Gabriela Ruivo Trindade | Escritora

Sexta-feira Santa, e os números, diabólicos. Como se engolem esses números? Assamos pão no forno, fazemos bolos, folares de Páscoa, ocupamos as mãos e a boca, a mente, e os números? Como visualizar todos esses corpos? A morte só existe no singular. E no singular ela é infinita. Mas assim, perdida nesse plural imenso, sem dimensão palpável, torna-se abstrata, fraca na sua representação, uma aragem que nos leva o pensamento. Permanecemos reclusos num porto seguro, ou assim queremos acreditar, mantemos os gestos quotidianos, um pé atrás do outro, os braços sem os abraços, ou com os abraços ao rubro, porque a urgência de um carinho poderá ser o que nos salva. 

Desenhamos beijos no ar, lábios que se inventam, bocas que se abrem para o desconhecimento dessa ameaça corporal; o corpo uma arma, um comportamento de risco, um território contaminado, terreno minado; arrastamo-lo até à banheira e deixamos a água correr, cascata de vida, o cabelo que se confunde com a chuva, a água nas costas e nas pernas, o vapor colonizando as paredes, fazendo-as transpirar de um desejo cálido, o corpo morno aprendendo a existir sozinho, a ocupar o espaço devido, a não invadir esferas alheias, a criar um espaço único de intimidade, um espaço fechado sobre si mesmo, hermético, onde só os próprios despojos possam sucumbir. 

Um dia voltaremos a construir casas, pontes, a abrir janelas e portas, a sacudir os tapetes, a deixar as cortinas dançar, mas por agora fechamos os olhos, a janela, recolhemos os braços e entregamo-nos a esta viagem solitária em redor do próprio umbigo. Acabados de nascer, não poderíamos adivinhar o que nos espera. O choro de um bebé que nasce hoje é igual ao de todos os que nasceram antes dele; e, porém, talvez o corpo pressinta, talvez as células possuam uma espécie de sabedoria milenar, talvez os pulmões já venham preparados, com instruções escritas nas estrelas ou na rota dos planetas. Quem sabe amanhã não acordamos deste pesadelo, e os números se tornem suportáveis, os que sempre desconhecemos, e que convém que permaneçam no anonimato. O pão de deus é feito com massa levedada, um cheirinho de coco, um consolo macio como a textura da farinha. 

A sexta-feira é santa, mas a morte, diabólica, leva-nos por caminhos obscuros de onde jamais sairemos ilesos. Ainda que lhe sobrevivamos, ela já cavou em nós o fosso da cruel tranquilidade que se apoderou dos dias. As noites não são melhores, já que todos os gatos se tornam lobos, porventura abutres, tecendo emboscadas em atalhos insuspeitos. Cristo carregou a cruz e nós carregamos números impossíveis, retalhos de gente, rostos que nunca veremos. A matemática a revelar-se inútil, porque jamais poderemos contar os corpos; jamais os poderemos enumerar, imaginar. Em vez disso, vamos para a fila do pão, do arroz, do papel higiénico, ou de outro bem qualquer que resolvemos classificar de imprescindível, para não sermos obrigados a assumir a escassez do imprescindível de facto. Que é muito mais do que o ar que respiramos. A vida está na peneira, e cada um de nós, um grão de farinha. As preces, o pão por deus.

GRT

Nota: Este texto foi originalmente escrito em vésperas da Páscoa de 2020

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