Gabriela Ruivo Trindade | Escritora

O FAROL XXI é, a meu ver (e posso estar enganada), um espaço de reflexão sobre a narrativa oficial da pandemia – e talvez não seja só isto, mas neste momento está focalizado nessa matéria –, com artigos baseados essencialmente em conhecimentos de estatística e ciência matemática. Por isso, também no meu entender, não se quer sobrepor à visão das outras ciências sobre o assunto. Aquilo que o FAROL XXI pretende, acima de tudo, julgo eu, é questionar a narrativa oficial dos media portugueses, com análises estatísticas mais exactas e argumentos mais sustentados. E neste site existe um espaço dedicado à Literatura, para o qual fui convidada, tal como outros escritores. 

Até aqui tudo certo. A Literatura é, por definição, um território livre, que não tem nada que ver com ideologias ou narrativas oficiais da imprensa. Acho eu. Ou achava. 

Assim, fui surpreendido pelas críticas a um texto literário da minha autoria pela sua suposta “conformação” a uma suposta “narrativa”. Crítica essa que exprime, antes de mais nada, uma interpretação dos próprios leitores sobre o significado daquele texto em particular e à forma como este se encaixa na tal narrativa. Fazer isso é, a meu ver, um sintoma de iliteracia. Neste caso, não se trata de não saber ler as letras, mas entender as próprias metáforas de que é feita a Literatura. Quando a isto se junta o rebaixamento, a humilhação e o insulto, temos, além disso, um caso de má educação, pura e dura. E, quanto a isso, não há nada a fazer. 

Pessoalmente, não respondo a insultos, acho mesmo que a atitude certa é ignorar. Não posso, no entanto, deixar de agradecer aos administradores do FAROL XXI pela paciência com que argumentaram e tentaram defender-me, a mim e ao meu texto, numa troca de comentários de má-fé, vindos de pessoas que não fazem a mínima ideia do contexto daquele conto em particular, mas que se arrogam o direito de o maldizer apenas porque não gostam – e não gostam porque, lá está, o lêem como um texto que espelha a narrativa do culto do medo em relação a esta pandemia, e essas pessoas são fervorosos combatentes dessa mesma narrativa. Este não gostar é, por isso, e acima de tudo, uma questão de projecção ideológica em vez de substrato literário; e, a reboque de tudo isto, arrogam-se também o direito de diminuir a autora do texto e a sua escrita: “não sabe escrever”, “emigrante covideira”, “literatura medíocre”, “fraquíssima”, “de mau gosto”, “o prémio LeYa é chancela para escrever barbaridades”, e por aí fora. E depois há outros, coitados, que acham que estou à beira do suicídio – poderia ficar tocada, se não fosse ridículo. Como acima referi, não respondo a insultos nem humilhações – e por isso não me meti na conversa nem o tenciono fazer –, mas não podia deixar de escrever estas palavras, especialmente para o Pedro Almeida Vieira – que me convidou a participar na secção do Distopias, no FAROL XXI –, e para todos aqueles que me lêem e me queiram criticar com conhecimento de causa. 

Esclareço ainda que este diário – que tem sido publicado no FAROL XXI, e continuará – foi escrito mais ou menos há um ano, no início da pandemia. A primeira entrada é um exercício puramente literário sobre a saúde mental. Há muitas pessoas que vivem em confinamento permanente dentro das suas próprias cabeças, prisioneiras dos seus medos e angústias, e é precisamente essa perspectiva que se explora nesse primeiro diário, ao qual dei o título Terra de Ninguém especialmente para o Farol XXI (optou-se por retirar as datas de cada entrada e dar títulos a cada uma). As seguintes entradas obedecem de facto a um registo diarístico das minhas preocupações da altura (Abril do ano passado, quando quase nada sabíamos deste vírus, quando tudo começou e tudo era um ponto de interrogação). Hoje, a realidade é outra, e se escrevesse agora um diário este reflectiria, naturalmente, preocupações e reflexões diferentes. De qualquer forma, o exercício da escrita é sempre um exercício literário, acima de tudo. Eu também, como leitora, posso gostar ou não gostar de um texto, como é óbvio; porém, o que não posso, ou não devo é desacreditar e desvalorizar um texto literário só porque este não reflecte as minhas percepções e/ou crenças em relação a determinado assunto, ou reflecte uma percepção que eu interpreto como radicalmente oposta à minha. 

Mas, na verdade, é claro que podemos tudo, neste jardim zoológico em que se tornaram as redes sociais, e o que mais há por aqui são elogios à própria soberba. O que nos vale, no meio disto tudo, é que também encontramos pontes e portas abertas para espaços de troca, partilha e crescimento mútuo. 


NOTA: Este texto surge na sequência de reacções e ataques pessoais no Facebook ao terceiro conto de Gabriela Ruivo Trindade intitulado “Calamidades à escala doméstica”. Não deveria ser necessário aqui relembrar duas coisas fundamentais, mas que se mostra conveniente: 1) o FAROL XXI é um espaço de reflexão e cidadania; com moderação, é certo, mas apenas intolerante contra a intolerância; 2) o FAROL XXI considera que a Literatura deve ser o espaço de excelência para todas as visões, e que aquilo que surge escrito não reflecte a posição do autor, mesmo que seja fruto, assim se espera, da sua reflexão do mundo, e não apenas do seu mundo. Pedro Almeida Vieira

Apoie o Farol XXI