Este é o primeiro do que espero venha a ser uma série de artigos sobre a relação da Covid com as pequenas livrarias, em especial, e com a cultura, em geral. Começo por descrever a génese de cinco livrarias de que sou próximo – qualquer que seja a forma ou a razão dessa proximidade. Na verdade, há várias maneiras de nos relacionarmos com esses locais – para mim sagrados, para tantos mágicos, para outros essenciais – cuja função é alimentar-nos em livros. Uso propositadamente o verbo «alimentar»: ler, comer, beber, amar, respirar estão ou deviam estar no mesmo plano de necessidades da famosa pirâmide. 

Quis evitar o discurso do «pobres de nós», ou do «que norma mais sem razão, esta de fechar as livrarias»: por detrás de cada livraria está um sonho, uma luta, um sentido para a vida de quem as abriu e de quem as frequenta.

É desse sonho, desse sentido, dessa luta que quero falar.

Luís Serpa | Marinheiro e escritor

GALILEU

A primeira livraria desta série chama-se Galileu e fica em Cascais. É uma livraria icónica na Linha e a mais antiga: abriu em Dezembro de 1972 (celebra este ano 49 anos, um aniversário bonito que faz crescer água na boca para o próximo). Durante muitos anos foi a única livraria de Cascais. Nasceu de um estudo de mercado feito por um grupo de homens de esquerda, que face à inexistência de uma livraria na «maior coutada do país» resolveu abrir uma. Só um deles tinha experiência do negócio de livros – ou dos livros enquanto negócio.  A Galileu atravessou este quase meio século como se atravessa um campo de minas – ou, melhor analogia, como se faz um percurso de obstáculos a cavalo: saltando-os e galopando para o próximo. Após o 25 de Abril a reserva ficou vazia. Quando voltou a povoar-se, a Galileu sobreviveu à custa de doze horas de trabalho diário. No princípio dos anos 80 comprou uma grande e valiosa biblioteca, que a sustentou durante uns anos. Em 2008 vem outra crise, outra luta, outra sobrevivência. Para, chegados a 2020, uma pandemia lhe bater à porta – ou lhe fechar a porta. 

Não me lembro de quando conheci Caroline Tyssen e a Galileu. Sei que em 1980, estava a trabalhar em Aveiro, resolvi fazer uma actualização dos meus conhecimentos de poesia portuguesa, que então se resumiam a Fernando Pessoa, Reinaldo Ferreira e alguns clássicos. Foi à Galileu que recorri, claro – os meus pais moravam na Linha e era para ali que ia nos raros momentos em que vinha a Lisboa. Nessa altura tinham acabado de ser publicadas bastantes antologias de poesia e comprei uma série delas. Quando ia pagar, Caroline diz-me: 

─ Leva tantos poetas e não leva Pedro Tamen? Não gosta? 

─ Não é por isso, é porque não conheço. Na verdade, não conheço nenhum destes (com excepção de Nuno Júdice, talvez tenha acrescentado).

─ Olhe que devia levar, o Pedro Tamen é fantástico.

Sim, é. Durante muitos anos, foi o meu poeta português favorito, a seguir a Pessoa (ex-aequo com Nuno Júdice, tenho de acrescentar).

Cheguei a casa, falei ao meu Pai numa maravilhosa livraria de Cascais – o comandante, grande leitor, queixava-se sistematicamente de ter que ir a Lisboa para comprar livros, do estado lastimável da Bertrand e por aí fora. Ficou cliente, amigo e fã da Galileu e de Caroline, que apontou, até ao fim dos seus dias, como o paradigma da competência numa livraria – «Não houve livro que me tenha aconselhado de que eu não tivesse gostado».

RIMAS E TABUADAS

A Rimas e Tabuadas nasceu muito depois da Galileu e a ter seguido algum estudo de mercado, foi ao contrário: «Os livros têm os dias contados» era a voz corrente. «Olhem para as livrarias, todas a fechar».

Mas era sonho velho, antigo e contra esses não há estudos de mercado que valham. Sílvia Lemos olhava para um canto de um edifício de Guimarães – a sua cidade-natal – e via uma livraria onde poderia provocar surpresas através dos livros e dos momentos à volta de uma mesa de café. Livros e pessoas, livros lidos, livros a ler. Livros e pessoas para partilhar leituras. 

A Rimas e Tabuadas (na vida real, Sílvia é professora de matemática, daí o «Tabuadas») nasceu em 2017. Para além do café – biológico – organiza coisas como a Hora do Conto, as Janeiras pela Paz, faz apresentações de livros, promove viagens e jantares literários.

Na Rimas e Tabuadas apresentei o meu livro, com leitura de excertos pela Inês Lagos, numa noite memorável. Público interveniente, a Inês a ler maravilhosamente, a inexcedível e cativante simpatia da Sílvia.  Abençoados sejam os sonhos de adolescência, não é, Sílvia? Sobretudo quando se consegue concretizá-los e partilhá-los.

LEITURIA

Desta curta série – que se poderia intitular «Livrarias do Coração» – a Leituria tem um lugar especial. É a única que se especializou, num processo de evolução darwiniana, em livros em segunda mão (uma coisa que aprecio particularmente, por todas as razões, das mais pragmáticas às mais filosóficas). Vítor também tinha experiência profissional na área dos livros: antes de a abrir trabalhara na Bulhosa. A sua simpatia é tão vasta como o seu conhecimento da literatura e a sua visão para o futuro. Um futuro no qual abrir uma livraria não seja visto como uma loucura ou uma forma particularmente lenta de suicídio. «Abrir uma livraria», diz-me Vítor, «é um serviço inestimável prestado à comunidade.»

Ele tem vindo a prestar esse «inestimável serviço» desde 2015, atravessando todas as dificuldades – é um tema comum, este das dificuldades que vão surgindo e elas vão ultrapassando, prova de que «o sonho comanda a vida». A pandemia fechou-lhes provisoriamente as portas, mas não a vontade.

PALAVRA DE VIAJANTE

Dulce Gomes e Ana Coelho viajavam ao longo do Danúbio – com um livro de Cláudio Magris na mão (O Danúbio) – sonhavam, analisavam, perguntavam-se «O que é o cosmopolitismo?» quando decidiram abrir a livraria Palavra de Viajante, que era na altura (2011) a única livraria dedicada especificamente à viagem em Lisboa. Ainda é: se bem possa parecer, a Ler por aí… (que deixei para o fim da lista porque sou da casa) não é uma livraria de viagens. É uma livraria de lugares, o que é diferente. A Palavra de Viajante leva o cosmopolitismo ao seu extremo: «Mas ser cosmopolita, hoje, não pode ser só conhecer perfeitamente a loja que fica na esquina de Paddington Street com Marylebone High Street, em Londres, ou ainda na semana passada ter tomado um chá mesmo ao lado do MoMA, em Nova Iorque; é, também, conhecer o sapateiro ao fundo da rua onde moramos, a mercearia do bairro, saber que abriu um restaurante novo na rua de trás, ter o nosso lugar favorito no café da esquina e reconhecer o carteiro quando nos cruzamos com ele no balcão do banco», dizem-me Ana e Dulce. É verdade. Tema antigo da minha reflexão e da minha vida, o cosmopolitismo é fazer do mundo a nossa rua (ou pelo menos, de algumas ruas do mundo a nossa rua). Fazer-se de Palma de Maiorca, Londres, Genebra ou num minúsculo porto da Andaluzia, da Bretanha ou de uma ilha das Caraíbas a nossa cidade enquanto ali se está. Para um nómada, reconhecer uma loja, um restaurante, um café da cidade onde agora vive (itálico porque este agora pode durar uma semana ou um ano) tem um valor indescritível. A Palavra de Viajante fez da integração no comércio local – na sua rua – um ethos, uma razão de ser. Talvez venha daí – tanto como da competentíssima selecção de livros, guias, mapas e relatos que ali se encontra – o meu deslumbramento cada vez que lá vou. Lisboa abriu-se ao mundo, o mundo abriu-se a Lisboa e a Palavra de Viajante é tanto um sintoma como um vector dessa mudança.

A literatura e a viagem estão ligadas há muitos anos: dar a ver a quem ficou o que se viu alhures, descrever os tormentos e os deleites por que se passou, falar do diferente são tentações antigas, às quais poucos resistem – seja escrevendo-os, seja lendo-os. Por muito solitária que a viagem seja, partilhá-la, contá-la, revivê-la são partes integrante dela.  

LER POR AÍ…

Em 2006, uma senhora chamada Margarida Branco planeou uma viagem de férias à Normandia e à Bretanha e, grande leitora que é, procurou livros cuja acção se desenrolasse nessas regiões. Margarida não queria guias, fossem eles de restaurantes, monumentos ou lugares a visitar. Queria romances, ficções que se passassem naqueles lugares – ler Manuel Vázquez Montalbán dá-nos uma imagem de Barcelona mais rica do que qualquer guia jamais dará, por exemplo (apesar de essa Barcelona ter desaparecido, mas isso é outra história). Margarida bem procurou, mas não encontrou uma forma fácil de saber que livros falavam, ficcionalmente, dos lugares onde ela pretendia passar férias – e lê-los.

Daí até ter a ideia de fazer uma página na net que compilasse livros por regiões deve ter decorrido um milissegundo. Ainda não a conhecia, mas hoje sei que Margarida tem uma prodigiosa e fascinante capacidade de gerar ideias – e perseverança para as concretizar. Foi esta a génese da Ler por aí…: desejo de viagem, gostar de ler, uma ideia. (Uso Ler por aí… no feminino. Margarida refere-se a ela no masculino. Podem escolher.)

Conheci a Margarida Branco em 2007. Comecei por lhe propor um texto sobre um livro que acabara de ler e me fascinara – Dark Star Safari, de Paul Theroux, entretanto traduzido pela Quetzal como Viagem por África (esta é a versão da Margarida.  A minha é que foi ela quem mo pediu. Não somos um casal, mas temos os tiques); pouco depois, sugeri-lhe que fizéssemos jantares baseados nos livros. Alguns anos depois, já a nossa amizade era de pedra e cal, começámos a acarinhar a ideia de uma livraria / café, fiel ao conceito de base: uma ponte entre a geografia e a literatura, ligar lugares e livros, dar a conhecer as comidas de uns e outros.

A Ler por aí… Café (ou o, como preferirem), livraria e espaço cultural abriu em Março de 2019, sob o comando exigente e competente da Margarida (a minha relação com o projecto é, sempre foi, informal. Ajudei com a decoração, fiz menus, listas de vinhos, dei ideias e sugestões, mas sempre como «pai adoptivo», como ela diz. Aquilo foi – e é ainda – obra sua). Em Março de 2020 preparávamo-nos para celebrar o primeiro aniversário quando foi imposto o primeiro confinamento. Reabrimos em Maio. A facturação – que estava a zeros, claro – voltou a crescer. Veio o segundo confinamento e em Dezembro desse ano a Margarida decidiu – e muito bem, na minha opinião – fechar a loja. Nadar contra a corrente só é sinal de perseverança se for feito durante pouco tempo e a corrente não for demasiado forte. 

A Ler por aí… não morreu. Está a reformular-se, adoptar outro modelo, até poder voltar ao que era. As boas ideias, os projectos que nascem do amor, do sonho, da determinação e da competência não morrem. Adaptam-se.

A história de cada uma destas livrarias – tão diferentes, tão iguais – não será certamente muito diferente da de todas as outras pequenas livrarias independentes do nosso país: fruto do sonho, do desejo de partilhar, da ideia de serviço à comunidade, da vontade de integração num tecido económico local. 

Esse sonho foi duramente posto à prova da realidade com as reacções ao vírus SARS-COV-2. No próximo artigo, veremos como.
Genebra, 07/04/2021 – Palma, 30/04/2021   

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