Pedro Almeida Vieira | Escritor 

Pedro Almeida Vieira

Estimado amigo E****** F**** R********

Excelentíssimo Presidente da A********* d* R********

Tenho, temos, constatado, maravilhado, posturas, aqui e ali, em todo o lado, deste nobre povo, lusitano de genes, mas de gulliverianas posturas, gigante no respeitinho, descomunal na obediência. Na Primavera do ano passado meteram-se em casa antes de qualquer ordem. Depois, todos adoraram soletrar lockdown mesmo sem saber patavina da bárbara língua dos anglo-saxões. Em seguida, abraçaram animosos o recolher obrigatório – ou curfew, como os bifes dizem – sem necessidade de sirenes nem bombarias no horizonte. Bate-se agora palmas, e eles da rua pisgam-se para casa. Diz-se um ai, e eles dizem ui. Veja, caríssimo amigo, o velho da sopa dos pobres no Porto, que lesto meteu a máscara na boca em vez do papo seco que trazia na mão, ao ouvir a recomendação dos subordinados do super-intendente Magina da Silva para assim proceder; e ele logo fez e, com a humildade devida, agradeceu a liberalidade por não ser autuado. Aliás, quem é multado por algum acto desviante não só contribui para o Bem Comum, pelos dividendos pecuniários recebidos pelo Estado, como serve de exemplo aos titubeantes e de opróbrio para os demais.

No último ano, os portugueses tornaram-se mais do que obedientes. São agora obedecentes – padecentes de uma síndrome que os impele à obediência, mesmo se noutras ocasiões esta lhe causasse engulho, sobretudo se provocasse dano pessoal. Julgam agora que a obediência é o supremo nível de um democrata; e mais: o intelecto de um verdadeiro democrata, como diria o nosso estimado M***** G*****, destaca-se quando julga na sua inteireza que a democracia atinge o cume quando abdica de direitos; e que um democrata se alcandora quando, dos pináculos, grita que respeita mais a vida do outro do que a sua; sendo que o outro, em resposta, e para não ficar atrás, mais alto grita o mesmo, e nisto se anulam e nada fazem nem pensam, apenas obedecem. É mais ou menos isto. Pouco interessa. Sei apenas que temos de aproveitar. Vivemos momentos gloriosos, históricos, histriónicos, de comédia. Já nem necessitamos de dar ordens, de mostrar autoridade. Os portugueses submetem-se, agora, calados. Concordam pelo silêncio. Prestam-nos vassalagem. Culpam-se quando nós falhamos. Regozijam-nos quando as coisas melhoram, e nem por sombras fizemos algo de útil para tal sucesso.

Portanto, preparei um Plano – na verdade o P.L.A.N.O. – Programa da Liga Anti-Negacionismo dos Obedecentes –, que visa maximizar a docililização dos portugueses ao Bem Comum. Sem coerção. Sem subserviência. Tudo voluntário. Tudo por amor ao próximo, que será por si mesmo. Eles aceitam. Eles querem. Eles exigem. Eles anseiam mais. Eles batem no peito para demonstrarem o seu novo apego ao Bem Comum.

Como não nos apaixonarmos por este povo? Como não amar os portugueses, esta sua renovada filosofia de vida? Este seu egoísmo solidário, alicerçado na limitação das liberdades de todos para que o eu saía beneficiado, sendo que o eu será sempre prejudicado porque não pode causar prejuízo nem ao todo nem ao outro nem a si mesmo?

Fico, portanto, a aguardar as suas démarches para, em Conferência de Líderes da A********* d* R********, seja combinada uma autorização legislativa para a implementação de cada uma e de todas as medidas do P.L.A.N.O que abaixo exponho.

Instituição da Raspadinha da Penitência, que, aviso já, apesar da denominação, nada tem a ver com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Consistirá de uma cartela vendida ao preço unitário de 500 euros, com 10 quadrados de revestimento dourado, comprada antecipadamente por todos os condutores que, em seguida, voluntaria e diligentemente, irão raspando os ditos quadrados à medida que, de forma consciente, detectarem as suas próprias infracções, designadamente semáforos vermelhos, quasi-atropelamentos em zebras e pisamentos de traços contínuos. De sorte a promover o Bem Comum, algumas raspadinhas terão quadrados com referências multibanco para ser efectuado um pagamento suplementar de 1.000 euros. Para premiar essa obediente colaboração, esses condutores entrarão no sorteio da Tômbola da Penitência, candidatando-se assim ao chorudo abono natalício de 10 euros em desconto no Cartão Continente, acrescido de presépio com a Virgem, São José, Menino Jesus, burro, vaca e dois quilos de genuína palha das searas alentejanas. Por alturas do Ano Novo faremos uma edição especial da Raspadinha da Penitência ao preço de 1.000 euros, com um brinde especial: 11 quadrados de revestimento dourado em vez de 10, e novo sorteio, desta vez, de estatuetas de Belchior, Baltasar e Gaspar, mais três quilos de incenso de Goa. Julgo que é melhor esquecer a mirra – não vá as suas conhecidas propriedades medicinais darem cabo da covid-19 –; e do ouro nem vale a pena falar.

Criação dos Postigos do Acelera, a serem implantados em área subsecutiva às cabines de portagem das auto-estradas, para acolher os condutores que espontaneamente desejem comprovar o seu bom comportamento como cidadãos responsáveis, e promovedores do Bem Comum, confessando os excessos de velocidade durante o trajecto concluído, e pagando as respectivas multas. Ao fim de 10 sanções pecuniárias, o bom sujeito terá direito a meia hora de condução gratuita no kartódromo de Mirandela, Baltar, Vila Nova de Poiares ou Odivelas, acompanhado de uma sanduíche mista em pão saloio e uma garrafinha de 30 centilitros de Sumol Ananás, um apoio do Continente Bom Dia Santa Quitéria, sito na travessa homónima de Lisboa.

Programa “Um Brinde à Segurança Social”, que assenta na disponibilização de bafómetros com registo nominativo em bares e restaurantes, convidando-se os clientes a soprarem para aferir o seu grau de alcoolemia. Independentemente da postura colaborativa e voluntária que se esperará dos cidadãos, e atendíveis as vantagens na prevenção de acidentes rodoviários, quando forem completadas 50 assopradelas no alcoolímetro, e sem sequer qualquer aferição dos resultados, será ofertada uma garrafa Mateus Rosé, e concluídas 200 uma caixa de brandy Constantino, sempre endereçadas para a residência do premiado. Em paralelo, porém, será adicionado um ponto na cédula digital individual, sob supervisão e gestão da Segurança Social, por cada 100 miligramas de álcool por litro de sangue, sendo que por cada 10 pontos será deduzido, no futuro, um mês de pensão quando o cidadão se tornar reformado.

Criação dos Beleguins da Concórdia, constituídos por brigadas ou quadrilhas que patrulharão cabeleireiros, barbeiros, esteticistas, manicures e pedicures, mecânicos de auto, de motos e de motociclos, restaurantes, cafés e tascas, pensões de águas quentes e frias, hotéis de uma, duas, três, quatro e até cinco estrelas, Airbnb’s e quejandos, lojas de animais e de rações e brinquedos para animais, com o intuito de recolher, em sacos de serapilheira, todos e quaisquer impostos devidos, poupando assim aqueles contribuintes ao fastidioso cálculo dos valores a mencionar nos diversos quadros da declaração mensal do IVA. Perante a espontânea colaboração desta activa força laboral em prol do Bem Comum, os quadrilheiros dos Beleguins da Concórdia entregarão ao contraentre um número aleatório em cada visita para o sorteio mensal do Recibo da Sorte no valor de 35 euros de desconto no Cartão Continente. Por já desnecessário, será abolido o sorteio da Factura da Sorte que atribuía, aos contribuintes passivos, 35 mil euros por semana em Certificados do Tesouro. As brigadas não poderão aceitar quaisquer manjares de agradecimento por parte daqueles sempre agradecidos contribuintes, excepto uma chávena de chá Whittard of Chelsea acompanhada de línguas de gato Du Bois de la Roche.

Criação do Gabinete dos Biscates para que os trabalhadores esporádicos e outros artífices de pequenas obras e consertos realizados em casa de amigos, de amigos de amigos, de conhecidos, de conhecidos de amigos, de amigos de conhecidos e de conhecidos de conhecidos, possam livre e voluntariamente proceder ao pagamento do IRS e IVA devidos. Em cada visita será gentilmente ofertado um carrascão traçado em copo de três.

Instituição do Movimento Voluntário dos Médicos pela Verdade, que congregará clínicos que denunciam quaisquer e todas as tentativas, obviamente malogradas, de obtenção de baixas fraudulentas com base em doenças imaginárias, de modo que os seus autores, tanto funcionários públicos como colaboradores privados, sejam alvo de competentes e justos processos disciplinares. Igualmente, serão delatados aqueles que procurarem lograr declarações de testes PCR negativos ou certificados falsos de vacinação. Por cada 10 irrogações, o facultativo receberá cinco euros de desconto em Cartão Continente. Ao fim de 100 bufonarias, às senhoras médicas será ofertada uma bisnaga de base correctora com cor Dermablend 3D 15, e aos senhores médicos um frasco de água-de-colónia Old Spice, com o patrocínio das lojas Well’s.

Plano de remodelação das fachadas das unidades hospitalares, que visam conciliar a oferta dos serviços de urgência à sua procura, conformando-se à nova e saudável atitude dos portugueses de apenas irem a correr aos médicos quando a Direcção-Geral da Saúde não recomenda o contrário, ou quando, enfim, são levados, presumo contrariados, por associações de bombeiros voluntários sedentas das ajudas de custo do Estado. Assim, nas empreitadas a realizar nos hospitais e centros hospitalares serão eliminados os átrios, as salas de espera e seus banquinhos, reequipando as entradas com rampas e túneis que impeçam fotografias e videogramas de ambulância em fila goesa. Significa, portanto, que no futuro serão atendidos apenas e somente casos manifestamente urgentes, cuja sintomatologia fulcral do padecente seja a posição em decúbito dorsal, ventral ou lateral, em maca, ou com os quartos traseiros em cadeirinha de rodas, não valendo canadianas, andarilhos e bengalas. Considerando o ganho de espaço físico destas operações de betoneira, mas não havendo necessidade de investir em apoio clínico, julgo ser mais útil aproveitar as pretéritas salas de espera para ampliação de morgues e casas mortuárias, com bons sistemas de refrigeração, instalando também áreas de catering da Casa do Marquês – com a qual já encetámos conversações visando uma exploração em monopólio –, para os familiares se entreterem em degustações, a bons preços, enquanto aguardam os trâmites burocráticos de libertação dos restos mortais dos seus entes queridos.

Fomento da campanha nacional “O Lixo Não no Chão, só na Estação”, que visa maximizar a boa colaboração das pessoas em manter o asseio de bancos de jardim e outros espaços públicos, bem patente durante a pandemia. Deste modo, evidenciando-se a desnecessidade de almeidas para varredura de ruas, consideramos recomendável encetar acções mais ambiciosas: assim, dispensaremos todos os operadores de higiene urbana, passando aos obedecentes munícipes a responsabilidade pela entrega individual dos lixos, recicláveis ou não, nas competentes estações de tratamento, designadamente centrais de incineração, unidades de compostagem e aterros sanitários. Por razões ambientais, a transmissão desses resíduos deve ser realizada através de modos suaves de mobilidade, quais sejam a bicicleta ou os pés, sendo aceitável uso de botas cardadas, embora não de biqueira larga. Será incentivada a criação de associações de moradores para remessas conjuntas, que não excedam os dois metros cúbicos, podendo, nesses casos, ser usado carrinho-de-mão ou carroça puxada por mamífero da ordem dos perissodáctilos e espécie Equus asinus, ou ainda por mamífero da ordem dos primatas e espécie Homo sapiens subsp. sapiens. Serão sorteados, periodicamente, sapatos e botas das conceituadas lojas da Calçado Guimarães, bem como vales de descontos da SN Nails, a usar em todos os produtos e serviços, com excepção de aparatologia, design de sobrancelhas e threading, malas e trolleys.

Construção das Camaratas da Expiação nos estabelecimentos prisionais para acolher todos aqueles e todas aquelas que, independentemente de serem suspeitos, se incriminem em casos judiciários não resolvidos, bem como para acomodar todas aquelas e todos aqueles que se candidatem a arcar competentes castigos em crimes prescritos, de modo que, em Portugal, a culpa deixe finalmente de morrer solteira. Em sinal de agradecimento, em penas superiores a um ano, o encarcerado suplente será presenteado com uma caixa de ovos de chocolate na Páscoa e de sombrinhas alusivas ao Natal em Dezembro, tudo da prestigiada marca Regina.

Criação dos Gabinetes da Confissão, com guichets ecuménicos, para receber padres, pastores, rabis, imãs e outras autoridades de toda e qualquer crença religiosa, incluindo o Dalai-Lama e o Bispo Edir Macedo da IURD, para recolhimento (leia-se recepção) de delações, conhecidas através de confissões, respeitantes a transgressões com moldura penal e sobretudo tributária, com relevo para o Bem Comum. Numa fase seguinte, e para diligenciar universalmente uma melhor operacionalidade, rapidez e conforto, aqueles oficiantes podem também tomar o cargo de cobradores e/ou meirinhos, a partir do momento em que a Microsoft aplique num programa jurídico os modelos matemáticos que o Professor Carlos Antunes já desenvolve tanto para a geodesia como para a epidemiologia. O processamento dos pagamentos dos devidos pecúlios será feito através de terminais de pagamento automático com recurso ao Microsoft Wallet, ressuscitando, deste modo, uma tecnologia já morta, o que se coaduna bem com o sector da actividade sobre o qual nos debruçamos, atendendo que muitas religiões propalam a ressurreição ou a reencarnação.

Assinatura de um protocolo com a Igreja Católica para a celebração de um negócio em prol do Bem Comum entre a Maternidade Alfredo da Costa, meu querido berço, e o Santuário de Fátima, que consistirá na produção e comercialização de um pack religioso que, além de um terço para rezar pela salvação do Serviço Nacional de Saúde, contenha a Virgem Maria com um menino de traços goeses ao colo. Para os agnósticos, que também são, por regra, pessoas de bem, pode-se optar pela imagem de um senhor de traços goeses levando ao colo a Madre Teresa de Calcutá; porém, nesse caso, dispensa-se o terço. O PVP deverá ter em consideração a cobertura de custos da distribuição gratuita deste pack em todas as escolas primárias e gabinetes dos alcaides, digo, presidentes das Câmaras Municipais, bem como dos altos funcionários do Estado e dignitários da Magistratura.

A Bem da Nação e do Bem Comum.

Calorosas saudações, à distância devida, do seu

A****** C****

Lisboa, 13 de Março de 2021

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