Vasco Gato | Poeta

I

O dia foi sempre a vontade de o viver. Não há outra medida. Estas horas minguadas à transparência da sua passagem apenas servem para erigir uma necrópole. Alamedas estáticas, canteiros com as suas pétalas bocejadas, chuva sem ventre. 

II

As mais terríveis prisões são as que nos infligimos. O equívoco tem a sua arquitectura e deixa-se habitar. Claro: quem não quer ufanar-se de cidadania? Mas o prestidigitador está dentro de nós. O truque vive tão prenhe de sentido. Só pode ser. As palavras perdem-nos e salvam-nos. São o nosso grito na noite espessa e o torvelinho de sombras em que nos despenhamos. 

III

De rosto tapado à mercê da desfiguração. De porta fechada à mercê do eco interior que nos trucida. De dedo apontado à mercê do que fará a vergonha dos livros de história. De sangue apavorado à mercê do coração alheio.

E tudo para não encarar a inutilidade. O infinitamente pequeno é-nos infinitamente maior. A lição do poema é essa. E o abismo por vezes é um degrau. Desçamo-lo juntos. Descobertos. Encontrados. Confiados ao dia de olhos bem abertos.

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