Elisabete Tavares | Jornalista & Membro da Plataforma Cívica – Cidadania XXI

Com a declaração de pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2020, surgiu o jornalista-agente. Para esta nova espécie de ‘jornalista’, a principal função não é relatar os factos de forma objetiva e imparcial, nem investigar e questionar. Não. A missão deste tipo de ‘jornalista’ é outra: levar os cidadãos a cumprir as regras ditadas pelas autoridades. A portarem-se bem. A agirem de forma ‘correta’. Da forma ‘autorizada’. 

A missão aparente deste ‘jornalista’ é ajudar as autoridades a criarem ‘bons cidadãos’. Sente-se bem por estar a ajudar os cidadãos a aprenderem a ‘cumprir o seu dever’. É um ‘jornalista’ que seleciona com cuidado os factos que vai divulgar para estarem em linha com o que as autoridades recomendam. É essa a sua ‘responsabilidade’.

Este jornalista faz questão de ajudar a desacreditar, denegrir e a queimar em praça pública todos os estudos, cientistas, peritos, especialistas, médicos e todos os que se oponham às autoridades. É esse ‘o seu dever’. É para ‘o bem de todos’. E ele acredita mesmo nisso. O jornalista-agente tem alergia ao contraditório.

De igual modo, esta nova espécie de ‘jornalista’ divulga com orgulho todos os apelos da polícia para que cidadãos denunciem e entreguem às autoridades os vizinhos, os amigos, os familiares que não cumpram as regras ditadas pelo regime. Também se orgulha de fazer reportagens a mostrar ao mundo os rostos dos cidadãos que ‘deviam ter vergonha na cara’ por desobedecerem ao regime. Aponta-lhes o dedo. A culpa e a vergonha passam a ser centrais na cobertura ‘jornalística’ desta nova subclasse de ’ jornalista’.

Todas as manifestações de cidadãos contra as políticas do regime são ignoradas. Se alguma manifestação  juntar milhares de pessoas, este ‘jornalista’ talvez mostre imagens do final do protesto, quando já só lá estavam meia dúzia de pessoas. E a ‘reportagem’ irá centrar-se em culpar e envergonhar os participantes no protesto. Afinal, estão contra o regime. São ‘maus cidadãos’. 

Também faz parte da sua ‘missão’ divulgar as ameaças de chefes da polícia para amedrontar a população. É para ‘o nosso próprio bem’.

Se forem instalados postos de controlo policiais ilegais, este ‘jornalista’ não vai questionar. Se houver sentenças judiciais a rejeitarem medidas do regime, o novo tipo de ‘jornalista’ vai ignorá-las durante o máximo de tempo possível. E não se acanhará de servir como meio de aviso a outros juízes, publicando notícias que ameaçam com possíveis represálias os que foram responsáveis por sentenças ‘anti-regime’. 

Este ‘jornalista’ também não hesita em queixar-se aos seus superiores dos colegas que se mostram desalinhados com a ‘missão’ de fornecer apenas os dados que o regime aconselha. 

Este ‘jornalista’ é amado pelas autoridades. É ‘patriota’. É visto como um jornalista ‘de bem’, de confiança, amigo. Tem pela frente um caminho glorioso aos olhos do regime.

Para este ‘jornalista’, os factos são irrelevantes. Só contam os factos ‘autorizados’. O importante é fazer cumprir o que as autoridades mandam. 

Este novo tipo de ‘jornalista’ está a matar o jornalismo. Mas não faz mal. Porque, mesmo que não saiba, a sua missão principal é clara: proteger e salvar o regime.

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