Gabriela Ruivo Trindade | Escritora 

Não pretendo que isto se torne um diário. Não sei que nome dar a isto. São apenas coisas que me passam pela cabeça. Pensamentos velozes. O mundo está parado e o pensamento é a única coisa que corre, para além dos rios. Ou será o contrário? Vemo-nos estagnados, em casa; o corpo insiste em sair e correr para manter a ilusão de movimento, mas no fundo de si tudo está parado, o olhar fixo num ponto lá muito ao fundo, tentando vislumbrar uma réstia de esperança; permanecemos imóveis e o mundo vertiginoso na sua corrida louca em redor do astro rei; os corpos caem no campo de batalha mas não estamos lá para ver, só o silêncio, e a ausência rapidamente se confunde com indiferença, fica o coração confundido; devemos chorar, espremer a angústia até ao tutano, ou dar graças por não ser connosco? 

Os pensamentos sucedem-se em linha recta e às curvas. No outro dia, os miúdos falavam entre eles, um dizia que os pensamentos ficam destituídos de moralidade se não se concretizarem numa acção. Um acto pode ser classificado como mau ou bom, já um pensamento, não faz qualquer sentido denominá-lo como tal. O outro discordava. Meti-me na conversa e fiz-lhes ver que, em termos de saúde mental, os pensamentos são inócuos; não provocam qualquer dano per si. Aliás, quanto mais liberdade de pensamento, mais saúde mental. 

Ideias obsessivas, aquelas que atormentam e causam sofrimentos atrozes, não passam de uma tentativa gorada de aprisionar o pensamento, de o policiar; o medo de pensar a revelar-se, sem dúvida, uma das enfermidades mais virulentas da nossa época. Há quem pretenda expurgar os pensamentos e as emoções negativas como outrora os pecados da carne – do corpo passámos para a mente, numa fuga compulsiva de tudo o que nos é intrínseco porque profundamente humano. Negar a humanidade será o pior dos destinos. Precisamo-nos inteiros, mais do que nunca. 

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