Pedro Girão | Médico Anestesiologista

Naquele tempo, durante a Grande Pandemia do início do século XXI – época em que a Medicina foi elevada à categoria de Ciência Infalível e as Grandes Decisões do Mundo estavam nas mãos dos Médicos de Saúde Pública e de Cuidados Intensivos –, a Enciclopédia Britânica definia “Medicina” em dois parágrafos. Neles usava quatro vezes a palavra “Ciência”, quatro vezes a palavra “Arte” e quatro vezes a palavra “Prática”, e usava todas essas palavras com igual Força. Mas o povo ignorava a Verdade.

Naquele tempo, as pessoas ouviam falar, e acreditavam, nas palavras dos Grandes Sábios: os Especialistas, os Comentadores, os Cientistas, os Médicos, os Jornalistas, os Políticos; e ignoravam o que estava nos Livros. E o que lá estava escrito era que a Medicina não é uma Ciência Exacta, mas sim Prática que tem tanto de Ciência como de Arte. A Medicina é uma Ciência Aplicada ao Homem, onde a Incerteza e o Risco são constantes e imprevisíveis, e a Matemática comete nela Erros Extraordinários porque só funciona com Leis que são exactas, fixas e imutáveis. Mas as pessoas viviam nas trevas e ignoravam tudo isso.

Por causa da Ignorância, as pessoas estavam sujeitas à Manipulação dos Grandes Sábios. E não se apercebiam que os Confinamentos não eram Ciência; que as Medidas não eram Ciência; que os Testes não eram feitos com as regras da Ciência; que os Números e as Estatísticas não eram apresentados conforme a Ciência; que os Tratamentos não estavam aprovados pela Ciência; que a Repressão e o Policiamento não eram Ciência. Mas acreditavam em tudo o que lhes diziam, porque tinham Medo. E tinham Medo porque os Grandes Sábios tinham também, eles próprios, Medo – e o Medo é uma forma particular de Ignorância.

Naquele tempo, os Grandes Sábios não gostavam de admitir que a Medicina não era uma Ciência Exacta, porque, para exercer essa Prática, que tinha tanto de Ciência como de Arte, era necessária uma grande dose de Humanidade. E os Grandes Sábios e Cientistas, desse tempo, acreditavam apenas no Número, no Protocolo, na Regra, nas Evidências, e confiavam em tudo isso cegamente porque os seus corações eram duros e as suas mentes eram fechadas, e porque tinham o Pavor do Outro, e tinham o Desconhecimento do Humano, e tinham o Horror à Alternativa. Tudo isto era assim, mas afirmavam outras coisas diferentes disto, enchendo a boca com palavras como Ciência, Morte, Evidências, Transmissibilidade, Emergência, Testagem, Exponencial e Erre-Tê, porque se tinham tornado Peritos em Manipulação.

E durante muito tempo eles tiveram Medo em nome da Medicina. E mentiram em nome da Medicina. E deixaram de tratar doentes em nome da Medicina. E olharam apenas para si próprios em nome da Medicina. E insultaram e perseguiram os Defensores da Ciência em nome da Medicina. E criaram os Passaportes de Pureza Pandémica em nome da Medicina. E assassinaram a Ética e a Liberdade em nome da Medicina. E os seus estudos deixaram de ser feitos pelo método da Dupla Ocultação, e passaram a ser Totalmente Ocultos. 

E então, numa Sexta-feira de Abril, a Medicina morreu.

Mas, após a Terceira Vaga, os Defensores da Ciência, que sempre tinham acreditado na Ciência e na Arte da Prática da Medicina, continuaram a proclamar que Ela estava viva. E muitos deles, escondendo-se atrás da Humanidade e da Sensatez, recorreram à Natureza e invocaram a Sazonalidade, e todas Elas lhes deram refúgio e guarida. Mas alguns deles foram presos, e atirados aos Leões do Circo dos Media, mas estes nada lhes puderam fazer porque estavam paralisados pela Hipocrisia. 

Então, muito lentamente, após a Terceira Vaga, a Medicina começou a ressuscitar, como a Arte e a Ciência que sempre fora antes de ter sido morta pelas Ondas do Medo da Grande Pandemia. E cada vez mais pessoas, e mais Médicos, perceberam que cada Homem era diferente. E cada Doença era diferente em cada Homem. E cada Tratamento era diferente em cada Homem. E o Risco era mensurável, mas inevitável em todas as circunstância. E a Morte era tão natural como a Vida, a Saúde ou o Acaso. Mas, até isso suceder, muitas pessoas viveram ainda muito tempo na Infelicidade e no Pavor, obedientes, escravas e defensoras daquilo que os Grandes Sábios proclamavam ser a Única Solução, porque um povo que anda muito tempo nas trevas acaba por tomar prazer em andar nas trevas. 

E chegou então, na Primavera, a Páscoa da Medicina. E aos poucos se fez Luz. E por fim, as trevas do Medo se desvaneceram. E a Vida renasceu. Na verdade, continuou.

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