Cristina Crespo | Enfermeira

Passámos um Inverno difícil, é verdade, e se há uma certeza que agora temos é de a COVID-19 ter vindo para ficar – como os coronavírus vieram para ficar, há muitos anos, e ciclicamente surgem alguns mais difíceis de se tornarem endémicos… e que dão mais luta. Este, o SARS-CoV-2, foi um deles. Mas daqui a uns anos surgirá o SARS-COV-3, e depois o 4, e a seguir o 5, e o Mundo não acabará por isso. É a vida.

Entretanto, à medida que desconfinarmos é natural que os casos positivos aumentem. Porém, os mais idosos – a faixa etária mais atingida pela covid-19 –, já estão, na sua grande maioria, vacinados e assim mais protegidos de doença grave. Recordemo-nos da estatística da mortalidade: 87% dos óbitos com “teste positivo” acima dos 70 anos, sendo que 67% dos mesmos tinham mais do que 80 anos. Sabemos também que as crianças, na sua quase totalidade, não apresentam doença grave, algo que nos deixa muito mais tranquilos. E sabemos também ser essencial que respirem ar puro, pratiquem desportos em segurança, retomem gradualmente as suas atividades. As escolas são lugares seguros. A saúde mental é tão importante como a saúde física. 

Assim, que devemos ter então atenção no período que se avizinha?

Primeiro: apesar de termos uma grande “mancha verde” – leia-se, camas de cuidados intensivos (UCI) livres –, o grupo entre os 50 e os 79 anos, ainda não vacinado, deve ser aquele que se deve proteger nesta fase. Foi este o grupo que mais utilizou as UCI no último ano. Sobretudo quem ainda não foi vacinado e tem comorbilidades, ou ainda não teve contacto com o vírus, deve ser protegido e proteger-se. 

Sobre as vacinas, julgo que devo dizer o seguinte, face à minha experiência. Todas as vacinas no mercado para prevenir a covid-19 provocam alterações na coagulação – todas, sem exceção. São pouco frequentes as pessoas que manifestam essas alterações, mas existem. Mas não aprecio que os interesses das farmacêuticas se sobreponham à segurança das pessoas, e aquilo que está a acontecer é muito grave. Não é o “ocultarem esta informação”; é o só discriminarem uma marca, como se as outras também não pudessem provocar similares efeitos adversos. Poderão dizer-me que os estudos sobre a eficácia variam; que há mais estudos de uma vacina do que outras. Verdade. Mas todas, sem exceção, repito, podem provocar alterações. 

Quem ler a norma da Direcção-Geral da Saúde, ou quem já foi vacinado, sabe que existe um questionário em comum para as três vacinas agora comercializadas com as seguintes perguntas: “Toma medicação para a coagulação?” “Tem problemas de coagulação?”. 

Deste modo, o meu conselho é que ignore o ruído da comunicação social, e aconselhe-se junto do seu médico-assistente – ou daquele que melhor o conhece; pode ser o médico de família, mas também pode ser o cardiologista ou o hematologista –, e informe-se sobre a sua situação específica, o risco de desenvolver complicações, caso venha a ter covid-19, e se se justifica ou não ser vacinado. E qualquer que seja a vacina – porque, como já todos percebemos, a sua disponibilidade é muito baixa e as assimetrias não faltam. 

Como enfermeira, estas são as minhas recomendações: se receber a convocatória para a vacinação, reflita antes de dar uma resposta negativa. Aconselhe-se com o seu médico; não com as “notícias”. Para além disso, mantenha os habituais cuidados de higiene. Continue a evitar as refeições com pessoas fora do seu agregado familiar, para que assim possamos conviver com os outros ao ar livre, utilizando um distanciamento razoável. 

É hora de equilíbrio. As pessoas mais vulneráveis do nosso país precisam mais do que nunca da serenidade e responsabilidade de todos, para poderem sobreviver – também é disto que se trata. Para todos seguirmos em frente. 

Por fim, resta-me dizer que no início da pandemia tive muitas dúvidas, porque duvidar faz parte da natureza humana, mas depressa estas se dissiparam: os grupos de risco prioritários e os mais idosos devem ser protegidos. Quanto ao resto da população, a população saudável, já é outra história. Por isso, nessa linha, concordo plenamente com o nosso Almirante: “Não me venham com grupinhos”, porque “prejudica gravemente os verdadeiramente prioritários face à escassez de vacinas”.

Apoie o Farol XXI