Gabriela Ruivo Trindade | Escritora

Os escritores dividem-se em dois grupos: os que trabalham noutra actividade e meia-dúzia de afortunados que se podem dedicar inteiramente à escrita. Estes últimos, geralmente, passam a vida fechados em casa; os mais sortudos a escrever, e os outros, que na maioria dos casos são outras, a fazer malabarismos domésticos para conseguir escrever. Atenção que estou a falar na generalidade. Sei que há muitos homens que se dedicam às tarefas domésticas. Põem o lixo lá fora, por exemplo. E depois fica o caixote sem saco do lixo. Ou a roupa na máquina, mas encontrar o programa requer toda uma técnica que lhes deixa os neurónios à beira de um colapso. Também tiram a louça da máquina, e depois andamos à procura da tampa da panela e encontramo-la na gaveta dos panos e das pegas. E cozinham, claro, mas só se não tiverem de picar cebola. É que devem ter as glândulas lacrimais mais sensíveis, não sei. Ou então acham que um deve homem chorar, sim senhor, mas nunca por causa de uma cebola. 

Bom, mas onde eu queria chegar era aqui: a quarentena de um escritor (desses que pertencem à tal meia-dúzia) não é muito diferente da vida normal, se é que algum se pode gabar de ter uma. Normal, quero dizer, não vida, obviamente; e, ainda assim, esta questão poderia conduzir-nos por interessantes atalhos reflexivos, uma vez que, tantas vezes, sentimos que temos, não uma, mas várias vidas; outros haverá que penam por nem uma conseguir ter, digna desse nome, pois, não raro, somos assaltados por essa incapacidade de viver a vida do comum dos mortais. Já me estou a dispersar outra vez. 

Vamos a exemplos práticos: os meus dias de quarentena até que têm sido mais animados do que os outros. Para começar, tenho saído quase todos os dias para uma pequena caminhada. Estimo que daqui a pouco tempo não o possa fazer, pois parece-me que o governo vai ser obrigado a tomar medidas drásticas. É que as pessoas continuam a passear em grupo, jogar à bola, tomar banhos de sol, como se nada fosse. Portanto, daqui a uns dias, a minha quarentena ficará muito mais parecida com a vida normal. Também cozinho mais. A comida vai-se num instante. E às vezes, tenho a sensação de que voltei atrás no tempo: “Não se deitem tarde!”, “Arrumem o quarto, parece uma pocilga!”, “A roupa suja é para ir para o cesto!”, “Já é meio-dia, levantem-se!”, “Não te tenho visto fazer nada, além de dormir e jogar no computador!”… Uma espécie de regresso ao passado com dois miúdos de quase dois metros de altura. Por outro lado, tenho trabalhado mais. Entre projectos pessoais e colectivos, de escrita e tradução, o volume aumentou consideravelmente. Não me posso queixar de monotonia. Delícias da quarentena. 

(Texto originalmente escrito em Abril de 2020)

Leia o DIÁRIO IV

Leia o DIÁRIO III

Leia o DIÁRIO II

Leia o DIÁRIO I

BLOG

Livros da Autora

Apoie o Farol XXI