Pedro Girão | Médico Anestesiologista

Ah, a força da Natureza! Em Maio, a chuva, de que há um mês ninguém suspeitava! E, agora, os peritos prevêem altas probabilidades de chuva até 17 de Junho… Um mês de chuva, imaginem! (Que disparate…) É esse um dos maiores problemas das previsões dos peritos: quando está sol, prevêem sol, quando está chuva, prevêem chuva; o difícil é acertar na mudança – no tempo como na doença.

Evidentemente, a Natureza ri-se das previsões, mais ou menos catastrofistas, da chuva, do sol, ou do Covid. Há um ano, afirmei aqui que os números da pandemia iriam permanecer baixos até Outubro, como veio a acontecer – mas isso fui eu, que não sou um profeta televisivo nem governamental. As razões são as razões de sempre: temos dezenas de anos de gráficos oficiais a mostrar essa sazonalidade no nosso país. Muita gente esquece as lições do passado, as lições do ano passado; mas não podemos esquecer.

Eu não vou deixar esquecer como foi há um ano: perante números baixíssimos, o único discurso (do Governo, da Oposição, dos médicos, dos peritos influencers) era “fiquem em casa”. Proibiram, mais ou menos directamente, os restaurantes, as praias, as visitas, os futebóis, o desporto, os concertos, os casamentos, as festas, as aulas, as consultas, a vida. Eu não vou deixar esquecer as centenas de vezes em que nos ameaçaram com a catástrofe “para daqui a 2 semanas”. Eu não vou deixar esquecer os Centros de Saúde fechados ou os médicos que no Verão me diziam, quase orgulhosamente, “eu não vi mais nenhum doente presencial desde Março”. Eu não vou deixar esquecer o medo – nem a cobardia. Nem as mentiras. Nem o autoritarismo. Nem a arrogância.

Um ano volvido (que cansaço de remar contra a maré…), a Natureza das infecções respiratórias riu-se novamente das previsões. Em Outubro falaremos, talvez. E, até lá, teremos de suportar as medidas, essas mesquinhas demonstrações de força de autoridades incompetentes para um povo ignorante. As medidas são uma dança da chuva índia – que uns dois terços das pessoas segue como a uma religião. “Índios”: eis o que são dois terços dos meus compatriotas, acreditando desesperadamente em profecias vãs e em medidas sem sentido. Lembram-me os séculos e séculos em que as pessoas enchiam as igrejas a pedir misericórdia e o fim da peste ou das epidemias. Esse tempo medieval de Fé voltou – numa versão moderna chamada Ciência.

Neste Verão, não se esqueçam que a vida urge. Não se esqueçam que cada um de vós vai perder, já está a perder, por razões não-Covid, um ou dois ou três amigos (“ó minha angústia!…”, diria Pessoa, que conhecia melhor a vida do que jamais algum de nós conhecerá o Covid). Não percam tempo: vivam! Apanhem sol, apanhem chuva, arranquem o medo, conversem, riam, encontrem, festejem, casem, celebrem, abracem, amem. A vida não espera, a Natureza não muda. Não sejam “índios”: a única dança sensata é ao som (bem alto!) das vossas músicas favoritas. Vivam!

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