agora de forma natural sobre o seu fim, e até já discutem a saúde mental, a retoma da Economia, e por aí fora. Dentro de dois meses descobriremos que ninguém defendia, afinal, as portas que se fecharam.

Aparentemente (ver gráfico), os casos vão diminuindo em toda a Europa, de forma independente das abordagens individuais de cada país. Encontramos exemplos para todos os gostos. Aumento de casos em confinamento, reduções sem confinamento. E o contrário. As teorias vão-se esbatendo um pouco com a espuma dos dias e, de alguma forma, vamos caminhando para a imunidade de grupo (cedo ou tarde chegaremos lá) sem que os verdadeiros problemas tenham sido resolvidos.

A destruição do Serviço Nacional de Saúde (SNS), que já vinha de outros anos, ficou destapada e visível na pandemia. Reforçar o SNS, ou chamar de forma efectiva os privados ao combate, teria sido mais útil neste período do que os sucessivos confinamentos e aumento das desigualdades.  

Por exemplo, em vez de dedicarmos tantas horas à bastonária da Ordem dos Enfermeiros, poderíamos era tentar perceber se a carreira de enfermagem já foi actualizada depois de uma década sem progressões. 

De igual forma, continuamos sem ter dados oficiais sobre a origem dos mortos, mas vemos, com naturalidades, as sucessivas renovações do estado de emergência.

E, por fim, com a crise à porta, só sabemos que uma comissão já está criada para vigiar a “bazuca” do financiamento da União Europeia. 

Sem debate ou estratégia, continuamos autênticos, valha-nos isso. “Criem-se comissões para que tudo fique na mesma”, dizia-se em tempos que não deixam saudade.

Alguns resistentes, daquela velha guarda que dizia que na Suécia a vida não tinha valor (em Abril de 2020), vão defendendo o que sobra da sua dama afirmando que muitos suecos estão contra a DGS local, e que tanto o rei como o primeiro-ministro admitiram o falhanço. Isto apesar do primeiro-ministro Stefan Löfven ter dito, em conferência de imprensa há poucos dias, que a Suécia tinha optado pela estratégia correcta. E mesmo os disparates do rei, traduzidos para português, resumem-se ao seguinte: “houve mortes e, por isso falhámos; é decepcionante”. Dizer que daqui se conclui que ele critica a estratégia é como afirmar que Mamadou Ba queria a morte literal e não literária do homem branco na figura do colonizador. Quanto aos populares, enfim, seremos todos donos de uma opinião. Na Suécia, em Portugal, seja onde for. Mal do governo que não tenha oposição.

Se pudéssemos aproveitar a aparente calmaria e não começar a pensar em novos confinamento e variantes do vírus, pessoalmente respirava melhor.

Ao fim de 13 meses em casa, já sonho com gente que não conheço, e cafés que não bebi. Agora que baixámos o nível da gritaria, podemos finalmente combinar os almoços com paisagens reais e peixes no prato com espinha central (emigrantes perceberão).

Há que viver um bocadinho antes de nos começarmos a insultar, novamente, quando a “bazuca” chegar, e passarmos então de epidemiologistas treinados a economistas diplomados.

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