Luís Altério | Escritor

1.

─ O “Marreco de Maringá” e o “Power-Point” estão finalmente desacreditados. Tardou mas veio a confirmação…

─ E o Lula respira. Isto não quer dizer que fica livre das acusações. Se há indícios, então que se recomece tudo com Juízes sérios comprometidos com a ética. O positivo dessas descobertas, embora interceptadas por invasores, é que aqueles dois ‘tonhos’ da justiçazinha foram desmascarados.

─ Mas a Lava Jato foi tão importante! 

─ É. Até que pegaram no caso-Lula e deixaram a ética para trás.  

─ Dá pena… Dá pena… Como é que esse Marreco de Maringá, o xerife-herói de Curitiba, deitou tudo a perder com o ódio a quem quis dar mais dignidade a uma certa classe social que fora desprezada desde sempre pela classe política-ratoneira? Por que esse ódio a quem deu voz e espaço ao oprimido? … Bastaria seguir os trâmites legais contra o Lula e pronto.

─ Mistérios! É como esta pandemia, também um mistério: é tão estranha a forma como o Planalto está a conduzir o problema.  Esse desprezo na forma de incompetência. Esta falta de empatia pelo Povo em geral. Sabes, já o Max pensava nesses interesses-macabros mantidos espertamente por apelos complacente à moral e à religião, e assim justificar os seus devaneios negacionistas…

─ Estou com medo.

─ … como? Estas malditas máscaras! Fala mais alto…

─ Quando vamos ser vacinados?! Eu quero a minha vida de volta! E que esses “vampiros” que nos governam deixem de sugar o nosso sangue!

─ Ah… E são os “vampiros” da vez – só que agora burros e terraplanistas – que nos angustiam! … Queres acompanhar-me até ao centro? Vou comprar umas havaianas. É só ir lá, comprar, e vir de volta.

─ Vamos.

2.

─ Compraste dois pares? E iguais?

─ Estas que tenho nos pés já estão velhas… E repara bem. Olha lá…

─ Ah, esta havaiana aqui tem duas solas…

─ Exatamente. Lembras-te que fiz a operação ao quadril deste pé. Puseram uma prótese e a perna ficou mais alta que a outra e daí…

─ A vida é feita de acertos, amigo.

─ Como? … Fala mais alto. Parece que isso nos teus beiços abafa.

─ Tens que espremer mais o teu Plano de Saúde! Insistir, para endireitar essas pernas! Já que a outra te dá dores, está na hora … Havia um tal abade Bonawita Blank que pegava os passarinhos e para os manter perto de si, sem que parecesse que estavam em cativeiro, cortava-lhes as partes inferiores de seus bicos e deixava-os em liberdade…

─ E como era isso?

─ Como os passarinhos não podiam alimentar-se na natureza, voltavam ao velho abade para obterem a comida. Esperto esse Bonawita! Portanto, não sejas esses passarinhos, abre o ‘bico’ e espreme o Plano de Saúde pelo teu Direito de andar bem!

─ Bom, chegamos… Vou já colar a sola à outra e esperar a noite toda para colar bem. Até amanhã. 

3.

─ Havaianas novas, hein? 

─  É. Fiquei a pensar nesse teu abade e…

─ Como?

─ O abade!…

─ Ah, sim. As máscaras, as máscaras… Fala alto! É como em tudo, aqui no Brasil. Nós os dois, olhando o Planalto-negacionista e o que vemos? Vemos os abades Bonawita Blank’s a cortarem os nossos ‘bicos’: Sem sermos livres de verdade para comermos o que os “abades” desta vida querem, e ainda ficamos felizes quando nos dão as “migalhas”. E o Povo olha para isso tudo com admiração, como se estes “abades” da vida fossem os benfeitores. Percebes a nossa angústia?

─ Percebo, pois. É como se a angústia da quarentena ainda não chegasse para nos atormentar?!

─ E o mais angustiante, é a falta de Plano Nacional! Coordenar a Nação e…

─ Nem de propósito… Eu li o livro do grande russo e comovi-me como só os grandes escritores comovem. Até o Tolstói o tinha em grande conta. A “melhor em toda a literatura moderna”, sentenciara o velho Mestre. Nas narrações de Alexander Petrovitch Goriantchikov, sabemos o quanto a vida pode ser penosa sob os grilhões na Casa dos Mortos! E injusta! Mesmo para os prisioneiros da Sibéria! Oh, essa álgida Sibéria! E de como tudo é posto ao dispor do desespero, quando a alma se agonia! … As miríadas artimanhas! Os mais ínfimos copeques ganhos por trabalhos penosos ou lucros microscópicos provindos das artimanhas várias! Tudo isso durante meses sóbrios, para no fim juntar uns copeques suficientes e comprar com o pecúlio todo a vodca-adulterada possível e embriagar-se o mais intenso possível numa só noite gélida! E no dia seguinte, começar tudo de novo! Mais uns penosos meses sóbrios para ganhar uns míseros copeques em trabalhos pessoais, depois dos trabalhos forçados e sonhar a noite da bebedeira seguinte com álcool-viciado…. Depois, tinham o hospital sabe lá deus como; e no hospital das instalações da Casa dos Mortos, era mais uma odisseia de sobrevivência, embora, segundo Alexander Petrovitch, os médicos fossem atenciosos e benevolentes. Mas sujeitos, todos, às regras implacáveis da Prisão. Mesmo deitados e com pneumonia, por exemplo, ali ficavam estendidos com os grilhões, sem que os médicos pudessem retirar-lhes aquele símbolo barulhento e ergástulo de humilhação. Mas alguns detentos sonhavam com o boletim escrito: Febris catarrhalis; no fundo no fundo, era uma simulação entre o médico-benevolente e o detento-a-fazer-de-doente. Afinal, tudo era possível com coragem e engenho e contando com a gentileza do médico. Tudo somente para ter um pouco menos de vivência atroz! Sempre tinha ali, no hospital, uma cama com um cobertor em condições! Mas havia também quem abusasse da estadia do hospital, embora um inferno, mas sempre melhor que nas instalações dos calabouços siberianos, eles, então, tudo faziam para se manterem no hospital. Mas no fim, mais dia menos dia, a fatídica pergunta dos médicos, a pensarem nos outros coitados e cansados e exaustos a sonharem com uma cama menos ruim: “Não acha que já é tempo de ir? Você já está em convalescença, precisamos do lugar” 

─ É, isso mesmo… Entretanto, só temos os abades Bonawita Blank’s desta vida que resolvem cortar os “bicos” para garantirem a Lei do Menor esforço e pôr o Povo a trabalhar, arriscando a vida e aumentando “cepas” ainda mais mortais, para manter o Capital Financeiro VIVO!

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