Raquel Ochoa | Escritora

João desce a avenida. Senta-se num banco para observar o espectáculo. Hoje a avenida está cheia, à pinha, dos Restauradores ao Tivoli com… com gente!

Ele veio só passear o cão. Atenta aos cartazes: 

“Preciso de dançar”, 

“O amor e a verdade vencerão”,

“Liberdade é o oxigénio da alma”

Mas há outros ainda mais estranhos, nem compreende o significado, linguagem demasiado prática ou demasiado técnica, no seu entender. Por exemplo:

“Testes RT-CPR = Mentira”

“Ciência peer review, não a de trazer por casa”

“Deus nos proteja dos germofóbicos “

“Quando uma lei é injusta temos o dever moral de desobedecer…”

Rende-se, que beleza ver tantos humanos, parece um festival. Há gente normal, muito normal, e assim-assim. Muitas crianças, ao colo, pelas mãos dos adultos, nos carrinhos de bebé. Parece… parece… um ambiente sadio.

As únicas pessoas de máscara são uns poucos polícias que os flanqueiam, espaçadamente, também eles civilizadíssimos.

João enche-se de sentimentos contraditórios, atracção e repulsão. Será que se devia juntar? O grupo não pára de crescer. Gritam, assobiam e berram em plenos pulmões: Liberdade! Têm fome dela. Há tensão naquela paz. Sente-se. Nos sorrisos cúmplices, não há hesitações: estão prontos para a agir.

João vai-se aproximando, começa a descer, está só ali a passear o cão, aquilo é um passeio higiénico ocasional, uns minutos a espairecer.

A mulher deu à luz há cinco meses. É australiana, escolheu Portugal para viver desde 2016. Quando decidiram viver aqui, depois de experimentarem dois anos no seu país, fizeram planos para a vida. Tinham bilhete marcado para Melbourne e assim dar a conhecer o seu bebé. Agora nem lá podem ir nem os pais dela podem cá pôr os pés. Todos prisioneiros dos seus países. Até quando? Cada vez que ela formula esta pergunta entra num rol de tristeza e depressão a que ele não consegue fazer frente.

Passa horas em frente à câmara, não faz mais nada, o seu filho já “reconhece” a avó. Ela chega a deixar o bebé em frente ao ecrã de televisão projectando a videoconferência, ausenta-se para a cozinha e deixa a avó a “tomar conta” do bebé na cadeirinha. “Vai lá, qualquer coisa eu grito e tu ouves”, diz-lhe a mãe.

Há gente de megafone, há gente silenciosa. Muito idosos e muito novos também compareceram. João deixa-se envolver pela multidão. Repara que muita gente trouxe os seus animais de estimação, tornando o encontro acolhedor. Dizem-se piadas, e a distância de segurança é uma delas. De repente vê o colega Simões ao seu lado. Reconhece-o de imediato, mas ele não o vê a si. Vai sem máscara e, como no dia-à-dia nunca se vêem de cara descoberta, não é fácil a identificação mútua. Mas é o Simões, quem diria, ali a cinco metros de si a gritar: “Liberdade! Liberdade!” Quantos no seu trabalho não abrem a boca, mas estão ali entre os milhares de manifestantes?

João deixa-se ir ficando para trás, tentando esquivar-se, observa sem querer ser observado. Repara de novo nos polícias. Protegem os manifestantes, não o contrário.

O seu cão envolve-se na brincadeira com uma cadela, num ápice têm as trelas interlaçadas, e ele no meio. Nesse mesmo momento, um homem ao seu lado, projecta a voz no megafone gritando quase nos seus ouvidos: “Covideiro, tira a máscara! Tira a máscara, covideiro!” Como não consegue sair dali sem deslindar as trelas, esta frase ressoa nos seus ouvidos sob vários níveis de profundidade, chega-lhe ao fundo.

O hábito de desobedecer, o hábito tão português de não levantar ondas, vê-se ali despedaçado. A multidão segue a marcha, mas ele imobiliza-se. Sente-se curioso, mas não a acompanha, tem medo de encontrar mais colegas e de ser mal visto. O que dirá a comunicação social desta gente? Está-se mesmo a ver: amanhã é um chorrilho de “Chalupas pela Verdade”.

Porém, não quer ser covideiro. Ser covideiro também é péssimo… Aliás… o que é ser covideiro? O tipo aterrorizado que não suporta ver alguém indiferente ao seu terror? Ou é o tipo que segue as regras “provisórias”, concordando ou mesmo discordando delas, porque lhe dizem assim proteger-se a si e aos outros? Alguém lhe responderia se ele perguntasse?

É complicado… Abdica de pensar. Fica só, sem mexer um dedo, enquanto aquela gente vai gritar para os Restauradores. Assim é mais fácil. 

Leia o CENTRO COMERCIAL LIBERDADE – Capítulo I

Leia o CENTRO COMERCIAL LIBERDADE – Capítulo II

Leia o CENTRO COMERCIAL LIBERDADE – Capítulo III

Apoie o Farol XXI