Pedro Almeida Vieira | Escritor 

Pedro Almeida Vieira

Estimado M***** G*****

Vi, ouvi, e repeti, várias vezes; pedi depois que me transpusessem em letras o seu discurso da pretérita semana, excelsa peça de oratória, para melhor me deleitar com o seu elogio ao nosso povo, a este povo que tão bem patenteou nesta pandemia um escomunal sentido democrático. O The Economist, de facto, como bem o meu amigo denunciou, não entende patavina sobre a democracia. Estes anglo-saxões nunca serão suficientemente gregos para entender o dêmos e a kratia – a democracia, a força do povo –, nem reconhecerão jamais que em terras lusitanas nunca há falhas, nada falha nem falta; temos a democracia amadurecida em cascos de carvalho. Haja um homem de reflexão, como o meu amigo, que acuse esse jornaleco, e nos soerga o orgulho nunca tombado. Sem dúvida, só quem abdicou de direitos, abdicou de liberdades, abdicou de coisas que dava por garantidas em nome de um bem comum – na verdade, do Bem Comum –, é que sabe identificar e apreciar uma efectiva democracia. Só quem cala e consente, somente quem não protesta, se pode arrogar de ser um verdadeiro democrata. O contrário, é anarca. Não vir para a rua fazer manifestações representa uma opção demonstrativa de madureza; um puro acto de liberdade. O contrário, libertinagem é.

Tomei, assim, a liberalidade de lhe escrever para apresentar, quase em primeira mão, uma lista de medidas e justificações – que lhe poderão servir de orientação futura – no sentido de convencer os nossos concidadãos da imperiosa necessidade de manter altos padrões de democracia no pós-pandemia. Aliás, confesso-lhe já que esta minha missiva serve também para lhe endereçar um convite formal para o cargo de mui Alto-Comissário da Propaganda do Bem Comum para, através das suas palavras e actos, através do seu exemplo vivo, promover a manutenção – e já não precisamos de mais, porque alcançámos os alcandores – das convicções democráticas deste nosso nobre povo de uma nação tão valente. Tudo aquilo que mais se queira, será inútil; tudo o que demais se exija, será maledicência. 

Depois de longa reflexão, envio-lhe as minhas, que são por certo suas, orientações para simultaneamente o fortalecimento do Bem Comum e o enrijecimento da Democracia – assim mesmo –, que adveio da nossa experiência colossal do último ano. O coronavírus não nos vergou, tornou-nos mais fortes, mostrou-se o caminho. E esse é, na verdade, a manutenção de todas as normas e regras, determinações e ordenações, preceitos e decretos, estatutos e regimentos, que este nosso democrático Estado teve, por bem, fazer sair, e muito bem, para o Bem Comum – perdoe-me os necessários pleonasmos. Sem prejuízo disto, por ser o meu amigo homem de reflexão, queira-me fazer chegar mais propostas para refinação e aperfeiçoamento.

Assim, temos o seguinte:

Sobre o recolher obrigatório nocturno, mesmo após o SARS-CoV-2 desaparecer, se é que alguma vez se eclipsará, obviamente é para manter, porquanto teremos:

1 – Uma redução significativa dos assaltos às moradias e apartamentos por os seus proprietários e inquilinos aí permanecerem por mais horas, sobretudo após o lusco-fusco;

2 – Uma diminuição relevante dos sujeitos activos de ilícito penal em becos esconsos por míngua de sujeitos passivos de ilícito penal, daí resultando poupanças em hospitalizações e baixas, para as vítimas, e em eventuais encargos judiciários e penitenciários para corrigir e endireitar os meliantes;

3 – Uma descida nada despicienda no número de agentes policiais a patrulhar ruas em horário nocturno, porquanto haverá menos agentes activos e agentes passivos de ilícitos penais;

4 – Um melhor aproveitamento dos agentes policiais com deficiências motoras ou mesmo visuais para os horários nocturnos, em vez de lhes conceder uma desnecessária reforma antecipada, uma vez que não irão necessitar de correr atrás de meliantes;

5 – Uma redução dos acidentes rodoviários e das vítimas mortais para metade, consubstanciando-se isto em estudos académicos revelam que, até à pandemia, o número de óbitos no horário nocturno era semelhante ao daquele que se observava em horário diurno;

6 – Uma poupança energética considerável na iluminação pública que, segundo o Pordata, representou um gasto de 1.465.936.392 KWh em electricidade apenas durante o ano de 2017. Ademais, ficará sempre bem associar estas medidas à sustentabilidade ambiental, demonstrando assim, internacionalmente, que Portugal está na senda do cumprimento do Acordo de Paris.

Entretanto, como sabido, os 12 estados de emergência em 12 meses, acrescidos de mais rígidas normas sanitárias, evidenciaram as enormes vantagens dos confinamentos aos fins-de-semana, bem como do encerramento de espaços de perversão, erradamente denominados de diversão. Portanto, obviamente, a partir das 19 horas de sexta-feira e das 17 horas de sábado e domingo continuará tudo retido nas respectivas residências. Esperam-se assim as seguintes vantagens:

1 – Redução de consumo de bebidas alcoólicas e outras substâncias que possam trazer maiores afectividades, uma vez que conduzem a ajuntamentos e estados de ebriedade propícios a desacordos, desinteligências, desarmonias, desmaranhos e duelos, pleitos e pelejas, estrupadas e porradas, as quais necessitavam até agora, por parte do Estado, da implementação e manutenção de um dispositivo de segurança e de emergência médica, o qual, dessa forma, será escusável. 

2 – Redução de gravidezes indesejadas que, ademais, resultam em núcleos familiares desestruturados e/ou monoparentais que, muitas das vezes, em consequência, implicam despesas do Estado em apoio social num futuro breve, se não imediato ao conhecimento do nascituro ou do surgimento do recém-nato.

3 – Redução das despesas públicas em limpeza urbana de arruamentos selvaticamente conspurcados e infamados, sobretudo nas noites de fim-de-semana, por catrefas de matérias plásticas e abundosos conteúdos estomacais.

4 – Permanente e  relevante redução do absentismo às segundas-feiras, e uma diminuição significativa no afluxo das emergências hospitalares para curar agudas maleitas de fim-de-semana em consequência do expurgo das berzundelas, rega-bofes, carraspanas e pândegas, bem como das saturnais noitadas – cometidas anteriormente em claro esbanjamento do período clínico recomendado para a manutenção da produtividade semanal –, onde muitos indivíduos se expunham a licenciosos e daninhos actos lesivos das suas funções fisiológicas imprescindíveis ao Bem Comum. 

ANTIQUE PEN ON JOURNAL

Para uma melhor compreensão do interesse público destas medidas, os níveis de medo – que têm reforçado o espírito cívico e de solidariedade – devem manter-se sempre elevados, com a prestimosa e unânime comunicação social. Existem, para aí, uns antipatriotas a defender desvantagens do pânico em redor dos hospitais. Eu vejo várias, mas só vantagens. Somente, para exemplo, lhe direi que a covid-19 dispõe as pessoas mais em sentido do que a cruz ao diabo. Deste modo, prevemos que bons níveis de medo contribuam fortemente para a manutenção do baixo afluxo de urgências hospitalares, continuando assim a afastar muitos parasitas da sociedade com doenças imaginárias, e contribuindo também para a boa saúde financeira de agências funerárias, floristas, operadores de crematórios e coveiros.

Julgamos também, pelo menos a curto e médio prazo, não ser vantajoso para o Bem Comum reactivar a actividade dita normal do Serviço Nacional de Saúde, porque a experiência nos tem demonstrado que aumenta a taxa de letalidade de doenças como a covid-19, o que é desaconselhável porque só essas pessoas podem ter dificuldades de ascender ao Paraíso. Além disso, a suspensão dos cuidados de saúde primários trará, em consequência, ao fim de alguns anos, uma forte redução do número de comorbilidades associadas aos doentes infectados com o SARS-CoV-2, uma vez que, aumentando o número de óbitos por cancros e perturbações angiológicas, não haverá tanta possibilidade de se desenvolverem muitas mazelas típicas da velhice. Ademais, em consequência, diminuir-se-á o risco de, no futuro, sofrermos uma mortandade por covid-19 tão elevada como a de Janeiro de 2021 porque não haverá assim já tantas pessoas com mais de 80 anos. Repare bem: nesta pandemia, ao dia 4 de Março de 2021, em vez de 16.486 mortos, bem poderíamos estar apenas com 5.569, e a fazer um manguito ao Tegnell e ao Bolsonaro; bastava que não tivéssemos nenhum octogenário, nonagenário e centenário para nos estragar as contas.

Na mesma linha parece-me altamente vantajoso manter as escolas encerradas. Sem alterar a escolaridade obrigatória, para que a UNICEF não nos venha chatear a moleirinha, desejoso que as criancinhas, desde a tenra idade, contribuam para a Economia da Nação, e de forma muito expedita. Sem aulas presenciais, eliminaremos os contactos físicos, sendo assim previsível uma redução drástica da propagação de insetos ápteros da ordem dos ftirápteros, com consequente melhoria da balança comercial portuguesa por força da diminuição das importações de Quitoso à farmacêutica italiana Angelini. 

Teremos também uma poupança de 60 milhões de euros do programa de retirada de amianto das escolas públicas, uma vez que esta substância altamente cancerígena não mais constituirá um perigo para alunos, professores e funcionários, podendo as telhas ficar onde sempre estiveram.

Por fim, neste sector, teremos uma redução quase total das despesas em funcionários e professores, uma vez que as aulas serão integralmente gravadas, servindo ad perpetuam rei memoriam até uma novidade científica estupenda, como seja, por improvável, a descoberta de a Terra não ser afinal plana. Porém, permitir-se-á que todos os professores no activo esculpam em versão digital uma palestra, que todos anos será transmitida na telescola, para orgulho dos seus trinetos que reconhecerão, no futuro, a utilidade dos seus trisavós. 

As máscaras, que se incrustaram no nosso hábito como peça de vestuário, são para manter. Sempre. Passaram a sinal de ostentação de cidadania e de democracia. Quem não usa é um facínora, desrespeitador das vidas humanas. Um escroque mata-velho. Todos vão desejar manter as máscaras. E não será apenas para benefício dos feios. Imagine quantos serão os sorrisos de felicidade dos pais de classe média, que dessa forma deixam de ser atezanados pelos filhos adolescentes para lhes custearem mastodônticas correcções ortodônticas, nomeadamente em dentes inclinados, em dentes entramelados, em dentes torcidos e em dentes encavalados. Ademais, evita-se eventuais novas invasões de suspeitosos odontologistas brasileiros, além de permitir que o Estado continue a poupar dinheiro ao não incluir a medicina dentária nos cuidados de saúde primários. 

O teletrabalho será fortemente promovido, mas vamos ser já claros: não há qualquer intenção de novo impostos a esses burgueses. Apenas lhes iremos orientar, para o bem comum, a parcela do subsídio de refeição para compra de dívida pública – decisão justa, porquanto poupam imenso dinheiro a comer em casa. Anunciaremos uma taxa de juro de 2% ao mês, e decidiremos depois o melhor momento para acrescentar ser juro negativo.

Os juros chamam os bancos, mas não iremos tomar, para já, quaisquer novas medidas para as instituições bancarias, a não ser continuar a tapar o buraco do Novo Banco enquanto Ricardo Salgado vai fintando a Justiça. Porém, em relação aos bancos de jardim haverá novidades. Determinaremos, em breve, que poderão novamente ser utilizados pelos transeuntes, em descanso solitário, desde que se disponibilizem a ouvir uma palestra de não menos de 15 minutos dos subordinados do superintendente-chefe Magina da Silva sobre “a necessidade de observarem as medidas de diminuição de risco de contágio”, com a máscara colocada de forma correcta, sob pena de serem autuados. Se houver sinais de enfado, a multa duplicará, embora com desconto de 10% em Cartão Continente se paga na hora.

Ainda estamos a estudar formas de redireccionar os estabelecimentos de restauração para novas funções em prol do Bem Comum, mas, para já, vamos mantê-los em take-away. Porventura, no caso dos cafés, uma vez que não servem já cafés, tal como as leitarias deixaram de ser leitarias quando os cafés passaram a denominar. Tenho aqui um assessor que me sugeriu salgadarias, mas não achei boa ideia: sempre haveria algum galhofeiro a dizer que isto se estava a tornar salgalhada. Enfim, nesta matéria ainda estamos em estudo, e porventura, enquanto não decidimos, acredito que, mantendo-se a meio-gás os cafés – ou as salgadarias, ou o que se quiser –, conseguimos reduzir as vendas dos chatos do Correio da Manhã para os níveis do Público. Ou seja, a quase zero. Ficariam assim todos cordatos. Ou melhor, mais mansos.

Não desejava meter já o carro, ou o avião, à frente dos bois – porque se falamos de aviões lá vem a conversa da TAP e do novo aeroporto, e necessitamos de discrição –, sempre lhe adianto que o Estado é e será um fervoroso adepto do passaporte sanitário. Porém, apenas para os cidadãos nacionais que desejam sair de Portugal; os outros podem vir à vontadinha, mesmo com variantes, sobretudo se usarem notas com o retrato de Winston Churchill, Jane Austen, Joseph Mallord William Turner, Matthew Boultonde e Adam Smith – ainda mais estas, tão didácticas, por ilustrarem as vantagens da divisão do trabalho na produtividade de uma fábrica de alfinetes. Os cidadãos nacionais não devem ir ao estrangeiro, porque essas viagens constituem importações, mas o Estado não pretende acabar com as férias, desde que sejam cá dentro, porquanto são essenciais para a Economia. Ademais, nas férias as pessoas costumeiramente fazem mais despesas em produtos e serviços com imposto sobre o valor acrescentado à taxa de 13% e 23%. No entanto, serão condicionadas as viagens de continentais para a Madeira e os Açores, porque aí a taxa intermédia é de apenas 12% e 9%, respectivamente, e a taxa normal é de 22% e 18%, respectivamente.

Por fim, a Cultura, onde faremos mais do que drinks de fim de tarde. 

Pode parecer surpreendente, mas consideramos fundamental para o Bem Comum que as livrarias continuem encerradas. Com esta douta medida, impediremos que obscuros saudosistas e negacionistas possam comprar anonimamente o Mein Kampf, de Adolf Hitler, editado pela Guerra & Paz, permitindo assim que o Estado identifique e actue de imediato sobre todos os cidadãos com ideologias desviantes e perniciosas, porquanto estes se revelam através do registo nominal e pagamento por cartão de crédito aquando da aquisição daquela infecta obra numa qualquer loja online. 

E não se incomode com as outras artes, sobretudo certas performativas. Há-de ver-se o que se pode desenrascar. Um subsídio aqui, uma esmola acoli. Tudo normal, sempre se fez assim, e não se alterará. Importante – e, se aqui estivesse comigo, o meu amigo notaria que lhe estou a piscar o olho – é anunciar-lhe que tratei de encontrar uma alternativa à obrigação das rádios passarem 30% de música portuguesa. Convenhamos também que seria uma estucha meter tanta cantoria em português. Assim, implementaremos uma alternativa, muito do seu agrado: esse rácio pode diminuir para 10% se a quota for integralmente ocupada por bandas – incluindo filarmónicas, pois não desejamos ser acusados de discriminação na abertura das hipóteses –, que reúnam, em simultâneo, as seguintes condições: a) tenham sido criadas em 1994; b) tenham sido formadas na cidade do Porto; c) sejam cópias mal-amanhadas dos norte-americanos Pearl Jam; d) o primeiro disco tenha sido editado pela Valentim de Carvalho; e) o vocalista seja ferrenho do fê-cê-pê; e, por fim, f) um dos músicos seja comentador da TVI.  

A Bem da Nação e do Bem Comum.

Calorosas saudações, à distância devida, do seu

A****** C****

Lisboa, 7 de Março de 2021

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