Pedro Almeida Vieira | Cidadão 

Pedro Almeida Vieira

Dies Solis

18/04/2021

DA ILITERACIA ESTATÍSTICA DOS MÉDICOS (FORA AS EXCEPÇÕES) / Porque entram nas Universidades com as melhores médias, nem sempre os médicos têm a humildade de assumirem lacunas de conhecimento e falhas diversas e graves não apenas em Ciências Sociais como sobretudo Estatística, aspectos tão vitais nos dias de hoje por via da necessidade de se aplicarem conceitos matemáticos e de Epidemiologia. Na verdade, não acreditem em nenhum epidemiologista que tenha horror à Matemática ou que saiba pouco mais do que somar, multiplicar e dividir.

Tem-me vindo a chocar a forma como muitos médicos e supostos peritos da nossa praça (incluindo geodésicos que aprenderam sobre testes PCR em casa, e o Doutor N) recusam aplicar (ou desconhecem) o Teorema de Bayes, e negam veementemente a possibilidade da ocorrência de muitos falsos positivos em situações de baixa prevalência, e face às especificidades dos testes que não são de 100%. Essa postura é desconcertante e constitui um corolário da iliteracia matemática dessa gente. E causa muitos males. E muitos gastos também.

Isto a pretexto de um interessante artigo do Guardian, publicado hoje, e que aborda profundamente este tabu: a iliteracia dos médicos. E não esquecendo de abordar outros casos, como a interpretação de resultados de exames de cancros.

Dies Lunae

19/04/2021

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DA EXPOSIÇÃO E DA AUSÊNCIA DE PEDAGOGIA / Nada contra o testemunho de médicos que estiveram hospitalizados com covid-19. Mas já que, e deduzindo eu que agiram de forma voluntária e consciente, se aprestaram à exposição e a falar detalhadamente do que passaram e das mazelas com que ficaram, os médicos Isabel do Carmo e Daniel Sampaio poderiam ter também falado das comorbilidades que possuíam, além da idade. Assim ficava-se com o quadro completo. 

Como nada disso fizeram, e que seria necessário para um enquadramento adequado da doença, o testemunho deles vale só por isto: pela exposição pessoal, pelo alimentar do medo e pela ausência de pedagogia. 

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Na verdade, em vez de a DGS andar a inundar a imprensa com campanhas de medo (incluindo improváveis, por raríssimas, imagens de jovens saudáveis em UCI), bem melhor empregue seria investir em campanhas contra o consumo de tabaco, em prol de uma alimentação mais saudável e de maior exercício físico – e que tornaria as pessoas mais resistentes ao SARS-COV-2 e a muitas outras doenças. Mas está quieto: promover exercício físico para quê? Até se tem restringido a prática de modalidades aos mais jovens…

Dies Martis

20/04/2021

DOS BENEMÉRITOS / A nossa activista Greta Thunberg vai doar 100 mil euros (presumo da sua riqueza pessoal e não dos contributos para a luta contra as alterações climáticas) para melhorar a justiça na distribuição das vacinas em todo o Mundo.

Sinceramente, acho bem este tipo de apoios, e sobretudo acho essencial sobretudo o apoio à vacinação de doenças evitáveis que afectam milhões de crianças nos países subdesenvolvidos. 

Porém, estou também muito curioso em saber qual será o montante da doação pessoal do nosso benemérito Durão ‘Goldman Sachs’ Barroso, que como sabido preside a Aliança Global para as Vacinas (GAVI).

DO “MICRÓBIO” DAS COSTAS LARGAS / Portanto, temos uma provecta senhora de 89 anos, vida presumivelmente bem vivida, sete anos acima da esperança média de vida, apesar de fumadora. Apanha covid-19. Sobrevive à covid-19. Morre meses depois. A probabilidade de alguém morrer com 89 anos no prazo de um ano, segundo as tábuas de mortalidade do INE, é de 18%. Porém, eis a causa da morte da irmã do José Cid: sequelas do SARS-COV-2…

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Dies Mercuri

21/04/2021

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DAS PATETICES DO POLÍGRAFO / Mais uma da jornalista Maria Leonor Gaspar e do Polígrafo. Isto não é embirração: é defesa do rigor e da verdade, sobretudo porque estamos a falar em fact-checking.

Desta vez, a nossa extraordinária Maria Leonor Gaspar, em mais um fascinante trabalhinho para o Polígrafo, defende que um post que quantifica os crimes de corrupção estaria correcto se se considerasse o sentido lato do termo corrupção (aceite pelas ciências sociais), mas como o Código Penal tipifica como corrupção apenas uma estrita parte dos crimes, então ela conclui que o post é Impreciso. 

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Seguindo este raciocínio, direi então que afirmar ser o Polígrafo um serviço de fact-checking é VERDADEIRO em sentido lato, mas já é IMPRECISO se se aplicar o sentido estrito, simplesmente porque o sentido lato aceita fact-checkings patéticos. E o sentido estrito não.

DA COINCIDÊNCIA OU DO VÍRUS MUITO CONVENIENTE / Estados Unidos, Brasil, México e Índia – muito pela sua dimensão – contribuíram até agora com 44% das mortes atribuídas à covid-19. 

A Índia, contudo, sempre foi até agora país com um contributo marginal em termos relativos, pesando na pandemia apenas por ter 1,36 mil milhões de habitantes. Na verdade, oficialmente, a mortalidade per capita está ainda abaixo da Noruega (133 vs. 135 por milhão de habitantes), embora saibamos que as metodologias são distintas.

Porém, nos últimos dias, a Índia tem sido “vendida” na imprensa internacional e nacional como o novo foco de infecção, como o novo cenário de Apocalipse, mesmo se a mortalidade ronde actualmente os 10 óbitos-equivalente da população portuguesa.

Eu não sou absolutamente nada adepto de teorias da conspiração, mas apenas destaco algumas curiosidades sobre a evolução da pandemia. Dos três outros maiores contribuidores para a mortalidade-covid, os Estados Unidos estão agora com apenas cerca de 20% dos óbitos diários que registavam em Janeiro; o México com apenas 30% do pico observado de Janeiro; e o Brasil, apesar de ter tido um crescimento expressivo desde Janeiro, está agora, desde início de Abril, numa clara tendência de estabilização ou mesmo decréscimo (em redor de 2.800 óbitos diários, depois de um máximo um pouco acima dos 3.000 óbitos).

Será que o vírus decidiu sair das Américas, e agora foi-se em meter com os indianos? 

Talvez. Nunca se sabe os caprichos deste vírus, que parece estar sempre na crista da onda para alimentar o pânico mundial…

Dies Jovis

22/04/2021

DAS MENTIRAS COM PERNA CURTA / Aproveitando um comentário do médico Pedro Girão sobre a “exposição” da experiência-covid do psiquiatra Daniel Sampaio nas páginas do Expresso, veio o doutor Gustavo Carona tecer algumas/longas considerações no seu conhecido estilo de Médico Humanitário, que acha que todos os que não comungam a sua piedosa visão são uns energúmenos que merecem as chamas do inferno. 

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Escreveu ele que “se quisesse assustar o povo” diria então que… e desbobina alguns (alegados) casos assustadores. Reais, segundo ele. E acaba mesmo por dar letras aos doentes para os “humanizar” sem revelar a identidade. Todos casos tenebrosos. Todos medonhos. Todos com supostas pessoas novas e que ficaram com mil mazelas. 

Não vou aqui contrapor com informação reservada a que, por razões profissionais, tenho estado a ter acesso, e que por sinal não confirmam que no Hospital Pedro Hispano de Matosinhos (onde o Doutor Carona trabalha), tenha havido pessoas jovens ou não jovens em UCI sem comorbilidades graves prévias. Por isso, mesmo eu sabendo que o Doutor Carona, inventa muito, por agora seria a minha palavra contra a dele. 

Porém, há um caso em concreto em que a informação é pública e conhecida, e que mostra e demonstra a mentira de perna curta do Doutor Carona. 

Escreve ele que houve o caso do “R, que com 31 anos foi o doente que esteve mais tempo em ECMO do mundo”… Ora, sucede que o tal R existe mesmo, chama-se Mário Rui Ribeiro, é efectivamente o “recordista em ECMO”, esteve na UCI do Hospital do Doutor Carona (e em outros) por complicações da covid… mas tem mais 22 anos do que o Doutor Carona diz… E olhem que entre os 31 anos e os 53 anos apanham-se muitas comorbilidades que não se conhecem aos 53 anos. Garanto-vos. E ter 53 anos não é ser jovem (digo eu que tenho 51).

Podem-me dizer que é apenas um pormenor. Não é. Os outros exemplos do Doutor Carona têm muita ficção pelo meio. Garanto-vos. Aliás, o director clínico do Hospital Pedro Hispano bem podia vir dizer qualquer coisa sobre esta matéria. E sobre o estado do Doutor Gustavo Carona.

DO TEMOR ÀS SUCESSIVAS CORRECÇÕES DO DOUTOR CARONA / Aquilo que torto nasce, nunca ou tarde se endireita… 

Alguém chamou a atenção ao Doutor Gustavo Carona, a pretexto da minha denúncia das suas “inverdades” (ou ficções), de que o doente com mais tempo de ECMO (oxigenação por membrana extracorporal) tinha 53 anos, e não 31 anos, como ele escrevera previamente. 

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Ágil, o Doutor Carona corrigiu o texto; afinal, agora temos o seguinte trecho: “R, com 31 anos foi o doente mais novo em ECMO do mundo”.

Uma chatice, Doutor Carona: terá de fazer nova correcção!

Eu, que não sou médico e muito menos intensivista, rapidamente encontrei referências, em relatórios, a milhares de recém-nascidos que já foram tratados com ECMO. 

Por exemplo, num relatório da Extracorporeal Life Support Organization (vd. imagem) refere-se que até Julho de 2017 tinham sido sujeitos a esta técnica de suporte de vida 35.598 recém-nascidos. Deduzo que todos tinham menos de 31 anos…

Ah, Doutor Carona, poupe-me a nova correcção, argumentando que se estava a referir a doentes-covid. 

Não vá por aí. Há vários artigos científicos que relatam casos de uso de ECMO em adolescentes e crianças com covid. São poucos, mas o tal R não foi o doente mais novo em ECMO do mundo. 

Por isso, por clemência, não me obrigue a vir de novo corrigi-lo, colocando aqui artigos científicos que o desmentiam mais uma vez… Tenho aqui um já preparado sobre uma jovem espanhola de 16 anos com covid-19. Mas tenho mais…

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DA ADEQUAÇÃO DAS TAREFAS / Dou uma elevadíssima importância ao fact-checking. Imensa, mesmo. Por isso, acho quase “criminoso”, deveria ser mesmo proibido pela Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas (CCPJ), atribuir a função de verificação de factos a um jornalista-estagiário (no caso em apreço TP790 A) de 23 anos e uma licenciatura em Ciências da Comunicação da Universidade do Porto. O Polígrafo é useiro e vezeiro desta prática de uso de estagiários. Vive disso, porque sai mais baratucho aos seus donos.

O fact-checking a sério deve ser feito apenas por jornalistas séniores e com elevada experiência investigativa, Ponto. 

A excepção, concedo, será para coisas deste género: saber se certo treinador de futebol é ou não o mais novo de sempre. São daqueles casos em que ser verdadeiro ou falso é “igual ao litro”. No resto, insisto: deveria ser proibido jornalistas-estagiários em tarefas de fact-checking.

Dies Veneris

23/04/2021

DA LÚCIDA VOZ DOS VELHOS EM TEMPOS DE PANDEMIA / Para quem tem conhecimentos mínimos de Geografia de Portugal (quer dizer, quem leu livros), o nome da luso-francesa Suzanne Daveau é incontornável, e não apenas por ter sido companheira de investigação e mulher de Orlando Ribeiro.

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Nos seus (joviais) 95 anos, uma idade em que já viu muito (tinha 15 anos quando Paris, onde nasceu fui invadida pela Alemanha Nazi), tem agora uma (justa) exposição de fotografias na Biblioteca Nacional. 

A TSF foi ouvi-la, e o que ela diz nestes tempos de pandemia e de medo, a partir do minuto 16:07, deveria merecer-nos uma reflexão sobre o que se andou a fazer (e ainda se faz) aos mais idosos, que há um ano vivem enclausurados para supostamente os proteger: 

“Contrariamente ao que todas as pessoas imaginam, uma pessoa da minha idade não tem nenhum medo de morrer seja de covid ou de outra coisa. Todos os jovens há minha volta estão com medo terrível de me contaminar. Felizmente, há alguns que me vão visitar, mas há pessoas que não me vão visitar, porque têm medo de me contaminar, o que é um absurdo. Porque morrer de covid ou morrer de outra coisa na minha idade é exactamente igual. [Jornalista: ‘se calhar porque a querem ter por mais tempo…’] Mais tempo, um ano ou dois? Que importância isso tem? A minha vida é o que está aqui (…) registado”. 

DO ESCARRO OU DOS ABUTRES E HIENAS SOBRE A ÍNDIA / Estimativas apontam para a ocorrência entre 400 mil e 500 mil mortes prematuras por ano apenas por poluição indoor (nas habitações) na Índia. Englobando a poluição outdoor chega a 1,4 milhões de mortes anuais. A tuberculose mata 240 mil indianos por ano. A prevalência desta doença ronda os 2,4 milhões. A taxa de mortalidade infantil na Índia é 13 vezes superior à portuguesa. E podia continuar a desbobinar indicadores de saúde (e de morte) neste país de 1,3 mil milhões de habitantes.

Digam-me então: acham mesmo que a covid-19 é O problema sanitário da Índia? Acham que o estado de saúde pulmonar e de condições de vida da Índia é similar à do Ocidente? Onde andava a imprensa abutre e hiena antes da pandemia? Não se morria horrivelmente naquele país antes de tudo isto?

Ou tudo isto agora serve apenas para se criar mais uma pandemia de medo – já há quem fale de um “duplo mutante” indiano -, agora que os números dos Estados Unidos estavam a baixar e as variantes britânica, sul-africana é brasileira já tinham dado o que tinham a dar? 

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DOS MEUS HERÓIS / Pedro Abreu, que foi professor universitário e dirigente sindical, é o meu herói… Não me cansarei de lhe tecer encómios, loas e ditirambos! Que Portugal e a sua/nossa Universidade, poço de conhecimento e tolerância, se orgulhem para sempre por o terem tido como douto professor e supra representante sindical. 

Merece uma estátua: de busto bem preso ao alicerce. Que não saía de lá. Desde já.

Bem-hajam homens desta estatura! Grandiosos, mesmo que pareçam pequenos. Que sejam pequeninos.

Dies Saturni

24/04/2021

DOS EPIDEMIOLOGISTAS, DOS PLACEBOS E DE MIM TAMBÉM / Em entrevista ao Público, Elisabete Ramos, presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia, defendeu que a campanha de testes nas escolas foi “importante para transmitir alguma confiança”, mas não é uma medida “eficiente”. Basicamente, por outras palavras, disse que os testes à covid nas escolas servem para gastar dinheiro, sossegar consciências e fazer ganhar bons trocos a farmacêutica, laboratórios e intermediários. 

Eficiência do ponto de vista de controlo epidemiológico, valem zero. 

DA FACA E DO ASSASSINO / Em 1990, a Índia tinha 28,1 milhões de pessoas com doença obstrutiva pulmonar crónica (DOPC), valor que subiu para 55.3 milhões em 2016. As mortes entre estes dois anos aumentaram de 624 mil para 848 mil. As doenças cardiovasculares e a DOPC são hoje as principais causas de morte neste país asiático, e as que mais cresceram nos últimos anos. Ambas estão associadas fortemente à poluição atmosférica (outdoor e indoor), e fracas condições higiénicas.

O SARS-COV-2 é assim, nestas circunstâncias, apenas a faca que espeta. Mas não o assassino que a manejou.

Enquanto, isto, na Imprensa Ocidental, incluindo a portuguesa, os jornalistas usam a tragédia da Índia completamente desenquadrada. Para culpar ainda mais a faca espetada (leia-se, covid) seriam até capazes de a fazer rodar no corpo do agonizante para que os gritos da vítima pudessem assustar mais as suas temerosas audiências… 

É isso que eu sinto quando, depois das covas de Manaus, os jornalistas salivam ao mostrar os crematórios indianos.

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