Pedro Girão | Médico Anestesiologista

Todos os dias peço um galão “morno”, “pouco quente” ou “com leite frio”; todos os dias me trazem um galão demasiado quente.

Todos os dias peço políticos sábios e que se preocupem com o bem comum; todos os dias me trazem políticos incompetentes e corruptos.

Todos os dias peço especialistas, cientistas e conselheiros do governo que tenham alguma noção da realidade, das pessoas, da saúde; todos os dias sou forçado a cumprir regras determinadas por teóricos que não vêem mais nada além do seu gabinete ou do seu ego.

Todos os dias peço cidadãos e compatriotas sensatos, corajosos e realistas; todos os dias vejo pessoas (deliberadamente) ignorantes, medrosas, tacanhas e delatoras.

Todos os dias peço tratamentos investigados, testados e ensaiados com tempo e transparência; todos os dias me pedem opiniões e conselhos sobre incógnitas arranjadas à pressa das quais não sei ao certo o que dizer.

Todos os dias peço boa Ciência e boa Medicina; todos os dias me servem mentiras e manipulação e interesses financeiros.

Todos os dias peço que vejam os números e entendam que estão a perder estupidamente dias, semanas, meses de vida com medidas sem sentido; todos os dias me trazem pessoas cegas e que deitam fora a vida e as outras pessoas.

Um galão morno. Não é pedir muito. É certo que posso desistir – do galão, da confeitaria, do país… Mas todos os dias tenho a esperança de que seja hoje o dia em que se cumpra o milagre. O milagre simples de perceberem a realidade simples. De matarem o medo. O futuro é hoje. Vivam!

Apoie o Farol XXI