A covid-19 está a dar tréguas. E a mortalidade total da população portuguesa está agora em níveis muito mais baixos do que no ano passado, e em níveis próximos do período pré-pandemia. Porém, o país continua em estado de emergência sanitária. Na verdade, analisando em detalhe, existem motivos de preocupação, sobretudo em alguns grupos etários, mas que já nada têm a ver com o SARS-CoV-2. E nem vão melhorar com confinamentos nem máscaras. Na verdade, a fechar-se alguém, deveria ser os membros do Governo: deixando que apenas saíssem quando apresentassem um plano para reforçar efectivamente o Serviço Nacional de Saúde e recuperar meses de adiamento de consultas da especialidade, diagnósticos, exames e cirurgias. É isso que agora está a matar os portugueses. E notam-se sinais sobretudo no grupo entre os 55 e os 74 anos.

Pedro Almeida Vieira

Depois de um Janeiro de pesadelo – com uma mortalidade inaudita que coincidiu com uma onda de frio, o colapso do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e um incremento nos óbitos atribuídos à covid-19 –, Portugal parece ter regressado à “normalidade sanitária”, apesar de conviver no meio de sucessivos e artificiais Estados de Emergência. 

Porém, uma análise mais detalhada mostra que existem motivos de preocupação em termos de saúde pública. Os sinais de um forte abrandamento da pandemia – que entre 15 de Março e 15 de Abril terá causado a morte de apenas 230 pessoas – revelam agora as “sequelas” de um SNS que abandonou à sua sorte milhões de portugueses, suspendendo consultas de especialidade, exames, diagnósticos e cirurgias ao longo de um ano. Com efeito, o quase desaparecimento das gripes e pneumonias – que, por norma, antes da pandemia, ainda matavam média mais de mil pessoas no primeiro mês da Primavera – e a “sangria” causada pela elevada mortalidade em Janeiro e Fevereiro deste ano, deveriam ter como consequência uma maior redução da mortalidade em todos os grupos etários em relação ao período anterior à pandemia. E isso não está a suceder.

Para uma conclusão mais taxativa dever-se-ia realizar um estudo mais detalhado, tendo em consideração as causas de morte. No entanto, mesmo observando em detalhe a evolução da mortalidade total registam-se alguns sinais preocupantes, embora também outros que confirmam que a pandemia esteve longe de ser um mal para todas as idades.  

Assim, analisando para a população portuguesa a evolução da mortalidade total ao longo de 2021 – e confrontando com o ano passado (com os dois primeiros meses ainda sem afectação pela pandemia) e com a média pré-pandemia (2015-2019) – observa-se que os valores dos óbitos se aproximaram da média anterior à pandemia desde a última semana de Fevereiro. A partir de 10 de Março, a mortalidade total (média móvel de cinco dias) tem estado em 2021 sempre ligeiramente abaixo da média. E em relação ao ano de 2020, a diferença favorável tem sido bastante significativa. Apenas na primeira quinzena de Abril, morreram menos 1.332 pessoas em 2021 do que em 2020 (4.279 óbitos vs. 5.611). 

No entanto, uma comparação simples pode dar algumas conclusões enganadoras, e a esconder sinais preocupantes. Na verdade, o mês de Abril deste ano está agora a “beneficiar” ainda do morticínio de Janeiro e Fevereiro, porque potencialmente haverá menos pessoas muito vulneráveis, porque o Inverno se antecipou e levou muitas. Aliás, contas feitas, o ano de 2021 mostra-se ainda extremamente mortífero por causa dos dois primeiros meses: até 15 de Abril registam-se 46.624 óbitos, quase mais 8.700 em relação tanto ao ano de 2020 como à média pré-pandemia.

Assim, para melhor percepção da realidade, optou-se por elaborar uma análise comparativa, para cada grupo etário, até para também fazer sobressair, mais uma vez, que a pandemia nunca foi “global”, ou seja, para uma grande parte da população foi inócua. E para aquela em que não foi, a estratégia seguida – incluindo a suspensão da actividade não-covid – trouxe, e está a trazer, efeitos “secundários” nada negligenciáveis.

Uma imagem com mesa

Descrição gerada automaticamente

Uma nota prévia antes de apresentar, em detalhe, a situação em cada grupo etário. Tendo em consideração que a mortalidade até aos 55 anos é relativamente baixa, optou-se por mostrar os resultados de forma distinta em função dos grupos etários. Assim, até à faixa dos 45-54 anos elaboraram-se gráficos de barras que apresentam os níveis de mortalidade de 2021, 2020 e média pré-pandemia no período considerado (Janeiro até 15 de Abril), enquanto a partir dos 55 anos se escolheu mostrar a evolução diária da mortalidade total (média móvel de 5 dias) para ser mais facilmente perceptíveis as variações ao longo do tempo.

Menores de 5 anos

Tal como sucedera com o ano passado, a pandemia não tem afectado os recém-nascidos. Na verdade, pelo contrário. As duas mortes neste grupo etário atribuídas à covid-19 atingiram bebés com gravíssimas deficiências que, por si só, seriam letais. No total de todas as causas, desde Janeiro até 15 de Abril de 2021 apenas morreram 55 crianças com menos de um ano e 12 crianças com idade entre 1 e 4 anos. O somatório (67 óbitos) é muito inferior ao registado em 2020 (84 óbitos) e à média pré-pandemia (106 óbitos). Mesmo sabendo-se que a pandemia causou uma redução nos nascimentos, parece evidente que a taxa de mortalidade infantil diminuiu significativamente em Portugal durante a pandemia, o que demonstra o absurdo dos temores relativamente às crianças de tenra idade. Acrescente-se que não se registou, igualmente, a morte de qualquer grávida portuguesa.

Crianças e adolescentes entre os 5 e 14 anos

Sem registo de qualquer óbito por covid-19 desde o início da covid-19, a mortalidade total neste grupo etário ao longo de 2021 também tem sido mais baixa (21 óbitos) do que no ano passado (23) e em relação à média pré-pandemia (26). O Inverno trágico não o foi para este grupo etário, como já se sabia.

Adolescentes e jovens adultos entre os 15 e 24 anos

Sendo a ocorrência de óbitos ainda (felizmente) bastante rara neste grupo, observa-se que entre Janeiro e a primeira quinzena de Abril de 2021 houve um número de mortes mais baixo (76) do que o verificado no ano passado (89) e em média no período anterior à pandemia. Os meses de Janeiro e Fevereiro não tiveram qualquer efeito – ou se o tiveram foi favorável.

Jovens adultos entre os 25 e 34 anos

Sendo normal que este grupo etário tenha uma mortalidade sensivelmente o dobro da anterior – mesmo se, felizmente, ainda baixa –, também neste caso não se observou qualquer impacte relevante dos dois mortíferos primeiros meses de 2021. No entanto, apesar da mortalidade total ter sido menor do que em 2020, o número de óbitos em 2021 foi um pouco superior à média anterior à pandemia. Porém, pouco relevante.

Adultos entre os 35 e 44 anos

Tal como nos grupos etários anteriores, o efeito do trágico Inverno de 2021 não se fez sentir nesta faixa de forma relevante em comparação com a média pré-pandemia. No entanto, o número de óbitos por todas as causas nesta faixa etária foi, até 15 de Abril, quase 6% superior à do ano passado. Essa diferença deveu-se apenas aos dois primeiros meses (Janeiro e Fevereiro) – a diferença foi de 20% desfavorável para o ano de 2021 –, uma vez que a partir do início de Março (até 15 de Abril) do presente ano a mortalidade foi menor tanto em relação a 2020 como à média do período anterior à pandemia, com 170, 192 e 205 óbitos, respectivamente. 

Adultos entre os 45 e 54 anos

Os dois primeiros meses de 2021 foram particularmente mortíferos nesta faixa etária. Os óbitos por todas as causas em Janeiro e Fevereiro deste ano, incluindo covid-19, foram 27% acima do ano passado e 16% acima da média do período anterior à pandemia. Esse excesso de mortalidade nesses meses tem sido, entretanto, atenuado pela redução registada a partir de Março (até 15 de Abril), uma vez que, neste último mês e meio, o total de óbitos foi inferior quase 15% em relação aos outros dois períodos de referência (2020 e média pré-pandemia). Esta evolução pode indiciar que os dois primeiros meses de 2021 podem ter matado sobretudo pessoas já vulneráveis nesta faixa etária, porquanto actualmente o excesso de mortalidade em 2021, para esta faixa etária, já só é 5% superior à média do período pré-pandemia.

Adultos entre os 55 e 64 anos

Para este grupo etário, sobretudo o mês de Janeiro de 2021 foi particularmente mortífero, com o número de óbitos a suplantar, em grade parte deste período, os 40 óbitos por dia, quando a média pré-pandemia (e mesmo os valores em 2020) rondava apenas os 30 óbitos diários. Embora não existam dados oficiais sobre a mortalidade por covid-19 nesta faixa etária – a informação disponibilizada pela DGS agrega os grupos etários de forma distinta –, o número de vítimas fatais não terá ultrapassado os 4 óbitos para esta doença. Em Março, a mortalidade total nesta faixa etária desceu, estando em valores abaixo dos do ano passado (aquando da primeira onda da covid-19), mas ligeiramente acima dos valores da média pré-pandemia. A existência de um excesso de mortalidade em 2021 face à média pré-pandemia a partir de Março – depois da situação dos dois primeiros meses do ano e com a covid-19 a reduzir o número de vítimas – constitui um motivo de grande preocupação. Com efeito, tendo morrido nos meses de Janeiro e Fevereiro de 2021 (face à média pré-pandemia) mais 494 pessoas deste grupo etário seria expectável que os óbitos em Março e Abril fossem agora muito mais baixos. Como tal não sucede, uma hipótese plausível será a ocorrência de mortes por efeitos colaterais da suspensão do SNS (adiamento de consultas, diagnósticos, exames e cirurgias) durante a pandemia.

Adultos entre os 65 anos e 74 anos

Similar situação à referida para o grupo dos 55-64 anos está a suceder neste grupo etário. A mortalidade total em Janeiro e Fevereiro de 2021 foi particularmente grave (4.501 óbitos) face ao ano passado (3.001) e à média pré-covid (3.098). Sobretudo em Janeiro e na primeira semana de Fevereiro, o número total de óbitos ultrapassou os 80 por dia (e chegaram mesmo a aproximar-se da centena), quando os valores médios, para essa época do ano, se situavam entre os 50 e os 60 por dia. No entanto, apesar de a covid-19 ter começado a dar tréguas a partir da segunda quinzena de Fevereiro, a mortalidade neste grupo etário manteve-se sempre em níveis um pouco mais elevados do que aquilo que seria expectável, uma vez que só em Janeiro de 2021 tinham morrido quase mais mil pessoas do que ano passado. Significa isto que, considerando que a mortalidade atribuída à covid-19 está em níveis muito baixos e também o elevado excesso de mortalidade em Janeiro e Fevereiro, o nível de óbitos que se registam na actualidade podem reflectir a maior letalidade de outras doenças fatais, resultante da suspensão da actividade normal do SNS durante os últimos 12 meses.

Idosos entre os 75 e os 84 anos

A mortalidade total em Janeiro e Fevereiro (sobretudo na primeiro quinzena) foi extraordinariamente elevada neste grupo etário face à média pré-pandemia, e em ainda muito mais comparando-se com 2020 (que teve um surto gripal bastante fraco neste período). Comparando os dois primeiros meses de 2021 com o período homólogo de 2020 e a média pré-pandemia observamos um excesso de mortalidade total de 4.410 e 2.718 óbitos, respectivamente, Esta “sangria” justifica, em grande parte (talvez até mais do que o plano de vacinação contra a covid-19), o decréscimo de óbitos totais a partir de Março. Com efeito, sendo certo que a mortalidade neste grupo etário está agora, desde Março, bastante abaixo dos números do ano passado (aquando da primeira vaga da covid-19), Portugal estará a “beneficiar” sobretudo da “perda” por morte (nos dois primeiros meses do ano) dos mais vulneráveis. Apesar da evidente evolução favorável nos níveis de mortalidade total no último mês e meio, considera-se que, com o forte abrandamento da covid-19 e o plano de vacinação a abranger uma grande parte deste grupo etário, que estes deveriam apresentar valores ainda mais baixos. Saliente-se que, para este grupo etário, o ano de 2021 (até 15 de Abril) está ainda com um excesso de mortalidade 26% superior ao ano passado e 22% superior à média pré-pandemia.

Idosos maiores de 85 anos

Estando aqui em causa um grupo muito heterogéneo (com taxas de mortalidade muito distintas e bastante crescente com a idade), a análise não pode ser muito rigorosa. Em todo o caso, os dois primeiros meses de 2021 mostraram-se extraordinariamente gravosos nesta faixa etária. A mortalidade total chegou a ultrapassar os 300 óbitos diários durante a segunda quinzena de Janeiro – atingindo mesmo os 350 óbitos em alguns dias –, o que confronta com valores médios pré-pandemia da ordem dos 170 a 180 óbitos diários. O excesso de mortalidade manteve-se ao longo de Fevereiro, embora com níveis menos elevados. Em todo o caso, comparando com 2020 e a média pré-pandemia, Janeiro e Fevereiro deste ano registaram valores superiores a cinco mil mortos. Considerando que estamos a referir-nos a um grupo populacional formado por cerca de 320 mil pessoas, estes valores constituem uma hecatombe, uma situação perfeitamente anormal. Perante isso, não surpreende que a mortalidade a partir de Marco – acompanhada pelo plano de vacinação e o abrandamento dos casos de covid-19 – esteja agora em níveis bastante mais baixos do que em anos anteriores. Essa redução pode ser, porém, enganadora, porquanto poderá estar a resultar sobretudo na redução da coorte dos mais idosos. Saliente-se que entre Março de 2020 e Fevereiro de 2021 morreram cerca de 58.530 pessoas com mais de 85 anos, o que representará uma taxa de mortalidade acima dos 18%, sensivelmente três pontos percentuais acima da média.

Fonte: SICO

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