Pedro Girão | Médico Anestesiologista

Naquele tempo, Roma era governada por um triunvirato: Cesar Marcelus, Pompeu Costus e Crasso Ruirrius. Tinha sido uma aliança de circunstância, provocada pela guerra contra os Covídios.

A história é conhecida: saldada por uma aparente vitória, essa guerra ameaçou eternizar-se, apesar da batida em retirada dos Covídios, mesmo se vez em quando ressurgiam para logo desaparecerem novamente. No fundo, apesar dos longos meses de batalha, os romanos tinham um desconhecimento quase total acerca das tácticas do inimigo. Assim, decididos a exterminá-lo, e apesar de terem propósitos e ambições totalmente diversos, os três homens uniram-se na instauração de um regime ditatorial.

Cesar Marcelus era o mais velho dos três, o representante da velha nobreza romana. Cansado pela idade, permanentemente temeroso pela sua saúde, tanto passava os dias enclausurado nas termas como deambulava pelas ruas de Roma, por entre o povo, vestido de forma indigna, em figuras de bobo. Era uma sombra do que antes tinha sido, e tornou-se quase impossível dizer se o seu terror pelos Covídios era uma manobra política de uma velha raposa, ou um indício de senilidade.

Pompeu Costus, mais conhecido pela sua habilidade no combate do que pelas capacidades de reflexão, não sabia o que pensar, e não tinha bases para decidir; mas, na dúvida, mantinha todo o exército em permanente alerta, e a todo o momento tomava medidas e contra-medidas que começavam a cansar a população. O desígnio de combater os Covídios, que ele impusera a toda a nação romana, tornava-se, cada vez mais, uma luta contra moinhos de vento, uma teimosia absurda, um reflexo de medo. Aqui e ali, focos de revolta iam surgindo.

Crasso Ruirrius, outrora o principal inimigo de Costus, era o membro menos influente do triunvirato. Bem se podia dizer que se juntara à liderança da ditadura apenas por não ter nenhuma alternativa clara para enfrentar os Covídios, que temia tanto como os outros dois. Colocado perante a opção de se opor a Costus, e manter o equilíbrio da República, ou de se unir a ele, na esperança de derrotar os Covídios a qualquer preço, Ruirrius optou pela segunda – um erro crasso, que a História celebrizou com o seu nome.

Enfim, todos o sabemos por isto, o triunvirato estava condenado ao fracasso. Tudo concorria contra ele: a fluidez esquiva dos Covídios, a progressiva indiferença do povo romano, o surgimento de novos tribunos a ameaçarem com os seus discursos inflamados a estabilidade da República, agora tornada em ditadura.

Enquanto durou o triunvirato, muitas famílias romanas viram a sua vida destruída pela doença, pela fome, pela miséria, pela morte. Os três homens caíram com estrépito, e não deixaram saudades, porque os cobardes caem rapidamente no esquecimento das gentes, e o povo romano percebera, enfim, que só o medo unia os seus líderes, e só o medo permitia a sua liderança.

Mas a História da revolução que os depôs fica para um próximo capítulo.

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