Alfredo Vieira | médico intensivista (Centre Hospitalier Réginal Mons-Hainaut, Bélgica)

Sim, minhas crianças: mesmo sabendo que já são muitas horas acumuladas de aulas de (tão penosas quanto, muitas vezes, fúteis) “ esforço restritivo pelo próximo ”, “ apagamento cidadão solidário ”, e “zelo pela afluência às camas de Cuidados Intensivos pelo país fora “, digo-vos que ainda é preciso ter alguma paciência, já que após um ano e tal de dessensibilização a qualquer noção de “ risco ” e de pujante propagação do medo, da culpabilização, da delação, entre outros sentimentos nobres que tal, a coisa agora tem mesmo que ser feita com calma.

Disseram-vos que a curva é que era importante, e agora a curva está boa? Não se iludam, pois até pela sua natureza curvilínea, a evolução é incerta no futuro, e não faltam modelos matemáticos contraditórios de diversos duvidosos especialistas para o provar.

Disseram-vos que era tudo para proteger os idosos, população de risco desta malfadada doença? É certo que a maioria já está vacinada (ou deve estar, já que até se estão a vacinar nesta altura diversas colectividades “menos idosas”…), mas como todos sabemos (nem que seja pelos sempre apaziguadores cartazes da DGS), a doença até nem poupa alguns jovens.

Constatou-se que o vírus é sazonal, e a primavera chegou? Nunca fiando no tempo, nem nas “variantes”.

Pensaram que a vacina vos protegia e aos outros, tudo com uma eficácia ímpar (até segundo os números adiantados há uns meses pela respectiva indústria)? Nada impede, em teoria mais ou menos ficcional, que um vírus poise nas vossas narinas para depois ser espirrado para cima de um desgraçado qualquer que ainda não esteja vacinado. E por isso, na essência, não deve, pois, mudar nada quanto a medidas de prevenção, pelo menos se não quisermos matar a avó ou a tia, como vários ansiosos doutores, nas vestes de profetas do armagedão, nos adiantam em teorias catastrofistas variadas.

Agora a sério: não se pretende aqui falar da forma como foi conduzida a gestão pandémica. Escreveu-se já tudo o que havia a escrever sobre o assunto, e se não se escreveu, acho que já passou o tempo de se escrever numa perspectiva útil (ainda que fútil…). Cada nação seguiu o seu caminho, as avaliações e conclusões seguir-se-ão em ambiente pós-crise, como deve ser, a ver se aprendemos alguma coisa com os erros que, entretanto, se detectarem, e que desejavelmente nos ajudarão para a próxima.

Não foi globalmente bonito, muito menos apologista de qualquer espécie de nobreza humana, mas quem nos mandou ter preguiça de ler “A Peste” do bom do Albert? Pela positiva, ficamos pois todos mais acordados sobre diversas realidades, nomeadamente sobre as perigosas fragilidades da Liberdade individual (que afinal, mais do que um direito, é uma espécie de “concessão” da maioria manipulada), sobre a prevalência da falta de coragem social e inter-geracional, e sobre a incapacidade e falta de adaptabilidade ao imprevisto das esclerosadas estruturas centralizadas do poder actual que nos (des)governa….

Felizmente, uma solução vacinal eficaz surgiu em tempo recorde, e isso é tudo o que interessa nesta altura!

Apelo, pois, a uma improvável capacidade global de fazer-se um reboot de valores (que pensávamos, e bem, que partilhávamos colectivamente, num fenómeno talvez ilusório, mas todavia apaziguador e até motivador em termos sociais e individuais), e a (re)partir-se do zero algures em meados deste ano de 2021:

  • Os velhinhos e restante malta “com risco” estão protegidos, e até se fala em proteger “menos velhinhos” e “menos arriscados”. Deixando-nos então de debates sobre “pertinências de actuação” na atribuição de prioridades, aceitemos esse facto, e que as populações de maior risco desta doença estão, no essencial, protegidas ou em vias de o ser.
  • A vacinação protege o próprio da infecção, e a respectiva transmissão. Repito: globalmente, na prática, uma pessoa vacinada não tem doença. Nos casos excepcionais em que a tenha, esta será menos grave do que se não fosse vacinada. E, com a excepção destes raros casos, obviamente que protege a transmissão para os outros (até prova do contrário, e que seria excepcional). E essa devia ser a única mensagem a ser veiculada por entidades de Saúde responsáveis, pelo menos as que tivessem por preocupação uma grande abrangência da vacinação na sociedade.
  • Os problemas das UCI’s, dos hospitais e dos sistemas de Saúde em geral; pois que sejam geridos por quem de direito, e ao povo o que é do povo: a exigência do direito à universalidade de um tratamento de qualidade quando dele carece (e, claro: qualquer que seja a doença). O resto é competência dos incompetentes que têm a incumbência de gerir esse serviço, que desgraçadamente foram precarizando ao longo de décadas (a falta de vagas em UCI é crónica, a COVID apenas a agravou, e trouxe-a para o horário nobre das televisões).
  • Sim, a vida tem riscos: quando tomo um Nimed para dores ou febre, corro um pouco menos riscos de sangrar do estômago do que com um Brufen, e um pouco mais de risco de ter uma hepatite, e ambos, às vezes, conduzem à morte. Se for um Nolotil, pode acontecer morrer de uma infecção em contexto de aplasia medular. Vi pessoas morrerem com epidermólises (um equivalente de queimaduras severas) por tomarem anti-epilépticos. Vi pessoas morrerem por reacções alérgicas a vários excelentes fármacos, e todos eles sem excepção têm infelizmente essa nefasta e indesejada capacidade. Ou seja, vi pessoas morrerem nas mais diversas circunstâncias, na sequência de atitudes que visavam salvar-lhes a vida, ou, por vezes, apenas trazer-lhes corriqueiramente maior conforto e satisfação pessoal.
  • Aprendi que esses riscos fazem parte da vida, na Saúde como no âmbito daquilo que constitui todo o resto do nosso dia-a-dia em geral, e que “efeito secundário” não deve ser confundido com “contra-indicação”.
  • O risco de efeitos indesejáveis que constitui esta vacina, no panorama específico dos medicamentos, e no panorama mais geral da vida, é ridículo. Tremendamente ridículo para as populações que correm sérios riscos com o vírus da moda; apenas ridículo (mas ainda ridículo) para os que correm menos risco. A partir daqui, é critério das nossas desautorizadas (por culpa própria e alheia) “autoridades de Saúde” quem a deve tomar, quando a deve tomar, qual deve tomar e quantas vezes. E devemos livremente sujeitar-nos a essas indicações, aceitando com responsabilidade as consequências se não o fizermos (sendo que essas consequências não constituem “perda de liberdade”, pelo menos enquanto a toma da vacina for livre).
  • -Sim, este vírus pode mutar, e “variar”. A existência de mutações/variantes, mais uma vez, é um problema potencial de Saúde Pública (comum a tantos outros vírus conhecidos), e que, como qualquer problema potencial, não existe ainda, devendo ser vigiado e gerido por quem de direito (mapeamento, reforço sazonal da vacinação adaptada às mesmas, etc…), se for preciso. Não é para ser usado como forma de condicionamento ao cidadão comum, que paga impostos para que aqueles façam o seu trabalho sem o chatearem com eventualidades, e sobretudo sem se lhe substituírem na tal gestão do risco.
  • -Por fim, a probabilidade deste vírus continuar a ser relevante em termos de potencial “disruptor” do funcionamento habitual (bom ou menos bom…) da “máquina de Saúde”, no contexto mencionado, é ele também nesta altura irrisório, sobretudo quando saímos da fase sazonal em que ele se sente mais confortável. E sobretudo em comparação com todas as demais mazelas que, ainda que afastadas dos telejornais, continuam a afligir as pessoas, e cá estarão para no-lo relembrar, assim que voltarem a ter o privilégio de ser convenientemente diagnosticadas e tratadas, com as consequências do atraso decorrente de tudo o que aconteceu desde Março 2020, e que vão começar a ser identificadas nos meses vindouros.

Em suma, discutiu-se durante meses qual devia ser o equilíbrio “de rebuçado” entre pratos da balança que tentavam por um lado pesar um certo custo sanitário, versus por outro o custo social, económico e da saúde mental em geral. Houve muita discussão, o consenso não foi possível e as variáveis eram de facto múltiplas e complicadas, quando não raras vezes manipuladas.
Mas atentem: independentemente disso tudo, hoje o peso em cada prato da balança está alterado com a vacinação! E estamos a meio da primavera! Ou seja, e voltando à conversa do “risco”: os “efeitos secundários” de uma atitude (e que nunca constituíram “contra-indicação”) são hoje muito, muito menos importantes que ontem.

Ou seja, crianças, penso mesmo que já é tempo de tocar a campainha do lockout.

Lockout total!

Tempo de voltarmos à insanidade radical dos tempos passados, e que consiste em permitir que cada qual gira os seus próprios riscos da maneira que melhor lhe aprouver, deixando todo esse povo maluco e irresponsável entregue ao seu destino.

Urge neste contexto uma palavra especial de carinho dedicada aos germofóbicos paranóicos (e cidadãos especialmente preocupados com a sua própria saúde – e dos outros – em geral), e que agora se podem sentir desamparados: são pois convidados a continuar a usar máscaras FFP2 (ou apenas cirúrgica, para os mais temerários), onde e quando quiserem, ou até um preservativo de corpo inteiro, tudo em total liberdade; podem continuar a não comer sandes, gomas e coisas que tal em público; podem continuar a evitar aglomerações, cinemas, praias, passeios na rua, parques infantis, hotéis e esplanadas. Podem nunca mais ir a um café ou a um restaurante; podem continuar a conduzir o carro sozinhos e com fato de cosmonauta. Podem (devem?) continuar a não ter quaisquer contactos sociais, a respeitar “a bolha de um”, já que o FaceTime, o Skype, o Messenger, o Zoom, entre tantos outros, vão continuar aí para vos servir gratuitamente. Ou seja, não se apoquentem: continua a ser possível estarem protegidos contra todo o tipo de germes e suas variantes mais ou menos imaginárias se assim o desejarem, com todas as vantagens da “normalização” de tais atitudes que decorreu nestes benditos meses que passaram.

Quanto aos outros cidadãos, os menos conscientes, eles só pedem para não serem (ainda mais) vítimas sociais, económicas e mentais deste primeiro (mas, afinal, tão grande…) grupo. E dos políticos cobardes que, há um ano e tal, lhe faz as vontades.

É tempo de restituição, sem restrições, da Liberdade perdida.

“To the future, and beyond”.

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