O Governo autorizou, por portaria, a realização de auto-testes rápidos, comprados a menos de sete euros em farmácias e supermercados. O negócio prospera: em dois dias foram compradas 10 mil unidades. Os resultados, porém, prometem assustar e ser pouco úteis. Segundo as características dos testes indicados pelo INFARMED, em prevalências baixas os falsos positivos serão 10 vezes mais do que os infectados.

João José F. Gomes | Professor do Departamento de Estatística e Investigação Operacional da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Pedro Almeida Vieira | Engenheiro biofísico e economista, doutorando em Políticas Públicas do ISCTE

Com cerca de 10 mil unidades já vendidas em apenas dois dias, os denominados testes rápidos de antigénio (TRAg) de diagnóstico covid-19, comercializados em farmácias e diversas lojas (Pingo Doce, Well’s e Auchan), apresentam um número expectável (valor esperado) de falsos positivos 10 vezes superior ao número de pessoas infectadas. Esta possibilidade advém da actual baixa prevalência da doença e sobretudo das características do teste fabricado pela empresa sul-coreana Biosensor e comercializado pela Roche, designadamente a sua especificidade, que indica a proporção dos não-infectados que apresentam teste negativo.

A partir de informações públicas veiculadas pelo INFARMED, os TRAg da Biosensor apresentam uma sensibilidade de 90,6% – ou seja, previsivelmente detectarão nove em cada 10 infectados na comunidade. Porém, tendo em conta que os casos activos em Portugal rondam actualmente as 26 mil pessoas, mostra-se muito provável que a prevalência da covid-19 entre os utilizadores dos TRAg, maioritariamente assintomáticos, seja ainda menor.

Recorde-se que a taxa de positividade na primeira semana de testagem massiva nas escolas foi de apenas 0,1%, resultante de 80 casos positivos em mais de 82 mil testes. Deste modo, e face à sensibilidade de 90,6% – que até deverá ser mais baixa, uma vez que esse valor de referência, de acordo com o INFARMED, se observa quando a recolha é feita por profissionais, e não em auto-teste – estima-se que sejam encontrados apenas 14 infectados nos 10 mil testes já comprados. Isto assumindo que na comunidade haja 0,15% de infectados, um valor intermédio entre a prevalência actual (0,25%) e a positividade dos testes escolares (0,10%).

Porém, os casos positivos serão muitos mais, embora sobretudo por causa dos falsos positivos – ou seja, uma parte muito considerável dos testes indicarão um resultado positivo, mas a infecção não existe. Esta “inevitabilidade” advém da segunda característica dos testes confirmada pelo INFARMED: a especificidade. Segundo esta entidade estatal, os testes da Biosensor apresentam uma especificidade de 98,6%, quando usados por profissionais. De uma forma muito simplificada do ponto de vista estatístico, este valor indica que em cada 1.000 testes feitos por pessoas não-infectadas, se estima que 986 confirmarão que não estão infectados, mas há 14 que serão surpreendidos com um teste positivo, embora, repita-se, não estejam infectados. São os chamados falsos positivos.

Assim, se se extrapolarem para os 10 mil testes já vendidos, estima-se que ocorram 154 casos positivos, dos quais 140 serão falsos positivos (não-infectados) e apenas 14 verdadeiros positivos (infectados), havendo apenas um infectado que apresenta um falso negativo. A esmagadora maioria dos testes (9.845 em 10.000) mostrarão aos utilizadores que desperdiçaram dinheiro. Até porque quaisquer que sejam os resultados, mesmo os positivos (verdadeiros ou falsos) terão sempre de ser sancionados por um teste PCR por “orientação” da Direcção-Geral de Saúde (DGS). Caso se realizem 100 mil testes, os números previsivelmente sobem (quase) proporcionalmente: 1.534 casos positivos, dos quais 1.398 falsos positivos e 136 verdadeiros positivos, havendo 14 falsos negativos e 98.452 verdadeiros negativos.

Em suma, aplicando o Teorema de Bayes a estes resultados – e cruzando a prevalência da covid-19 na população e as características dos testes –, pode-se dizer que os TRAg valem pouco mais que zero como ferramenta de controlo de uma pandemia, e que servem sobretudo para fazer pouco mais do que beneficiar um sector empresarial específico. Para os utilizadores, de pouco servem, a não ser escoar dinheiro. De facto, mesmo com um resultado positivo, a probabilidade dessa pessoa estar mesmo doente é de apenas 8,9%. Ou, por outras palavras, a probabilidade de uma pessoa não estar doente com teste positivo é de 91,1%. Quanto às pessoas que tiverem teste negativo, a probabilidade de não estarem infectadas é quase de 100%. Estima-se que apenas um em cada 10.000 testes com resultado negativo esteja errado. Ou seja, a probabilidade de um falso negativo ronda os 0,01%.

De acordo com a Portaria nº 66/2021, do passado dia 12 de Março, a realização destes auto-testes para uso não-profissional passou a ser permitida em regime excepcional por seis meses, permitindo assim abrir um negócio de massas. Os resultados, porém, não têm qualquer validade oficial nem constituem prova para, por exemplo, viagens ao estrangeiro. Os utilizadores são convidados a inserir os resultados num servidor da DGS, ainda não disponibilizado, e em caso de teste positivo realizarão então um teste PCR oficial. O custo de cada teste ronda os 7 euros.

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