Joana Froes | Consultora em Saúde Preventiva Feminina | Activista

Por detrás da recente pandemia da covid-19 esconde-se uma multitude de outras pandemias, que merecem ser lembradas, e colectivamente reconhecidas, como flagelos partilhados por todas as sociedades, com efeitos avassaladores em todos os cantos do Mundo. Com a indiscrição de serem todas visíveis a olho nu.

Senão vejamos:

O que dizer da pandemia da pobreza, da criminalidade, do tráfico de seres humanos, de órgãos, de armas, de droga, ou de influências?

E sobre a pandemia da fome, da discriminação, da desigualdade, da intolerância, do racismo e da xenofobia?

O que pensar da pandemia da violência doméstica, infantil, geriátrica, nas escolas, no local de trabalho, nas ruas, nos estádios?

E a pandemia do fanatismo, da comunicação violenta, do ódio, do homicídio, infanticídio e ecocídio?

Como encarar a pandemia da doença mental, da doença crónica, das doenças autoimunes, do cancro, da subnutrição, e de tantas outras maleitas?

O que julgar acerca da pandemia da censura, da tortura, dos conflitos armados, dos deslocados internos, refugiados, prisioneiros de consciência, crianças-soldados?

O que opinar sobre a pandemia da exclusão social, dos sem-abrigo, do desemprego, dos escravos, dos trabalhadores ilegais, da prostituição, da violência contra as mulheres?

E a pandemia da mortalidade infantil, dos abusos de menores, da pedofilia, do bullying, da iliteracia, da delinquência, da toxicodependência, do medo?

O que dizer da pandemia da dívida externa dos países, da corrupção, da evasão fiscal, da concorrência desleal, do incumprimento, dos monopólios e cartelização, do extermínio da biodiversidade?

E sobre a pandemia do abuso de poder, dos desvios de fundos, da impunidade, da tecnocracia, do capitalismo selvagem, das violações de direitos civis, políticos, sociais, económicos e ambientais, dos atropelos às Constituições, das transgressões de acordos e tratados internacionais?

Como podemos continuar a acreditar que estas pandemias não constituem uma realidade, que mais ou menos distante, são parte da Humanidade? Até quando vamos admitir conviver com a pandemia da desumanização, e delegar as soluções nas mãos de actores que são os mesmíssimos actores que a desencadeiam ou perpetuam? 

Dizia Albert Einstein que não podemos resolver um problema com o mesmo nível de pensamento que os criou. 

Olhemos friamente para a “única” pandemia oficial à data desta reflexão. O que nos trouxeram as recomendações e soluções apresentadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), União Europeia e governos nacionais? Uma emenda pior do que o soneto, soneto esse que a História julgará a seu tempo. 

E onde está a maioria da sociedade civil? Onde está a responsabilidade individual e o dever de lutar contra o que não funciona e declaradamente atenta contra a integridade física, psicológica e moral dos cidadãos?

Está adormecida, alheada, amedrontada, demasiado confortável numa zona de desconforto aparentemente segura, assegurada por uma comunicação social politizada, amoral, doutrinadora de massas e indutora de pensamento acrítico, intolerante ao debate ou discurso discordante.

O momento é de despertar e conceber que o Mundo está bem para além das quatro paredes de uma casa, de um círculo de amigos e família, um local de trabalho – para quem ainda o tenha –, e um destino de férias. 

É tempo de reconhecer que estamos perante uma guerra silenciosa e cega contra a Democracia. Uma guerra insidiosa que diariamente ceifa vidas, direitos, deveres, liberdades e garantias e que só será vencida com a vontade, compromisso e convicção de cada pessoa que considere valer a pena habitar este planeta. 

“A Democracia viva cresce como uma árvore, de baixo para cima.”. Lembra-nos sabiamente Vandana Shiva.

Quando iremos aceitar que as instituições, nas quais temos depositado a confiança para resolver os desafios mundiais, estão obsoletas, incapazes de enfrentar as crises que assolam a Humanidade, e que urge uma participação colectiva, uma cidadania activa e esclarecida, por parte de todos nós?

Desde quando a Paz se constrói na inércia, apatia e desresponsabilização social?

A pandemia da desumanização é a fotografia do presente, que serve para nos ilustrar o grau de evolução civilizacional em que nos encontramos. E o grau de evolução não se pode medir pelo nível de progresso tecnológico, sem que esse seja acompanhado por sociedades prósperas, felizes, pacíficas, respeitadoras da diversidade, dos valores democráticos, da dignidade da pessoa humana, dos animais e ecossistemas. Um novo Mundo é possível, mas está nas mãos de cada cidadão e cidadã a sua construção.

Vilamoura, 11 de Março de 2021

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