Lourenço Bray – Consultor

Lourenço Bray

Está a ser interessante (mas desagradável) viver num tempo em que se vê confirmada a tese de que as pessoas muito bem-intencionadas são mais perigosas e eficazes a causar os piores males do que a Humanidade pode gerar. 

E sobretudo como funcionam os fenómenos de massa. Esta semana, o Público noticiou, com orgulho, que a PSP vai “vigiar abraços nas escolas”, e que os “restaurantes se queixam das pessoas não cumprirem medidas e que querem multas mais duras”. Estas duas notícias, mesmo que falsas, e são certamente simplificações grosseiras, são reais no sentido em que foram genuinamente noticiadas por um jornal que no resto do tempo parecia “normal” e civilizado, e que escolhe este ângulo e essa mensagem. É apenas um, mas são todos iguais.

Normalmente a corrupção moral afecta franjas. No caso do covidismo, parece que parasita os hospedeiros e os torna não apenas indiferentes a óbvios totalitarismos – e a abusos, aos quais reagiriam noutro contexto – mas activamente entusiastas desses mesmos totalitarismos. Ainda há dias a Clara Ferreira Alves pedia “nódoas negras” em quem não usasse máscara.

Psicopatas ou pessoas genuinamente más são mais raras, e é complicado movimentar massas sem a mensagem de estarem a cumprir um desígnio muito belo e positivo. No caso do covidismo é “salvar vidas”, acho eu.

Existem algumas excepções históricas recentes, como o nazismo, que tende a ser explicitamente hostil e agressivo, com ideais que são abertamente ofensivos ou racistas. E mais recente ainda, o fundamentalismo islâmico, o DAESH-ISIS. O ponto fraco do ISIS (e dos nazis) foi serem tão hostis, tão niilistas e radicais na ideologia. Tal como os nazis, ficaram isolados, incapazes de fazer alianças, quer geopolíticas, quer com as populações que saqueiam e oprimem. A ideia da utopia do califado poderia ter tracção e até simpatia do ocidente (a “primavera árabe”…), mas rebentam bombas em mesquitas, e não têm outra linguagem que não a violência e a opressão pura e dura, e com extorsão às populações ocupadas e conflitos tribais.

Estas ideologias nascem de um ressentimento, e tornam explícito o seu ódio em mensagens e actos. Quando muito inspiram outros ressentidos, humilhados, mas não conseguem singrar de forma permanente.

Por outro lado, há toda uma panóplia de movimentos de massas a coberto de boas intenções, como o covidismo, que são mais perigosos em número absoluto, porque são mais sedutores e universais, visto virem num embrulho que parece eticamente sedutor e justo.

A tracção que o covidismo ganhou nos media não foi forçada. Foi espontânea. Nesse sentido parece que assistimos a algo semelhante à explosão do marxismo, e à sua persistência, mesmo em meios em que supostamente falamos de elites intelectuais, académicas e artísticas.

O comunismo-marxismo parte de conceitos bons – como igualdade, fim de opressão e prosperidade para todos –, mas levou e leva inequivocamente sempre a massacres, opressão e miséria. Só não é um dead dog (como diz o Solzhenitsyn) fora das realidades que já o experimentaram na pele. Continua a ser louvado e aceite. Os comunistas apelidados de “democratas”. Há uma disparidade total no tratamento dado ao comunismo e ao nazismo. Por exemplo, em redes sociais podemos postar iconografia comunista ou dizer que somos comunistas, mas se formos nazis devemos ter um ban para sempre. Mesmo nos Estados Unidos há jovens que se seduzem pelo marxismo. Os ideais são “bons”, rebeldes, anti-sistema. Parece haver compaixão pelos “fracos”. E explica porque há comunistas que não são apenas boas pessoas, são também inteligentes e civilizados. Caramba, conheço vários pessoalmente, e um Jerónimo de Sousa é um ser humano que prefiro inúmeras vezes a um Marcelo, um Rio ou um Costa. Acho que é genuinamente boa pessoa.

O problema é que reduzem a realidade a poucas dimensões, como relações de poder ou de classe, como se fosse possível simplificar a realidade a esse ponto. É como se pensassem no mundo sem qualquer resolução, de forma infantil e esquemática, sem perceberem todas as zonas cinzentas e complexas e os próprios pontos fracos. Não conseguem perceber que não conseguimos “agir” directamente na realidade para forçar um resultado, por mais positivo que fosse esse resultado em teoria. O sistema que pretendem gera sempre a mesma coisa: miséria, ditaduras.

No covidismo assistimos a um fenómeno bem real, muito semelhante. Querem “salvar vidas” como a Santa Inquisição havia de querer salvar as nossas almas. Reduzem a existência e a percepção da realidade a uma só variável: mortos-covid [agora é R(t), porque agora “só” temos, quatro ou cinco ou menos de uma dezena de mortos covid-19, por isso já não dá para criar pânico]. Nem que seja à força. E querem martelar a realidade com lockdowns, com máscaras, com encerramento de escolas, com multas a pessoas que comem uma sandes, com horários ridículos, com cafés no postigo, com toda uma panóplia de encenações absurdas e burocráticas – tal como o comunismo. 

Não faltam os chavões moralistas – como o do bom cidadão Bruno Nogueira do “a liberdade acaba quando se coloca em risco a saúde dos outros”. É uma frase absolutamente fascista/comunista na essência. O conceito de “saúde dos outros” é tão impreciso que poderia incluir, por exemplo, a liberdade de conduzir um automóvel que pode atropelar alguém. Estou em grupos de bicicletas, e asseguro que há muitos activistas que só ficam satisfeitos quando os automóveis forem simplesmente proibidos nas cidades. 

Como o comunismo, o nazismo ou o fundamentalismo islâmico, também o covidismo reduz a realidade a poucas variáveis. Se nos primeiros é classe, raça, religião, no último prende-se com indicadores-covid que vão variando: casos, mortos, UCI, agora é o R(t). E reduz a realidade a essa variável. Acredita que se pode agir de forma directa nessa variável, sem compreender o complexo ecossistema e as consequências práticas de terraplanar tudo o resto.

É esse o ponto fraco do covidismo. Infelizmente, também é o ponto forte. É sedutor ter a oportunidade de “praticar o bem”, e fazer parte de um grupo de uma forma tão fácil. É também mais confortável reduzir a realidade a algo que se compreende e sobre o qual se pode agir. E simplesmente obedecer “às autoridades”, aos “especialistas”, aos media.

Resta saber quanto tempo vai durar o delírio. Esperemos o melhor.

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