Raquel Ochoa | Escritora

A Senhora Joaquina desce a avenida. Hoje há bastante gente, mais do que o costume, mas ela não o sabe, há muito tempo não dava a face ao ar livre. Fechada no lar há onze meses, escapuliu-se ontem à noite. Agora, planeia fazer uma declaração de megafone na mão. 

Quando assinou o contrato para ser admitida no lar, leu todas as folhas, leu todas as páginas, leu todas as linhas, leu todas as alíneas, estudou-o ao pormenor. Meteu mesmo os óculos para ler todas as letras, até as pequeninas. Na verdade, só resolveu abandonar a sua casa por estar entediada, necessitava de alguém com quem conversar. À excepção das cataratas, que lhe serão resolvidas pelo Instituto Gama Pinto logo após se reactivarem as cirurgias, de saúde dá uma coça a um rapazola, se preciso for.

Sempre foi um pouco rebelde, os anos só o acentuaram. E lembra-se bem, em todo o articulado daquele contrato eram só direitos, e apenas dois dois deveres:

1) avisar quando quisesse quebrar o contrato e abandonar a instituição (antecedência de dois meses);

2) avisar quando não comparecesse a alguma refeição.

Clarifique-se: podia entrar e sair às horas que lhe aprouvesse, receber visitas, dormir o dia todo ou, até, sair à meia-noite para um pezinho de dança na roda de choro da Graça, por exemplo.

No entanto, em Março de 2020 chegou a rainha-senhora-dona-de-todas-as-leis, a doença do protagonismo que enxota para fora do palco todas as outras; a tal que espezinha quem a ouse contrariar. Já se dizia da moda, ser tirana, o que dizer da doença da moda?

Decidiu ingressar no lar porque lhe pareceu sensato não se preocupar com lavar roupa, cozinhar, etc. Em vez disso encontrou uma prisão. Servirá a alguns, aos que já abandonaram o seu raciocínio há muitos anos, para esses, tanto se lhes dá.

Para si, nem pensar.

Ao conseguir falar com a directora trocaram estas ideias:

– Senhora directora, por favor raciocine comigo: não poder sair do lar, à excepção de ir a uma consulta médica, e, mesmo assim, com um funcionário patrulhando-me, é uma medida repressiva e desproporcional, não acha?

– Eu compreendo-a, e digo-lhe: não concordo com nenhuma destas medidas, mas são ordens de cima e, caso não as cumpra, não consigo manter o lar aberto.

Pois agora Senhora Joaquina desce a avenida, orgulhosa do seu plano. Fugiu do lar, já lá vão vinte e quatro horas, e o objectivo principal – fazer ouvir a sua voz – está prestes a ser cumprido. Leva discurso escrito e tem de topar um ponto alto, talvez um banco de jardim. E dali dizer das suas.

Desce a avenida e pensa em como o seu povo é um despudorado fatalista. Pensa que o queixume constante se veio juntar a um Janeiro gélido e às casas de frinchas abertas, sem aquecimento, originando a tempestade perfeita.

O português – pensa também – é tão fácil de oprimir. Não é uma multa de 200 euros pesada maquia para o fim do mês? Eis um povo geneticamente habituado a obedecer, vergonhosamente maltratado pelas suas elites, oportunisticamente sem levantar ondas, quase sempre. 

Mas há momentos em que a tragédia parece estar caligrafada no destino. Uma sombra, um ventanejo súbito, um aperto nas têmporas, uma respiração sustida sem razão.

A Senhora Joaquina engasga-se com a maçã, começa a tossir em protesto, tudo anda à roda, primeiro é só uma impressão na garganta, depois o ar custa a passar. Ao mesmo tempo, ali a trinta metros, devido ao toque por trás de um veículo apressado, um rapaz cai da mota na curva. O rapaz estendido no chão e a mota a deslizar. Alguém perto dele corre para o ajudar, toca-lhe ao de leve, pergunta-lhe como se chama, o que sente. Alguém passa perto e grita enfurecido ao socorrista improvisado: devia estar a usar máscara! 

Ao mesmo tempo a Senhora Joaquina vai tossindo, apertando a mão contra o peito. A ela ninguém se chega, apenas assistem, uns estacando, outros virando o pescoço enquanto continuam a marcha. 

Dali a dois meses o rapaz do acidente está quase recuperado com muito esforço e muita fisioterapia. A Senhora Joaquina jaz nos Prazeres.

Quanto vale a liberdade? Valerá, até, a morte?

Cada um encontrará a resposta se nela tiver curiosidade.

Há uma folha a bailar pela avenida. Ainda está presa entre os arbustos dos jardins, ordeiros, lado a lado com as calçadas. Já desbotada, conseguem-se ler alguns trechos:

Acredito na música,

acredito em longas conversas acompanhadas por licores de fruta e beijos-surpresa,

acredito em acreditar que a paciência leva a algum lado (…)

acredito num mundo enorme feito de mil histórias diferentes, todas elas certas, todas elas erradas,

acredito que a vida é muito mais ampla, mágica e bem-sucedida do que os políticos nos fazem crer,

acredito que o medo é uma arma letal,

e o amor um escudo invencível, 

acredito que as mentiras que nos contam são um cancro que se auto-ataca

e a verdade é uma raiz profunda que nem uma retroescavadora consegue arrancar. 

(…)

Não são as pessoas que estão doentes, a sociedade é que o está.

O confinamento é um eterno adiamento.

Leia o CENTRO COMERCIAL LIBERDADE – Capítulo I

Leia o CENTRO COMERCIAL LIBERDADE – Capítulo II

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