Vasco Gato | Poeta

I

Ao encravar a fita, qual o fotograma que te calhou?

Não finjas que não foi o que escolheste. Agora que tens tempo para o fitar demoradamente, o que diz ele da tua «vida normal»? Amas o lugar onde estavas, o lugar onde passaste a estar inapelavelmente?

Nesta espécie de baptismo, vês-te obrigado a mergulhar nas águas da tua morte. Se morresses agora, o que diria isso de ti? Olha bem o fotograma, escuta a sua música sumida.

Contempla a tua nudez.

II

Vejo da janela uma paisagem de ruínas. Não é o rescaldo panorâmico de uma guerra nem a descoberta de pedras, enleadas ainda, de uma antiga civilização.

Vejo da janela o mundo tal como ele existe na sua operação normal. Vejo ruínas porque as ruínas são uma espécie de lápide na paisagem. Tornam presente o que está ausente.

E penso em ti, Al Berto. Penso em ti quando escreveste: «A dor de todas as ruas vazias». Era outro tempo, claro. Outro cenário de desaparecimento. Um refrão mais privado. Inalienável.

Permite, no entanto, que me sirva do gume do teu olhar. Dessas ruas vazias que comportam uma dor. Bancos vazios, praias vazias. Cumprimentos tombados no chão, sem se cumprirem. Circum-navegações. O espaço interdito. O outro interdito.

Os corpos escondem-se para se preservar. Porém, não se escondem para durar. Essa é uma digressão fabulosa da inteligência. 

III

As nossas mãos deixaram de se contagiar. E o que fica? Não sei.

Para já, um disparate biológico. O meu corpo, o teu corpo. Estamos todos ligados à máquina da nossa solidão.

E eu, murado aí, nesta doença que assola até os de perfeita saúde, olho de soslaio para esse pormenor calado: a humanidade também precisa de hospedeiros.

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