Raquel Ochoa | Escritora

À D. Carolina telefonam diariamente para agendar uma vacina que já decidiu não tomar. Tem os seus motivos. Os telefonemas pouco a incomodam. Identifica os números, bloqueia-os, vira a página, esquece-se facilmente das conversas maquinais com os administrativos.

Os filhos, porém, perguntam quando, quando? Qualquer dia mente-lhes, promete a si mesma. Mas isso é o fundo do poço… “não posso mentir aos meus filhos, isso seria a última estação deste comboio de insanidade”.

Não confia nos jornais, que vergonha ser jornalista hoje em dia. Que vergonha se prestarem àquele papel. Há quanto tempo nota ser o jornalismo outro braço do Governo, o seu serviço de relações públicas com nome trasvestido.

Está tudo mal contado, mal explicado, se acompanha as notícias, então, sente-se no reino do absurdo.

Usa a televisão como cabide. É perfeita para pendurar um colete de linho. Veste-a muito bem.

Claro que muitas vezes não está a par das últimas, e já lhe aconteceram situações embaraçosas, apesar de, nessas alturas, jogar a sua mais alta cartada, recomendação verídica do seu médico:

─ Não vejo notícias porque estou proibida pelo meu cardiologista.

Mas também não confia no “diz que disse”. Ainda ontem na mercearia saiu airosamente de uma conversa com umas vizinhas, alguém dizia que a irmã, médica nos Cuidados Intensivos do São João, comentava serem as pessoas vacinadas as que agora ocupam aquela ala.

Conhece as Artes, viveu no estrangeiro mais de metade da sua vida, palmilha Veneza há 40 anos, recebe e é recebida por embaixadores de meio mundo. Já caiu e já se levantou muitas vezes. Aliás, esse é o seu forte, está sempre pronta a recomeçar.

A batalha vital, porém, tornou-se gigante há uns meses. Uma depressão veio juntar-se a outras patologias crónicas.

“O que é estar deprimida?” Perguntou-lhe alguém insensível. Estar deprimida é não sermos nós-próprios, mas em prol do fim do fim do diálogo preferiu guardar para si a explicação por inteiro. Quantas conversas não nos valem a deslocação dos maxilares nem durante três segundos?

D. Carolina não sente vontade de fazer nada, mas sabe, esse é o pior sintoma.

Por isso, como quem escreve uma ficção, convenceu-se: naquele dia iria ver o mar. Mora no Monte do Estoril, não é longe, mas não vai lá há um ano. “Se calhar é por isso que estou deprimida”. 

Já a conduzir, assume o compromisso, “nem vou chatear os polícias, não vou mudar de concelho. Até me apetecia ir ter com a Glória, a Sintra, mas hoje basta-me pôr os pés num areal aqui perto”.

Ao chegar a Carcavelos vê o aparato policial montado junto à rotunda. Os condutores são abordados um a um. “Pensava que isto já tinha passado… às vezes dava jeito ver o noticiário…”

─ Bom dia, qual o motivo para se encontrar fora do domicílio?

D. Carolina sente-se intimidada, vai buscar os documentos sem lhos pedirem, não sabe o que responder, deixa-os cair para a zona dos pedais, agora não os consegue alcançar. Sem querer está a pedir desculpas pela atrapalhação. Os olhos do agente estão raiados de dever, não a aliviam um segundo.

─ Eu…  eu vim ver o mar. – foram as palavras honestas em obséquio.

─ Conhece o site Beachcam.pt ?

─ Não. O quê?

─ Beachcam ponto pt, assim em inglês. Pode ver o mar por lá. Agora faça o favor de circular.

Ela dá a volta à rotunda, escoltada pela incumbência de sair dali rapidamente. A praia, interdita a transeuntes, encontra-se cheia de surfistas e gente a correr.

Não tem força para rumar a outra localização, volta para casa involuntariamente, pisando nos documentos cada vez que trava. 

“Este ano vou descer a Avenida da Liberdade no dia 25 de Abril, hei-de arranjar forças.”

Mais deprimida ainda, a claridade dos seus pensamentos permanece imperturbável:

“A origem desta pandemia é a ignorância e o tratamento para ela é o senso comum.”

Leia o CENTRO COMERCIAL LIBERDADE – Capítulo I

Leia o CENTRO COMERCIAL LIBERDADE – Capítulo II

Leia o CENTRO COMERCIAL LIBERDADE – Capítulo III

Leia o CENTRO COMERCIAL LIBERDADE – Capítulo IV

Apoie o Farol XXI